Mito da Caverna [2/5] | La Marseillaise [3/5]

(você-sabe-quem tava aqui na ansiedade e juntou dois pedaços num só)

Todo o processo preparatório para a cirurgia levou, do momento em que pensei no primeiro “será?” (e foram incontáveis “serás” depois desse) até o efetivo agendamento, mais ou menos dois anos.

Primeiro, a cirurgia – longínqua, quase uma entidade, etérea – habitou o Mundo das Ideias, um cantinho da minha mente que frequento muito. “Marta, você nunca pensou em operar?”. Operar?, eu questionava, fingindo que não tinha entendido para então, puxando um certo espanto, emendar: Não! Imagina! Que absurdo!

Depois que a semente estava lá já por uns meses, resolvi que iria em frente. Não. Na verdade, não resolvi nada. A primeira coisa que fiz depois de colocar a cirurgia abertamente na mesa foi negar que essa opção estava ali, visível, sendo pensada. Porque ela é uma marca de derrota. Vem num pacotinho de fracasso, embalada com algumas frases feitas de fiasco: “Você precisou de cirurgia? Poxa, não tem força de vontade mesmo!”, “Mas você sabia que tem gente que morre/engorda tudo de volta/fica louco depois, né?”. E posso garantir: a pessoa que mais estimula essas pequenas injeções de ânimo é o próprio postulante a operado. Porque somos ensinados assim. Sabemos que somos preguiçosos, desleixados, não temos força de vontade mesmo. Sempre vamos querer mais um pedaço e podemos até começar dieta, mas a gente sabe que não vai adiantar nada, né? A cirurgia é tudo isso que dizem mesmo.

Será?

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No mundo real, meu processo começou de um lugar pouco ortodoxo. Geralmente, as pessoas decidem operar no consultório do cirurgião e então partem para cumprir todos os requisitos necessários para o procedimento, nos demais consultórios. Eu comecei na terapia, antes mesmo de saber que tinha começado. E acho, com honestidade, que é lá que todo mundo deveria começar. Porque a verdade mais verdadeira que tiro de tudo isso que tenho vivido é a de que a bari acontece no estômago, mas o estômago é o último dos problemas – e talvez o mais fácil de resolver (até porque geralmente há um cirurgião muito competente envolvido).

A revolução que precisa acontecer para que o procedimento tenha maior chance de êxito, essa não tem cirurgia que resolva. Ela acontece na cabeça. E só quem pode fazer isso é você. Parece até autoajuda, né? É que até agora não sei como falar disso sem cair nesse clichê.

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Gosto muito de usar essa palavra – revolução – para descrever o que aconteceu comigo. Porque todo esse processo, pra mim, foi exatamente isso: revolucionário. Lembra quando eu disse que nunca fui muito boa para lidar com impressões (frustrações, opiniões) dos outros sobre mim? Quando eu disse que nunca fui muito boa quis dizer que sempre fui péssima mesmo. Nota zero. Acho que devo ao mundo todos os tipos de explicações e satisfações. Que não posso desagradar ninguém. Passo muito mais tempo do que devia me justificando e me desculpando. Um comportamento que deriva um pouco da ideia – louca e enlouquecedora – de que o mundo já está suficientemente decepcionado comigo. Por quê? <Insira aqui qualquer motivo que você ache louco o suficiente para fazer uma pessoa ter esse tipo de pensamento>.

Depois disso talvez fique mais fácil imaginar algumas batalhas de proporções épicas que aconteciam na minha cabeça. Eu estava querendo fazer essa cirurgia (a gente ainda não tinha intimidade) porque queria mesmo? Ou eu estava querendo fazer essa cirurgia (na verdade, a gente meio que se odiava) para atender a um apelo do mundo? Se o mundo fosse contra o procedimento, eu iria seguir em frente? E, em caso positivo, como eu iria explicar isso para o mundo? Por que eu precisava tanto da aprovação do mundo? Quem era, afinal, esse mundo? Por que eu pensava tanto na perspectiva do mundo e tão pouco na minha? Será que pensar assim não era uma forma de não fazer absolutamente nada tentando não decepcionar o mundo?

