sobrevivência, interrogação e sofisticação

Eu nunca soube explicar direito minha relação com Douglas Adams.

Quer dizer, ele é o autor de uma das minhas séries favoritas de todos os tempos – O Guia do Mochileiro das Galáxias. E é o criador do peixe babel, criatura que, uma vez inserida dentro do seu ouvido, te faz compreender todas as línguas do universo. Essa ideia é, provavelmente, a coisa que eu mais quis que fosse real de tudo que já li na vida. Sempre quis tatuar um peixe babel, com uma ponta de esperança de que funcionasse e eu pudesse compreender todos.

captura-de-tela-2017-02-17-as-11-31-08

E, sabe, depois de pensar uns bons anos sobre isso, fiz uma tatuagem. Eu, essa pessoa que sofre de ansiedade generalizada, antecipa eventos catastróficos e tem medo de agulhas. Não é nada gigante, capaz de quebrar um coração de mãe (foi, no máximo, uma trincadinha, né, dona Elena?). E não é um peixe babel, porque teve alguém que não aprovou a arte. São duas palavrinhas, apenas (que Renan precisou escrever pra que pudesse viver pra contar a história de que o peixe babel é feio). Na verdade, é todo um conceito. Que talvez Douglas tenha pensado pra mim, a única pessoa ansiosa do universo:

douglas-dont-panic
– Gostei da capa – disse ele. – Não entre em pânico. Foi a primeira coisa sensata e inteligível que me disseram hoje.

Eu sempre carrego uma toalha. Sei que tudo que acontece, acontece. Que para voar, basta errar o chão. Acredito com veemência que a “diferença entre algo que pode pifar e algo que não pode pifar de jeito nenhum é que, quando uma coisa que não pode pifar de jeito nenhum pifa, normalmente é impossível consertá-la”. A filosofia do Homem Sobre o Poste é uma das coisas mais belas e verdadeiras que pude ler na minha curta e despropositada existência:

Você não pode ver o que eu vejo porque vê o que você vê. Não pode saber o que eu sei porque sabe o que você sabe. O que vejo e o que sei não podem ser acrescentados ao que você vê e ao que você sabe porque são coisas diferentes. Também não podem substituir o que você vê e o que sabe porque isso seria substituir você mesmo. (O Homem Sobre o Poste. Praticamente Inofensiva, capítulo 9)

Sempre tive obsessão – do tipo ficar estudando projeções cartográficas no meu tempo livre – por mapas, mas desde que li Restaurante no Fim do Universo, prefiro chamá-los de Vórtices de Perspectiva Total. Acho que a resposta pra qualquer coisa é sempre quarenta e dois. Marvin é meu andróide favorito. Ganha fácil de R2D2, C3PO, BB8, TARS. Na verdade, acho que Marvin é meu personagem favorito.

douglas-marvin

Mas tudo isso, eu sempre pensei, tem a ver com o Guia, não com Douglas. Até que li o Salmão da Dúvida, seu livro póstumo.

Douglas morreu muito cedo, não conseguiu escrever tudo que tinha pra escrever. Teve um ataque cardíaco em 2001, quando tinha só 49 anos. Ele era um entusiasta da tecnologia, algo que você pode perceber se lê qualquer coisa que ele escreveu na vida. Era visionário. E era fascinado por produtos da Apple. E era absolutamente genial. É absolutamente genial. Essa é uma das coisas mais fascinantes – e assustadoras – de escrever: você continua vivo pra sempre. Enquanto tiver gente lendo o que você escreveu, você existe. Aterrorizante.

O Salmão da Dúvida foi lançado em 2002. Aqui, chegou em 2014. Pra mim, só ano passado. E before you came into my life I missed you so, so bad. Dividido entre vida, universo e tudo mais, o livro reúne uma série de curtos textos de Douglas, além do conto inacabado que deu nome ao livro, protagonizado por Dirk Gently (aham, esse mesmo da série nova da Netflix). Palestras, colunas publicadas em jornais, falas improvisadas em congressos de ciência, entrevistas, textos que foram escritos só pra ele e que tinham ficado guardados em algum lugar de seu último Mac. É um livro sensacional, mas que nem parece livro. Parece que você e Douglas estão jogando conversa fora e você só quer ficar ali, ouvindo aquele cara incrível. Mas não quero fazer resenha ou resumo aqui. Porque não sou a pessoa indicada pra isso. Não tenho objetividade.

Quero falar sobre como esse livro me fez entender minha relação com Douglas Adams. O que aconteceu logo de cara, na introdução escrita por Stephen Fry (sim, esse mesmo da música do Zeca Baleiro):

“É como se apaixonar. Quando você lê uma frase especialmente brilhante de Adams, sua vontade é cutucar o ombro do estranho mais próximo e mostrar a ele. O estranho pode até rir e parecer gostar do que está escrito, mas você se agarra à ideia de que ele não entendeu exatamente a força e a qualidade do texto, não tanto quanto você” (Stephen Fry. O Salmão da Dúvida, Introdução).

E é isso. É como se apaixonar. Você quer contar pra todo mundo como é genial. Quer fazer com que cada pessoa no universo veja o que você vê e sinta o que você sente – o que, como acabamos de aprender com o Homem Sobre o Poste, é impossível. Mas você insiste mesmo assim. Olha isso aqui, olha essa frase! Olha essa ideia! Esse planeta! Esse personagem! Você não tá vendo? Como esse capítulo é uma metáfora perfeita dessa nossa sociedade doente? Não tá vendo como é incrível? Você tá lendo errado!

Devo ter recomendado a leitura de Douglas Adams pra todas as pessoas que eu conheço. Mas eu sei – no fundo eu sei – que nenhuma dessas pessoas realmente entendeu. Porque eu e Douglas, ah, nós temos algo especial. É como se cada palavra fosse uma ponte exclusiva entre a gente. Que só nós dois somos capazes de compreender completamente. É isso. É essa minha relação com Douglas.

É exatamente como se apaixonar.

douglas-restaurante


6 comentários sobre “sobrevivência, interrogação e sofisticação

  1. Há!
    Para mim você não recomendou essa leitura.
    Simplesmente porque fui apresentada a Douglas Adams antes de ser apresentada a você.
    O conheci da maneira mais torta possível. Assistindo, no cinema, ” O Guia do Mochileiro das Galáxias”.
    Tive crises de risos. Daquelas! Saí do cinema indicando o filme para toda e qualquer criatura que passasse pela minha frente. É muito bom! Dizia eu. E logo voltava a rir lembrando de uma cena ou outra.
    Recebi muitas reclamações. E críticas, claro! Desde então penso muito bem antes de indicar filmes às pessoas. Ou pelo menos deveria.
    Fui, então, atrás dos livros. Precisava lê-los! E tê-los!
    Obviamente não conheço Douglas Adams com tamanha intimidade. Nem mesmo havia me dado conta, até hoje, de que sua tatuagem fazia referência a ele… kakakaka… acho que nem mesmo se você tivesse tatuado o peixe eu saberia.
    Mas acho incrível como você conseguiu traduzir, em linhas bem traçadas, boa parte da experiência que vivi com essas leituras. Tal qual fiz ao sair do cinema, deu-se com os livros. Indicava a todos. Destacava frases, com caneta marca texto (pq sim, eu faço isso) e lia àqueles que tentava convencer de que seria uma leitura imperdível.
    Sem sucesso, claro. Embora até hoje não entenda muito bem o porquê!
    Provavelmente porque ninguém pode ver o que eu vejo porque vê o que vê.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s