Quem é mesmo o dono de quem? [5/5]

Vocês não vão acreditar, mas eu sobrevivi.

Minha bari foi absolutamente tranquila. Durou exatos 47 ou 56 minutos, não consigo dizer com precisão, até porque – pega essa! – a anestesia funcionou. Cá entre nós, vou contar um segredo: minha mente especialista em worst-case scenarios, ansiosa e fatalista não estava preparada pra isso. Ela certamente esperava outra coisa. Ela não sabia lidar com um panorama tão positivo.

Depois de uma cirurgia bem sucedida, passei por um pós-operatório sem maiores problemas. O primeiro mês foi um pouco mais complicado, é claro. Metade dele eu passei me alimentando em copinhos de café, de meia em meia hora, com líquidos que um dia tinham sido alguma comida com um sabor, mas que, no fim das contas, tinham todos o mesmo gosto insosso. Nos onze primeiros dias, também tive um pouco de dificuldade para encontrar posição para dormir, por conta de um pequeno dreno na barriga. Um dreno que estava ali por um motivo único: facilitar em caso de necessidade de nova intervenção cirúrgica. Duvido que você seja capaz de adivinhar qual era meu pensamento fixado sobre isso.

Mas a verdade é que mal consigo lembrar desse tempo. A bari funcionou. Meus exames têm estado todos controlados. Meu cabelo caiu, mas parou de cair e voltou a crescer. Emagreci.

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Mas não foi só isso.

Mudei minha relação com comida. A dieta restritiva – que proibiu açúcar, frituras, refrigerante – virou um mundo de possibilidades. Aprendi a cozinhar. E amo cozinhar. Experimento coisas novas. E amo experimentar coisas novas. Penso no que e no quanto coloco no prato. Tenho horário pra comer. Sinto falta do refrigerante, é verdade, mas tenho lidado relativamente bem com isso. Não desenvolvi um novo vício para substituir o vazio daquela alimentação louca.

Mudei minha relação com a ansiedade. Descobri que ela não manda em mim. E, se você é uma pessoa que não gosta de spoiler como eu, talvez queira pular esse próximo parágrafo caso não tenha visto Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001).

~Não sei se falar de filme de 2001 pode ser considerado spoiler, mas né?~

Talvez minha ansiedade de hoje tenha algo de alucinações-de-John-Nash-no-final-do-filme. Ela tá aqui comigo o tempo todo, mas, mais dias do que não, não está no controle.

Mudei minha relação comigo. Se eu pudesse conversar com a Marta do ano passado, diria pra ela não ter tantas crises sobre como as coisas seriam depois. Diria pra ela ficar tranquila – algo que ela iria ignorar sumariamente, é claro. Diria que ela ainda teria quase todas as neuras de antes e algumas outras, uma variação oxigenada de pequenos complexos, mas que iria aprender uma coisa muito importante sobre domínio. A Marta é da Marta. Não do mundo.

Mudei, em última instância, minha forma de encarar a vida. Foi muito mais do que a bari. Se você está querendo se submeter a este procedimento e quer saber dos contras, dos tropeços, de como tudo que pode dar errado vai dar errado, pode ser que eu não seja sua melhor opção de conversa.

Quer dizer, no Mundo das Ideias, posso te fornecer um sem número de cenários pós-apocalípticos ricos em detalhes. Mas, na prática, desculpa. Foi. Tem sido ótimo. Quer o telefone do meu médico?

Fim?

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