Eu poderia ficar aqui dias inteiros falando sobre todas essas perguntas. E, acredite, gastei várias sessões nisso também. Porque, pra Marta, problematizar sempre foi uma forma muito eficaz de não viver. De apenas assistir, refletir, reagir. E eu descobri isso aí. Exatamente isso. Eu descobri que esse era o meu grande desafio, meu grande problema, minha crise. Eu não vivia, eu só estava lá. Na maior parte do tempo, eu nem estava lá de verdade, eu só me assistia, como se minha mente pudesse ser totalmente descolada da minha própria presença.

E foi isso, essa tomada de consciência, que revolucionou a minha vida. Foi muito mais do que a bari. Não vou dizer que hoje eu sou uma pessoa arrumada (claramente não sou). Nem sei se isso tudo tem conserto. Mas eu consigo compreender que faço isso, identificar que estou fazendo e, bem, em última instância, problematizar a problematização excessiva.

Bom, estranho, mas so far so good.


14 comentários sobre “Mito da Caverna [2/5] | La Marseillaise [3/5]

  1. “Problematizar é viver”, se dizia em um tempo longínquo.
    Adoro quando você diz que o estômago é o último dos problemas, porque é isso mesmo, em todas as questões dessa vida, tipo, o problema começa muito antes de chegar ao estômago e a todos os órgãos afetados por essa nossa cabecinha ansiosa de meudeuzo. Mas é muito doido ver tudo isso de fora.
    Tenho hoje duas amigas que passaram por essa ~revolução~ corporal, uma sem cirurgia [i]bari[/i], mas com correções posteriores, e você, que encarou a bari (ó eu me achando íntima). E em nenhum dos casos o estômago era o problema. E em nenhum dos casos foi simples. Ou fácil. Ou apenas uma questão de vontade. Mas, sim, de revolução. Digo, sem medo, que você me surpreendeu, e segue surpreendendo, porque, enumero: 1) decidir fazer a cirurgia é uma puta decisão; 2) decidir mesmo depois de todas as tentativas de outras alternativas deve ser difícil pra caralho; 3) lidar com a opinião alheia deve ser ainda mais difícil (especialmente quando a gente não consegue simplesmente cagar para o que os outros – sejam eles íntimos ou não – dizem); e 4) mudar o estilo de vida depois era algo que eu pensava ser realmente difícil (pra não dizer que eu achava impossível). E não é falta de conficança nos amigos, é só entender que tudo é sempre mais foda do que parece ser.
    Mas aí a gente pensa que daqui de um peso “normal” é meio difícil entender o que se passa do outro lado. Quando eu peço um refrigerante no almoço a única pessoa que está me julgando de verdade sou eu mesma. Porém, contudo, entretanto, se só deixar de pedir uma Coca-cola em uma refeição se mostra um esforço absurdo e, muitas vezes (muitas mesmo), impossível de superar pra mim, o nível de orgulho a cada nova refeição aprendida, a cada nova mudança física e mental e a cada nova prova de vestido com braços e joelhos à mostra é sempre muito grande. Então, tudo isso pra dizer, mais uma vez: orgulho de tudo que tô vendo e lendo aqui.
    Mas ah, me prolonguei demais. (Cêjura?)

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    1. ah, Dani, que coisa mais incrível!
      muito obrigada por embarcar comigo nessa maluquice e por vir aqui dizer pro mundo que tem orgulho desta mente ansiosa que comanda (ou tenta) este corpitcho que hoje até mostra os joelhos!
      de verdade. gratidão é a palavra, mesmo!

      já quero esse textão num quadrinho na parede!

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  2. Ah Martinha…
    E quantas pessoas não são preguiçosas com o planeta, desleixadas com o conviver, sem força de vontade para encarar uma opinião contrária?
    Você é uma das mulheres mais incríveis que já conheci. Seja muito feliz neste seu novo ano particular.

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    1. Aru, eu nunca deixo de me surpreender com você! Muito obrigada pelas palavras, de verdade! A recíproca, por aqui, é muitíssimo verdadeira! ❤ (esse coração é verde, tá?)

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  3. Isso aê, Marta!!
    TAPA NA CARA do mundo!!
    Grita mesmo, escancara, e faz ecoar SUCESSO SUCESSO SUCESSO a partir da “marca da derrota”, antes impronunciável.
    “Frases feitas de fiasco” praqueles que não têm a coragem de tomar para si as rédeas da vida e preferem só “estar lá” a verdadeiramente viver.

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