Fio de Ariadne (e outras neuras)

Depois da bari, um dos compromissos que fiz comigo mesma foi o de que iria voltar a praticar atividade física. Afinal, a cirurgia é só uma ferramenta. Não tem milagre. Mas eu não queria algo só por fazer, só porque era uma obrigação, queria encontrar alguma coisa que me fizesse feliz. Munida de uma espada e de um novelo de lã, entrei no Labirinto.

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Gosto muito de jogar bola. E pratico futebol semanalmente com alguma regularidade já há alguns anos. E amo futebol. Logo, parecia ser a escolha óbvia. Mas, desde a primeira vez que coloquei chuteiras depois da bari, alguma coisa parecia meio errada. E não era só o fato de eu não saber mais como me comportar por causa da mudança brusca de peso nem saber mais a quantidade de força e empenho que precisava fazer no meu corpo novo para jogar – o que foi uma boa fonte de entretenimento nos primeiros meses. Era outra coisa. Acho que tem um pouco a ver com as pessoas levarem a sério demais um jogo de futebol amador. Sabe? Sério do tipo quase sair no tapa por qualquer coisinha? Como se a vitória fosse, de uma hora pra outra, o objetivo único. Sempre tinha sido assim e eu não tinha me dado conta? Não deve ser por aqui.

Mas gosto muito de jogar bola. E durante a infância e o começo da adolescência, eu treinava vôlei e era uma levantadora até regular. E tinha ainda outra boa motivação: Renan odeia esportes, mas a exceção que confirma a regra pra ele é o vôlei. Então partiu. Não tem como dar ruim. Que erro. Pra começar, era sábado de manhã. Não gosto de nada que envolva levantar cedo nos fins de semana. E não deve ter esporte – nem marido – no mundo capaz de ganhar da péssima impressão que tive lá. Fui apenas duas vezes. Valeu por uma vida. As sensações, de maneira geral, foram as mesmas que tive no futebol, mas um pouco mais potencializadas. Talvez eu volte a falar disso – o que, é claro, significa que já falei, mas ainda tô pensando se devo mesmo.

Enfim, não deu pra mim. Comecei a desconfiar que o problema fosse o coletivo. Afinal, enfrentar o Minotauro é um trabalho solo.

Talvez uma luta? É, vai funcionar. Eu já tinha tentado boxe uma vez e não tinha dado certo, mas vai ver que Muay Thai rola, né? Afinal, não é só uma luta, é uma arte marcial, uma filosofia. Vai ter, pelo menos, uma conversinha teórica – amo/sou qualquer conversinha teórica – sobre o que estamos fazendo aqui antes de começar a pancadaria. Aliás, nem vai ser pancadaria. É tudo feito com um propósito. Não. Não é.

Pois bem. A próxima ideia foi boa. Aula de circo. Não tinha como dar errado. Seria perfeito, um exercício completo e, mais que isso: um exercício lúdico. A localização é meio zoada, mas ok, é só não escolher horários ruins e vai dar certo. Aqui, olha esse: sexta-feira, dez da manhã, não tem erro. Perfeito. Agendar aula experimental.

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Ai. Fiquei bem chateada. Foi mal.

E então veio a realidade: é claro que a cláusula da felicidade não passava de uma forma de andar em círculos e descumprir meu próprio combinado. Old habits die hard.

Descobri na terapia pré-bari que um dos meus maiores medos era mudar de personalidade depois da cirurgia. Não que eu seja a maior entusiasta da minha personalidade, mas eu tenho uma ideia muito clara do tipo de pessoa que não quero ser. E tem poucas coisas na vida que quero menos do que ser a Pessoa da Academia. Que toma pré/pós treino na shakeira. Que fala treino. Que come frango e batata doce. Que vai no encontrinho top do pessoal que puxa ferro. Dizer que eu nunca gostei de academia – ou que academia nunca funcionou pra mim – não é totalmente honesto. A verdade é que odeio academia. Odeio o cheiro, as pessoas, o ambiente, os aparelhos, os temas de conversa, os pesos que vezes são de cinco quilos e vezes de quatro e meio. Odeio as frases motivacionais do professor da aula de spinning.

