De onde você tira esses filmes, Renan?

Renan não gosta de trailers. Não sei, sinceramente, como ele consegue viver em 2017. Mas ele evita, sempre que possível, ver qualquer trailer. Eu só não vejo quando é ele quem escolhe o filme da vez, porque, mais vezes do que não, é um título do qual eu nunca ouvi falar porque gosto mesmo é de filmes de herói – e essa explicação pode ser encaixada no final de praticamente todas frases desse texto, teje ciente.

Pois bem. Fizemos maratona Oscar no último mês, então esse cenário aí em cima foi a regra. Nossas maratonas geralmente envolvem os indicados a melhor filme e, algumas vezes, melhores atores/atrizes – e eu nunca entendi qual é a dessa separação, mas deve ser porque eu não entendo muita coisa mesmo. Confesso que começamos juntos, mas quase sempre eu abandono a prova em algum ponto porque a verdade verdadeira é que eu geralmente durmo em filmes profundos, reflexivos, clássicos, cabeça. Desculpa sociedade.

O que quero dizer é que quando comecei a ver Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016), não fazia a menor ideia do que ia assistir – e no fundo esperava que fosse um filme de herói. Não sabia nada, mas, como estamos em 2017 e estou aqui mais ou menos falando sobre esse filme (sem spoilers se você for desse tipo de gente que vê trailers) segue o trailer:

Capitão Fantástico estava na nossa lista, mas, descobri depois, não na lista de melhores filmes do Oscar. Não sei o motivo, mas desconfio que não tem como esperar nada diferente de uma competição que é tão questionada por tanta gente e, ano após ano, continua fazendo de filmes como La La Land campeões de indicações, não é mesmo? Mas eu não quero – e nem tenho credenciais – pra falar sobre quem o Oscar indica ou deixa de indicar, porque gosto mesmo é de filmes de herói. Quero só falar aqui sobre como Capitão Fantástico me fez pensar algumas coisas sobre educação. E sobre escola.

Desde que me conheço por gente sou aluna. E tenho consciência de que a escola – essa instituição a quem dedico uma parte considerável de minhas reflexões críticas sobre – me colocou em muitas caixinhas. De algumas eu saí sem muito custo, de outras, ainda estou tentando me livrar e estou lá dentro de umas tantas outras. Até hoje continuo estudando na escola, por exemplo. Também já fui professora. Dei aula em escola tradicional e inovadora, pública e privada. E, do que conheci até agora, posso dizer que por mais diferentona que seja a política pedagógica de uma instituição de ensino, no fim do dia ainda se convive com a mesma régua para medir todo mundo. O que quero dizer é que sei que educação e escola não são sinônimos, mas não dá pra tirar a escola dessa equação. Esse é meu pensamento condicionado, reflexo do tempo do qual sou fruto.

escola-capita%cc%83o-2

Então, quando me dei conta que Capitão Fantástico era um filme sobre a educação de seis crianças fora da escola, minha primeira reação foi de “vocês estão loucos?”. Não é possível estar fora da escola. É preciso combater os problemas da escola, claro, mas de dentro dela. De fora… Não. Ah, o não. O não é sempre mais fácil. Mas ele passa. E enquanto o filme ia avançando comecei a tentar pensar fora da escola. E me dei conta de que é possível. Fora dessa lógica – que de lógica mesmo tem pouco – insana de medir conhecimentos diferentes de diferentes pessoas da mesma forma. E foi nessa hora que deu ruim. Porque a minha cabeça ansiosa não tem limites – e ela parece ter uma estranha obsessão com perguntas.

