Sala sem Mobília [4/5]

Mas nem só de exames de consciência se faz uma bari.

Para ser elegível para a cirurgia você precisa se submeter a intermináveis análises de todos os tipos. Laboratoriais, clínicas, diagnósticos por imagem, ressonâncias. Uns exames muito loucos, que você nem imagina que existam!

Foi o que eu fiz, então. E a cada resultado que eu pegava, uma certeza: <insira aqui qual certeza uma mente ansiosa tem num quadro desses>. Colesterol ruim altíssimo, triglicerídeos estourando todos os valores de referência, hormônios alterados, vértebras suprimidas, níveis de gordura completamente descontrolados em todos os órgãos analisados. Transtorno ansioso não especificado. Estava tudo errado. Era morte líquida e certa. A ignorância tinha sido uma benção até aquele momento. A fotografia de mim que aqueles exames fizeram era absolutamente horrível. Mas, acho eu, que a fotografia de qualquer pessoa feita por tantos exames assim deve ser igualmente horrenda. Porque, procurando bem, todo mundo tem defeito, só a bailarina que não tem.

Foi um longo e tortuoso processo de autodepreciação em forma de laudos colecionáveis. Às vezes eu tinha a nítida sensação que eu não iria nem chegar até o dia da cirurgia. Primeiro porque não tinha como uma pessoa viver muito mais naquela condição de saúde. Segundo, porque a cirurgia nunca parecia mais perto, só cada vez mais longe – beijo, plano de saúde.

Eu detesto falar ao telefone – como imagino que qualquer ansioso deva detestar – são variáveis demais envolvidas num mesmo evento. Durante o processo para aprovação da cirurgia, contudo, meu tempo era basicamente porcionado entre terapia (ufa!), exames e ligações – beijo, plano de saúde (2).

Não, senhora Marta, o processo ainda não foi finalizado”; “Senhora Marta, eu entendo, mas todos os laudos estarão sendo encaminhados para nossa central em Brasília para aprovação”; “Senhora Marta, a senhora será informada via telefone quando o procedimento for liberado”; “Não podemos encaminhar a autorização por e-mail, senhora Marta”; “Sim, senhora Marta, o procedimento foi liberado, mas este item o plano não cobre”; “Infelizmente não temos mais datas disponíveis para operar este ano, talvez na segunda semana de janeiro”.

Eu. Quase. Morri. E, dica: não tinha nada a ver com meu quadro de saúde física.

Até que, mesmo não sendo na segunda semana de janeiro, enfim tínhamos uma data.

E lembro bem: tínhamos também um plano de fuga. Por conta de um problema no fígado recém descoberto, eu precisaria de uma dieta líquida de 14 dias antes da cirurgia, algo bem difícil pra quem tinha aquele comportamento louco com a comida. Lembro de verbalizar que esses dias todos seriam a última prova (eu já tinha estabelecido várias outras antes disso, o que – como aprendi – não era o melhor recurso para tomada de decisões, porque legitimavam a tomada de decisão por exclusão, o que não é bem tomar uma decisão).

Caso eu não conseguisse passar 14 dias sem comidas sólidas, não poderia fazer a cirurgia e apertaria (teria que apertar) o botão vermelho.

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Mas eu consegui. Tinha chegado a hora. Oh boy.

E mesmo tendo treinado minha pequena cabeça durante vários meses para não pensar que eu tinha voluntariamente escolhido me submeter a uma cirurgia eletiva com risco de morte, eu estava obviamente pensando exatamente isso. Incontrolavelmente. Loucamente. Ferozmente. Violentamente. Eu tinha certeza que ia morrer. Que ia acordar na mesa de cirurgia porque a anestesia não tinha funcionado. Que a cirurgia iria dar muito errado e eu teria sequelas horríveis. Que não ia funcionar, não ia dar certo pra mim, eu era um caso sem perspectiva de solução. E eu tinha todas essas certezas na mesma intensidade. A única certeza que eu não tinha é de que daria certo, porque obviamente não daria. Era um erro. Rude. Me tira daqui.


3 comentários sobre “Sala sem Mobília [4/5]

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