Todas as Sextas

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Todas as Sextas, Paola Carosella (textos) e Jason Lowe (fotografia), Editora Melhoramentos

Mas antes, só uma coisinha:

Já aprendi que pra prender o leitor o texto precisa ser construído em pirâmide invertida. E que não pode ser tão longo. Mas, em amor à sensação que tive ao degustar esse livro, não vou fazer nada isso. Prometo tentar melhorar nas próximas sextas. Você pode ler tudo ou pode, se quiser, pular lá pro final, quando falo de Todas as Sextas de forma mais objetiva (leia-se: de forma um pouco menos subjetiva). Ou pode não ler. It’s your choice, Ace.

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Comecei a ver Masterchef mais ou menos quando todo mundo começou a ver Masterchef, na segunda temporada. Isso foi antes de me apaixonar pela cozinha e, talvez, tenha feito parte de todo esse processo. E, desde sempre, gostei muito mais da Paola. Ela sempre foi minha favorita, mesmo quando eu não fazia ideia de quem era aquela pessoa. Não venha me falar de modinha (claramente não é, né?).

Aí eu entendi que “qualquer um pode cozinhar” – anos depois de ter visto Ratatouille (Idem, 2007) – e me aventurei um pouco. Uma das primeiras coisas que resolvi fazer em casa foi molho de tomate, por motivos de tinha desenvolvido uma leve obsessão (~leve) por tomates e molhos de tomate à venda no supermercado têm açúcar (o que descobri, claro, da pior maneira possível).

Pois bem, fui eu atrás de alguma receita de molho de tomate que não envolvesse açúcar, panela de pressão e horas de preparação. “Mas molho de tomate precisa de receita, Marta?”. R.: tudo precisa de receita.

Totalmente despreparada para o que estava por vir, topei com esse vídeo:

E, sério. É um dos vídeos mais incríveis que eu já vi. Paola é uma pessoa sensacional. Simples e complexa, cativante, fala da comida de um jeito todo particular, encantador, hipnótico. E esse molho, SÉRIO. Melhor receita.

Pronto. Minha leve obsessão não tinha mais nada a ver com tomates. Via esse vídeo todo dia, como se tivesse doze anos e Paola fosse minha cantora favorita.

Fiquei decepcionada quando descobri que Paola não era uma daquelas pessoas que têm canal no YouTube. Poxa. Tanta gente ruim com canal no YouTube e ela nada, só uns videozinhos escassos, uma ou outra receita, algumas entrevistas. Devo ter visto todos.

Então, há uns três meses, eu e Renan resolvemos que iriamos ao shopping comprar os ingressos do cinema na bilheteria física para o filme do dia, algo que não fazíamos desde que… bem, desde que se vendem ingressos online. Não lembro qual filme era, só sei que compramos o ingresso pra bem mais tarde e resolvemos passar o tempo na livraria (não sei se foi uma decisão bem conjunta, sabe? Meu sonho é morar numa livraria).

Aí vi esse livro nos mais vendidos. Todas as Sextas. Uma foto da Paola na capa. Não tive dúvidas.

“Sempre me perguntei porque ainda se fazem livros de cozinha.”

É a frase que abre o prólogo (não é incrível?). É assim que se faz.

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A primeira parte do livro não tem receitas. Paola conta sua história. Não. Paola faz a gente viver sua história. E, sem perceber, estava eu lá, na Argentina. Na casa de Mimi, na sala do apartamentinho em Buenos Aires, querendo dividir com a pequena Paola aquele vazio que ela sentia toda noite. Em prantos. No meio da livraria lotada. Com meu marido me encarando embasbacado, sem acreditar.

Perdi um pouco do rumo. Não comprei o livro. Não comprei nenhum livro. Não lembro o filme que vimos naquele dia. Tinha mexido comigo, aquela pequena experiência.

E perdi várias oportunidades de comprar esse livro. Várias.

Era um sentimento misto de preciso-muito e não-quero-terminar-de-ler-essa-história-nunca. E cada vez que eu ia a uma livraria, flertávamos. Lia mais uns parágrafos, via uma receita perdida. Descobri – agradecida – que as receitas não eram só ingredientes e modo de fazer. Eram mais histórias. Mais pedacinhos daquela lá do começo. Que livro incrível.

E então veio o Natal. E todas as oportunidades perdidas se foram.

Abri minha caixa (sempre é uma caixa, desde que Renan aprendeu que tenho essa leve obsessão também). Havia instruções, porque Renan é desses. Uns dias antes ele tinha acordado bravo comigo, porque sonhou que eu tinha visto o presente antes do Natal (o que não fiz por motivos de por que vou fazer?), então estava mais ansioso (rola uma epidemia, só pode) que o normal. Peguei o embrulho e de cara disse “é o livro da Paola!”. Ele teve certeza que tinha tido um sonho premonitório, mas não era o caso. Eu já tinha pegado o livro tantas vezes que tinha decorado tamanho, peso e dimensões, expliquei. Parando pra pensar, é meio louco isso.