O que a gente quer com a escola, no fim das contas? Credenciais? Dizer quem pode ou não falar sobre indicados pro Oscar? Um papel? Um diploma? Um certificado de que somos capacitados? E somos? Quem disse? E quem pode dizer? Se não temos um papel que diz que somos, não podemos ser? Por que temos essa necessidade de legitimação? Por que provas, controle de frequência, notas, índices, lista de exercícios? Média seis, sete? Resumo, fichamento, resenha? Por que a gente quer uniformizar tudo? Livro de chamada, de lançamento de conteúdo, vestibular, seminários? Como a gente sabe se realmente entendeu alguma coisa? É possível entender? Paulo Freire, José Pacheco, Michel Foucault? Será que a gente precisa da escola pra não estar totalmente despreparado para o mundo real, como argumenta – de arco e flecha na mão – o avô dos filhos de Ben (Viggo Mortensen)? Que diabos é isso de mundo real? Será que eu devo mesmo ficar falando disso? Será que tenho leitura suficiente? Tenho credenciais? Preciso ter?

Educação não é (nem tem) fim. É processo. Educação não é escola. Mas não dá pra tirar a escola dessa equação. Ou será que dá?

Já não sei de mais nada. Só que sou ruim de conclusão e não tenho resposta pra nenhuma dessas perguntas. O que, no fim das contas, não me parece ser assim uma coisa tão ruim. Prefiro acreditar que são as perguntas que fazem o mundo girar.

Conversa de louco, né? Se eu tivesse dormido em Capitão Fantástico, a vida poderia estar mais simples agora. Mais simples como num enredo de filme de herói. É por isso que gosto mesmo é de filme de herói.


5 comentários sobre “De onde você tira esses filmes, Renan?

  1. Tenso, porque já pensei que seria possível educar um filho em casa. Mas a conclusão que sempre chego é que a escola é o contato com o outro, com o mundo diferente daquele que se tem em casa. Então privar uma criança desse convívio é complicado. Mas daí tem o quesito avaliação, aí sim, outra história…Ou o quesito valores, é a escola que precisa passar isso pras crianças?! São muitas dúvidas, e não assisto ao filme ainda. Mas penso que mesmo entre seus irmãos não se depara com tamanha alteridade, que se tem na escola…Sei lá, podemos fazer um podhis sobre isso!

    Curtido por 1 pessoa

    1. pois é, mas se a escola tem essa função de contato com o diferente, por que insistimos tanto na pasteurização de tudo? conteúdo, uniforme, nota, é tudo um padrão, um pensamento. quando me lembro da escola, lembro do sentimento de necessidade de buscar me enquadrar para ter amigos, me sair bem nas provas, passar no vestibular, entende?
      será mesmo que a gente quer o diferente quando a instituição em que buscamos isso quer mais é que a gente seja igual, saiba igual, pense igual?
      é um super tema de podhis!

      Curtir

  2. Definitivamente não tenho credenciais para tecer qualquer comentário a respeito desse filme, pois não o assisti.
    Embora esteja louca para. Quem sabe não dou uma passadinha no cinema tarde dessas enquanto minha filha está na escola. SQN. Óbvio que não!
    Mas fiquei com a impressão, Marta, de que seu “problema” não é com a escola em si, mas com as formas (de pão, de bolo) em que insistem em nos colocar a vida inteira. Para tudo há uma forma específica. Ai de quem ousa escapar da mesma! Evidentemente é algo a se pensar.
    Lendo esse seu texto, lembrei de uma história contada por um amigo, que carrega até hoje o trauma de que fora repreendido, na escola, porque ousou pintar o desenho de uma rosa de outra cor qualquer que não cor-de-rosa.
    Ora, ora, ora!
    Acredito, mesmo, que a pedagogia evoluiu bastante desde então, e que os professores sabem que deve-se deixar a criatividade dos pequeninos aflorar sob todas as formas e cores. Porém, as velhas e enferrujadas formas estão lá, prestes a serem usadas a qualquer momento.
    Talvez, não sei, caiba aos primeiros educadores, ou seja, aos pais, ficar atentos aos métodos escolares e, sempre que necessário, desenformar, com muito cuidado e carinho, cada assado de seu filho. :0

    Agora, vem cá, qual é o problema do Renan com os trailers??? kkkk

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s