Peça pelo Número [1/5]

Há exatamente um ano, me submeti ao procedimento cirúrgico de redução do estômago, a cirurgia bariátrica. Ela obviamente tem um nome técnico bem mais complexo, mas que aqui na intimidade eu a chamo carinhosamente de bari. Pesava, naquela oportunidade, 106 kg. Com 1,64m de altura, meu IMC – índice de massa corporal (aquela tabelinha de aceitação ou não-aceitação social) – era de 39,4, obesidade grau II. Estava a 0,6 (ou pouco mais de um quilo, pelas minhas contas – não dá pra confiar muito nelas, tá?) da obesidade mórbida, essa maneira gentil de classificar as pessoas.

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Sempre tive problemas com a balança (ou com o que o mundo espera da balança). Sempre tive, também, uma relação estranha com a comida. Depois de uma adolescência relativamente ativa, no início da minha vida adulta parei de fazer esportes, embora tenha tentado, sempre sem sucesso, engrenar na academia. É que academia nunca funcionou pra mim (em minha defesa, sou uma entusiasta da vida acadêmica).

E sou – fui e serei – uma pessoa densamente ansiosa. Mas minha ansiedade – e só posso falar dela porque é a única que eu conheço – é bem diferente da ansiedade das listas do buzzfeed.

Eu era dona de um paladar infantil, não provava coisas novas e tinha um tipo específico de comida que eu gostava: a que eu já tinha gostado. Quando eu digo que tinha uma relação estranha com a comida quero dizer que tinha uma relação louca com a comida. Algo que estava intimamente ligado ao meu quadro de ansiedade um-pouco-mais-que moderada. A ansiedade te faz fazer umas coisas loucas mesmo e uma das minhas, durante muito tempo, foi comer. Lembro, por exemplo, de ter a sensação de nem querer comer tanto e continuar comendo por motivos de <insira aqui qualquer motivo que você ache louco o suficiente para fazer uma pessoa comer loucamente>. Loucura Pura Aplicada IV, ofertada em qualquer Graduação de Ansiedade que se preze.

Eu comia loucamente e, ao mesmo tempo, tentava de tudo pra emagrecer. Foi uma vida toda assim. É que desde que me conheço por gente escuto que preciso emagrecer pro meu próprio bem (chegaremos nesse debate). De dietas malucas (tipo aquela de tomar suco de limão puro em jejum todo dia durante um mês) aos inibidores de apetite (“naturais” ou não), acho que passei por tudo. Às vezes funcionava por um tempo, mas, mais vezes do que não, nem isso. É claro que passei uma vida ouvindo que não tinha força de vontade. Que para emagrecer basta querer verdadeiramente.

Tentativas frustradas se acumulando e discursos cheios de razão sobre querer-é-poder de todos os lados. Adicione a seguir uma boa dose de baixa auto-estima moldada a partir de tudo isso – eu nunca fui muito boa para lidar com as impressões (frustrações, opiniões) dos outros sobre mim. E não esqueça a ansiedade, é a cereja desse bolo. Meu peso e todo esse entorno foram formadores da minha personalidade.

Esse era, em linhas gerais, meu combo de sanduíche, refrigerante e batata-frita pré-bari.


22 comentários sobre “Peça pelo Número [1/5]

  1. Que texto bom de ler!! “Ansiosa” pra ler os que vêm por ai! 😉
    Amei sua coragem de contar essa sua experiência tão intensa e importante da sua vida. Tenho certeza que muitos irão se encontrar nessas suas linhas.
    Parabéns!

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  2. MUITO BOM!!! (Ahã, em caixa alta mesmo!)
    Ansiosa estou eu pelos seus próximos textos.
    Ri muito sobre o “sobre”. E achei muito fofo o “marco zero”.
    Ou seja, seu blog tá genial!! Texto inteligente e criativo, com um toque todo seu.
    PARABÉNS!!! (Ahã, to gritando de novo!)
    😉

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  3. …eu li logo que vc postou, mas só agora estou tentando me manifestar. Sabe, por um momento, me senti culpada e cheia de remorso pela tua ansiedade exacerbada, mas foi só foi um momentinho, porque rapidamente fui inundada por um sentimento de “orgulho” por essa garra, determinação e coragem que caracterizam essa menina/mulher que contrariou toda familia ao optar pela bari para atingir seu objetivo. Adoro teus textos, adoro tua sapiencia e sou suspeita ao elogiar…te AMO ❤😘, e escreva mais, muito mais…

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  4. Martinha, puta coragem, vc é f… parabéns pelas palavras pinçadas que nos fixam numa leitura hipinótica e suave. parabéns por mais esta inovação, além de pratos exoticos, a coragem de humilhar sua propria baixa auto-estima colocando tudo isto pra fora. Sem dúvida você se superou mais uma vez!

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  5. Que privilégio o meu ver todo esse processo acontecendo. Se mostrando, se transformando e se fortalecendo. Orgulho define! (E aquela ansiedade básica de ler o que está por vir para ver se nossas ansiedades batem de alguma forma, podemos formar um clube das ansiosas não-anônimas). ❤

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  6. Querida Marta, talvez você não lembre mais da velha professorinha da pré-escola, mas eu lembro muito bem, como se fosse ontem da menininha sapeca, que iniciou os primeiros passos (ou mãos?? ou mente??) no mundo da escrita, no mundo do se fazer entender por meio da escrita!!!! Parabéns linda mulher, pelo ser humano e excelente escritora que se tornou!!! Beijocas mil!!!

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