Qual era o único movimento lógico e aceitável?

Contratar um plano anual de academia, evidente.

Não sei se dá pra perceber, mas sou metódica. Gosto de organizar as coisas, as ideias, as pessoas, a mesa de restaurante quando termino de comer (e Renan nunca perde essa piada). Sequências numéricas, ordem alfabética, arrumação por cores e tamanhos, caixinhas, tudo isso me deixa plenamente realizada. Linhas tortas, tampas meio fechadas e sachês de maionese misturados com os de mostarda, por outro lado, provocam um grande desequilíbrio na força.

Então, quando decidi que iria voltar pra academia porque era o que precisava ser feito, a primeira coisa que fiz foi um elaborado questionário. Qual horário? Em qual lugar? Como fazer disso uma rotina? Quanto custa? E é caro malhar. Tipo muito caro. Muito mais caro do que deveria ser pra você ficar uma hora por dia fazendo umas repetições enlouquecidas de exercícios que não fazem o menor sentido.

Comecei com uma semana de teste numa academia perto do trabalho. Eu não sou muito habilidosa pra conversar, sabe? Sou bem jacu. Mas a menina que me atendeu, meldels, ela tinha muita empolgação dentro dela. Ah, nossos equipamentos são de última geração, o pessoal aqui é bem amigo, a gente faz encontrinhos, amigo secreto, sempre tem um happy. Semana que vem tem uma confraternização, você não quer vir? Os professores são ótimos, estão sempre colados com você pra qualquer coisa que você precise. Eu fiquei meio sem saber como reagir. Como devo me comportar agora? Será que é indelicado dizer que não gosto de conversar? Melhor dizer que sou mais na minha, né? Nem passa pela minha cabeça falar com as pessoas na academia. Quem faz amigos na academia? O que eu tô fazendo aqui? Descartei aquele lugar. Jamais ia dar certo.

Só que a menina tava decidida: ela precisava fazer com que eu me matriculasse. Tava numa cruzada do tipo me mandar mensagens todo dia. É uma promoção incrível, Marta, você não pode perder esse preço, só vai até essa semana! Tenho várias resistências a essas promoções, sabe? Tem um cara que vende frutas perto do meu trabalho que tem prontinha uma placa de promoção de morangos. Nela, tá escrito “Promoção! Só hoje! 5 caixas por R$ 10,00”. E o cara coloca essa placa todos os dias no poste, depois das cinco e meia. Só hoje, mas hoje é todo dia. Enfim. Teve um momento que ela desistiu de mim, finalmente.

Mas a realidade ainda tava lá, em formas de mensagens não tão sutis espalhadas pelas redes sociais.

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Depois de altos debates filosóficos, sociológicos e mito-metodológicos lá no Mundo das Ideias, desenrolei um pedaço do novelo de lã e cheguei num bom acordo comigo mesma.

Achei uma academia entre o trabalho e minha casa, com Exclusivo Motos na frente e um valor que não era um rim por mês. Enorme. E distante. Ninguém quer saber seu nome. Os instrutores não falam com você se você não falar com eles. Ninguém bate no seu ombro pedindo pra revezar aparelho. Você pode chegar lá e fazer o que precisa ser feito sem abrir a boca. A academia é tão fria que fornece folders com treinos prontos. Esses folders são incríveis: te dizem exatamente o que fazer, onde fazer e como fazer. A própria representação contemporânea do fio de Ariadne. Apresentam foto do equipamento, nome do equipamento e número do equipamento, não tem como errar.

Comecei a seguir as orientações pelo número, porque jamais na minha vida vou me habituar a chamar de rear delt pec fly (uat?) aquela coisa monstruosa que mais parece um mito grego indestrutível. E estaria tudo perfeito, mas não é tão fácil assim, né? Se fosse, não tinha textão.

O equipamento número 9 fica do lado do equipamento número 23 que, por sua vez, fica de frente para o equipamento número 2. O equipamento 17 fica em outro andar, do lado do equipamento número 6. Gente. Sério. Já não teve labirinto demais nessa conversa?

