Nunca é a última fase

“Se o seu mestrado está muito agradável tem alguma coisa errada”, disse o professor de metodologia, fazendo cosplay de chefão.

Não teve a menor preparação. Foi na primeira aula do semestre mesmo, nos primeiros vinte minutos. Foi ali que eu entendi que minha vida como eu a conhecia tinha basicamente acabado. Porque, até aquele momento, meu mestrado estava sendo mais ou menos agradável, sabe? É evidente que ele já me tinha rendido algumas noites em claro, um volume de leitura que desafia conceitos lógicos de utilização do tempo e várias crises de ansiedade por causa da boa e velha Síndrome do Impostor (guarde essa ideia, quem sabe mais pra frente a gente volte a conversar), mas ele estava sendo mais ou menos agradável.

look

Pois bem.

Vou explicar pra vocês como eu, Marta, acho que um mestrado deve ser feito, em passos simples: escolher um tema de pesquisa. Cumprir créditos obrigatórios. Cumprir créditos optativos escolhendo disciplinas que tenham relação íntima com o tema de pesquisa escolhido. Concluir todas essas disciplinas escrevendo um texto isolado para cada uma, mas que possa ser relacionado ao tema de pesquisa escolhido. Publicar. Pegar toda a produção realizada durante as disciplinas e acoplar à pesquisa sobre o tema escolhido que foi realizada em paralelo. Fazer a redação final. Formatar nas normas. Depositar a dissertação. Defender. Pronto. Acabou. Inofensivo como um jogo linear em 2D.

Vou explicar pra vocês como eu, Marta, estou fazendo mestrado, em passos simples: escolhi um tema de pesquisa que é só amor, daora real, mas que envolve uma coleta de fontes no Rio de Janeiro. Não fiz disciplinas obrigatórias no primeiro semestre. Fiz disciplinas optativas sobre economia política, lógica e argumentação e cinema. De todas as cinco disciplinas que conclui até o momento, escrevi um total de zero textos isolados que podem ser aproveitados para meu tema de pesquisa. Durante o primeiro ano do mestrado, fui um total de zero vezes ao Rio de Janeiro. Tenho um total de zero publicações. Porque não fiz disciplinas obrigatórias no primeiro semestre, estou matriculada em quatro delas neste momento. Resolvi, no meio do caminho, criar um blog pra exorcizar minhas ansiedades. Pronto. Praticamente inofensivo como um game de missões espalhadas aleatoriamente em um mapa aberto.

Por que diabos você está fazendo isso? – você pergunta, angustiado. – Como pode ser mais ou menos agradável fazer um monte de coisa ao contrário do que você acabou de dizer que é o jeito que acha certo?

mestrado-quadro

Eu sou uma entusiasta da vida acadêmica, juro. Não é mentira. Poucos lugares no mundo me deixam mais a vontade que sala de aula com texto pra discussão. E isso acontece desde quando eu mais não lia do que lia os textos (que fase). Mas essa afirmação também não é de todo verdade. Desgosto um tanto da academia, porque acho que a academia caiu numa armadilha que ela mesma criou. Pratica um discurso hermético, fechado, autopoiético, só para iniciados. Transformou produtividade acadêmica em sinônimo de linha de produção. Artigo, ensaio, paper, resenha, resumo, congresso, colóquio, publique, publique, publique. Eu sei que há uma razão – ou até várias – pra isso (porque sempre tem). Mas me deixa.

Então, coloquei num mesmo saquinho meu amor ao debate e a ideia de que a academia não tem o direito de me oprimir, e resolvi que ia lutar contra o sistema. Resolvi que não ia me dobrar a essa obsessão de querer escrever só sobre uma área, sobre um tema, sobre o meu tema. E aí escrevi sobre muitas coisas. Misturei Simone Weil com Escola da Ponte, Titanic com Paralamas do Sucesso, feminismo em Portugal com Mercador de Veneza, foi loco. E, até o momento, escrevi um total de zero textos isolados que podem ser aproveitados para meu tema de pesquisa (2).

E tava tudo mais ou menos agradável assim, porque há algo de maravilhoso em lutar contra o sistema. Em achar que se luta contra o sistema. Em achar que o sistema pode se abalar minimamente por qualquer coisa que você faça.

Só que ?

mestrado-niko
“Podemos escolher o jogo, Niko Bellic, mas não podemos mudar as regras.” (Dimitri Rascalov, GTA IV)

Veio o professor de metodologia e disse que tem que doer sim. Vai precisar apresentar o projeto de pesquisa do meu tema em duas semanas sim. Veio o professor de teoria dizer que tem que saber referencial teórico do meu tema de trás pra frente sim. E, porque não tem ninguém de brincadeira aqui, veio o coordenador – que, por acaso, também é meu orientador – dizer que tem qualificação da minha pesquisa em maio sim. Tem evento de apresentação de resultado parcial da minha pesquisa em maio sim. Tem que publicar sim.

E nóis tá como?

Blue

Querendo arrumar as malas pro Nepal, ler quarenta e dois livros ao mesmo tempo, largar essa ideia ridícula de fazer mestrado, começar um game novo, terminar a dissertação antes de revisar o projeto, abandonar o blog, participar de concurso de literatura, encaixar mais uma disciplina optativa nessa grade que tá susse, fazer matrícula num curso de fotografia, chorar no cantinho, falar “eu avisei” na frente do espelho.

Tudo ao mesmo tempo agora.

Game Over.


7 comentários sobre “Nunca é a última fase

  1. Plonto, plonto, plonto!!!
    Tadinhaaaa, quase fiquei com dó! Quase!!
    Só não fico porque bem sei que você conhece todas as magias desse game e logo logo ataca de fatality…
    Enquanto isso, curte aí:

    😉

    Curtido por 1 pessoa

  2. …avemaria, consegui achar, consegui ler e estou me remoendo de culpas e remorsos😱😱. Sorry, sorry minha ansiosa mais que perfeita, mais que predileta, mais que preferida e mais muito mais que favorita. Sim, porque você além de todo esse arsenal do mestrado, ainda tem uma mãe “sugadora” de conhecimentos e opiniões do teu cotidiano conturbado…mas apesar de “te sugar” te segue, te admira, te aplaude👏👏👏👏e o mais importante te ❤️Ama incodicionalmente 😘🌹😍

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ai, mas eu te entendo tanto… VAMOS MESMO PARTICIPAR DE TUDO, PQ DÁ TEMPO, DÁ TEMPO SIM, VOCÊ CONSEGUE FAZER, VAI!

    Só que nuncaaaaaaaa

    E aí a gente sofre, e sofre mais, e sofre de novo depois. E continua sofrendo.
    Até que eu entendi que sofrer faz parte de mim. Desculpa universo, mas quando a coisa é muito de boas, eu perco o interesse. Eu saio fora e grito PRÓXIMA! E eu faço 15 coisas ao mesmo tempo mesmo e foda-se.
    Por que né? Qual a graça. E outra: eu destruo pra construir. É assim. E eu também destruo com facilidade (hoje, claro) o que eu vejo que não serve mais. E antes mesmo de você terminar o mestrado, certeza que vai falar: “depois de defender eu vou ter folga, não vou ler nada, vou só jogar videogame e vou ser feliz”, e vai ter terminado um projeto de doutorado (ou algo nesse sentido) antes mesmo te terminar de ler a frase.

    É isso. É o jeitinho. Abraça e vai. Só vai!

    Curtido por 1 pessoa

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