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Todas as Sextas não é um livro de receitas.

E digo isso com toda propriedade que minha experiência com livros de receita me permite ter.

Quer dizer, ganho livros de receitas já faz algum tempo. Tenho uma coleção relativamente respeitável para quem – embora tenha uma cozinha própria desde que tem uma casa – só começou a cozinhar mesmo há poucos meses. E livros de receita têm um modo de usar próprio. Não são livros para ler. Não há ordem. Embora existam livros com um pouco mais pretensão de serem lidos – como os da Rita Lobo, por exemplo – você pode, simplesmente, caçar uma receita com tomates no índice remissivo sem nenhuma perda significativa.

Não é esse o caso aqui. É claro que você pode, de forma aleatória, fazer isso, mas há perdas. Significativas.

Então não, não é um livro de receitas.

É um livro de vida. De amor pelo que se faz. Pelo jeito como se faz aquilo que se faz. Por tudo que está envolvido em se fazer aquilo que se faz.

Sempre penso nisso, sobre como deve ser incrível você realmente amar aquilo que faz para ganhar dinheiro. Não que as cozinhas da Paola tenham sido imunes a problemas. Essa ideia passa longe da verdade. Mas ter esse sentimento bonito, puro, profundo pelo que se faz, ah, isso deve pagar qualquer problema.

“Ah, mas você não pode saber se é essa maravilha mesmo só por esse livro – ela não usa na própria epígrafe uma frase de efeito de licença poética?”. Eu sei que é exatamente isso que você tá pensando. E te digo: posso saber sim.

Porque durante a lição (porque não é uma receita, é uma lição) sobre como cozinhar um polvo (algo que jamais vou fazer na vida), Paola te diz que você deve acariciar os tentáculos do polvo e você não detecta nenhum mísero cheirinho de escárnio nessa expressão. Posso porque, em todas as receitas que pedem, ela diz que a galinha envolvida deve ser uma galinha de vida digna. Galinhas que ganham agradecimentos – e pedidos de desculpas – em todas as receitas em que aparecem. Porque ela trata cada animal, cada ingrediente, cada preparação e cada receita com respeito. Um respeito que transborda de todas as palavras. Respeito e, talvez, veneração. Acho que veneração é a palavra mais indicada. O livro todo é uma ode ao alimento – e a quem fornece o alimento, terra, água, ar, animal, produtor. É lindo.

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Minha experiência com esse livro foi mesmo de degustação. Li medindo. Sem querer que ele terminasse. Em todas as páginas tem um pedacinho do amor que a Paola sente por tudo isso. Você vive esse amor. Pode ser que você nunca tente qualquer receita dali ou que tente e nunca dê certo, mas isso é o que menos importa.

É por isso que ainda se fazem livros de cozinha, Paola.

Obrigada.


11 comentários sobre “Todas as Sextas

    1. Já arrumei a maneira de você receber essa encomenda! Avisa a Júlia que vai ser nosso desafio semanal, então. A primeira foi fácil pra ela achar que vai ganhar sempre, vai ficar mais difícil a partir de agora!

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  1. Martinha, minha amiga. Estava atrasada na leitura do blog devido à correria da semana. Agora que li, só tenho uma observação a fazer: vc é uma doidinha adorável (e não odiosa) 😄 Quero provar das suas descobertas culinárias, me convida. Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  2. Desculpe-me, estou viciada, preciso comentar!
    Ao ler esse seu novo post fiquei com vontade de sair correndo.
    Sair correndo pra comprar o livro da Paola! Óbvio!
    Sair correndo pra provar suas receitas! Como diria Alice, nham nham!
    E sair correndo pra descobrir o que é “Direct”! Saudades Marta!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Já te disse que fiquei com vontade de ler o livro e que também sou fã da Paola. Isso você sabe.
    Que essa “resenha” ficou linda, você também sabe.
    Mas venho pra dizer que o que mais me identifiquei foi com o medo de que um livro bom acabe. Eu sempre tenho um sentimento de perda no final, do tipo: O que eu faço com o meu tempo livre agora? Como escolho outro livro? E se ele for ruim?
    Tenho esse mesmo sentimento com seriados. Não é fácil de lidar com essas gaps que a vida nos coloca e escolher um novo passatempo é uma responsabilidade enorme. Porque se eu escolho livro ou série ruim eu demoro demais pra aceitar que não gostei e desistir. E aí é um tempão perdido vendo coisas que não precisava ou lendo coisas ruins. Você me entende?
    É claro que você me entende.

    Curtido por 1 pessoa

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