QUAL A DIFICULDADE DE VOCÊS?


16 comentários sobre “Fio de Ariadne (e outras neuras)

    1. Ia ser perfeito, Prefe, MAAAAAS… quedelhe uma dupla pra ir comigo? Meu irmão mora em Rondônia e meu cunhado tenista, em Atlanta!
      (Aulas, na média de 160 reais uma vez por semana!)

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  1. Perdidamente apaixonada por você e sem fio de Ariadne pra fazer o caminho de volta. Quanto a academias/esportes/atividade física em geral, tenho em minha defesa que continuo tentando. Compramos uma esteira que falta falar há uns cinco meses; mas a bicha deve falar javanês porque até agora não nos entendemos. Vou morrer odiando. E me odiando por ser assim.😜

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  2. Martinha,

    Te entendo perfeitamente!
    Passei pelo menos 25 anos da minha vida nessa busca de algo q pudesse fazer por prazer, nao só obrigação.
    Tb sou super anti-social e nao curto nenhum esporte de grupo ou papinho de academia.
    Gosto de nadar, mas detona o cabelo pintado; gosto de correr mas zuou meu joelho; enfim uma via sacra ate q encontrei essa academia q eh so de lutas e hj faço kickboxing/muay thai pelo menos 3x/sem e sinto falta qdo nao vou.
    Ja tinha tentado luta antes mas o local fez td a diferença.
    Nao desista! Ha luz no fim do túnel!

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  3. Eu só peço que vocês não fiquem sedentarias assim como Eu… enroladas em desculpas num fio de Ariadne sem fim. Em tempo: eu era apaixonada pelo nome Ariadne e seria o nome de uma de minhas filhas, na época de minha adolescencia

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  4. Ahhhhh Martinha…achei aí foram muitas desculpas. (Braba? Rss) Vou te sugerir: nadar e/ou correr. Vc com vc mesma, quando e onde puder…acho que vai rolar! (se quiser um técnico/treinador/orientador…tenho um virginiano bom, competente e silencioso pra indicar Rss)

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    1. Tô pensando mesmo em pedir um treino pra ele, Tai! Tô firme na academia por enquanto, vamos ver se rola correr em breve!
      (e natação eu tentei, até, mas foram vaaaaarias desculpas lá também!)

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  5. Perfeito seu texto. Me representa totalmente. Faço 1 ano e 6 meses de cirurgia esse mês e ainda não achei uma saída para meu labirinto. Essa semana estou pensando muito no Pilates e acho que talvez pra mim seja a melhor opção. Afinal como você não sou chegada muito em academia, pra ser mais exata a musculação. E olha que em abril tenho consulta com o dr. Giorgio e vai ser bronca na certa.

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  6. Marta,
    Notou que excluindo-se os equipamentos de números 9 e 6, respectivamente primeiro e último por você citados -logo, desprezáveis – e somando-se os números restantes (23+2+17) chega-se à resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais?
    Afinal, “how many roads must a man walk down” para encontrar um caminho que seja adequado para si?
    Ora, seja a resposta 42, ou não, fato é que você está nessa estrada!
    Não penso que sejam desculpas. Entendo você. Sou um pouco (muito) assim também.
    Acontece que assim como há pessoas que parece terem nascido com a essência fitness, há quem precise realmente travar uma luta interna pra encarar esse labirinto.
    Por isso, permaneça firme aí no seu propósito de encontrar a atividade física que lhe seja ideal, sem jamais afastar-se, por favor, da sua espada e do seu novelo de lã.
    😉

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  7. Hahahaha ri demais com esse post.
    Apesar de eu ter conhecido Francis na academia, eu tb odeio socializar nesse tipo de ambiente. Alias, falando a verdade, odeio socializar. Vc já conseguiu uma academia quase 100% do que vc quer, agora eu sugiro que vc vá treinar (é treino, Marta) com aqueles headphones imensos, sabe? Pq se for fone de ouvido normal alguém pode pensar que vc pode conversar puxando um da orelha. Com headphone não tem erro.
    E sim, FOCO FORÇA E FÉ, Martinha.

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