convite(s)

Descobri Chimamanda ano passado, vendo a palestra We should all be feminists (Todos nós deveríamos ser feministas). Se você não viu, por favor, não perca essa chance (trata-se do primeiro convite de hoje):

Nessas últimas semanas, ela voltou com tudo na minha linha do tempo (tenho um amor incontrolável por essa expressão desde muito antes dela cair no gosto popular internético) por conta do lançamento de seu novo livro, Para Educar Crianças Feministas: um Manifesto (Chimamanda Ngozi Adichie, Companhia das Letras, 2017).

convites-para educar

E, sim, eu tô sabendo que algumas declarações da autora nos últimos dias ganharam contornos polêmicos e – por absoluta ignorância temática minha, pela qual peço desculpas – eu vou falar do livro, e não dessa questão. Mas acho que é válido esclarecer, porque sou essa pessoa cuidadosa com as coisas que digo e com as que deixo de dizer também, que estou pensando sobre e não tenho opinião formada e fundamentada a respeito. E não gosto de falar de coisas sobre as quais não tenho opinião formada e fundamentada. É uma infinidade de temas dos quais não falo porque não tenho opinião formada e fundamentada. E minha vida é um esforço tremendo pra tentar dar conta de todos eles. Vivo nesse mundo líquido junto com vocês, e tenho a sensação de estar sempre correndo atrás de uma linha de chegada tão imaginária quanto inatingível (fica aí um segundo convite: Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman).

Ah, claro. A polêmica – e o terceiro convite. Tá mais ou menos explicada aqui:

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Mas vamos falar sobre essa pergunta que eu sei que você tá se fazendo aí, sem cansar e sem nem prestar atenção em mais nada desde que leu o nome do livro, lá em cima: Marta, você tá grávida?

Não.

Não tenho filhos. Não tenho planos para ter filhos também. Renan insiste que é uma fase – ele e praticamente todas as pessoas que conhecemos. Eu não me incomodo que pensem dessa forma, nem argumento muito também. Pode ser que sim, pode ser que não. Eu, Anitta e Maluma estamos nesse dilema (o convite número quatro é esse mesmo). Mas não se preocupem: sou completa. Tenho todos os membros e órgãos, incluindo amígdalas, sisos e apêndice. Sou bem completa, obrigada.

Comprei esse pequeno livrinho primeiro porque gosto da Chimamanda – acho que é uma voz que precisa ser ouvida, sim. Segundo, porque seus livros costumam ser bem baratos (amo/sou livros baratos). Sejamos Todos Feministas, por exemplo, que veio daquela palestra lá em cima, é grátis na sua versão digital (clique aqui para acessar o convite número cinco). Comprei, também, porque o livro já tinha endereço certo: seria um presente. Só que não sou essa pessoa que sai presenteando os outros com livros que nunca leu. E estou num projeto insano de ler cinquenta e dois livros nesse ano. Cada página conta. Então li. Demorei, mais ou menos, trinta minutos. Nada como livros que você lê numa sentada.

É uma leitura rápida. Não era, originalmente, um livro. Foi, antes de tudo, uma carta entre amigas – uma prática que acho incrível e que sempre tento manter. Sim, tô aqui, no mundo líquido junto com vocês, mas gosto de estar aqui olhando pra trás, escrevendo à mão em papel branco sem pauta, com caneta preta ou, de preferência, lapiseira 0.7 com grafite 2B de uma marca específica (porque sim, amigos, porque sim).

Uma carta. Para tentar responder a uma pergunta. Como posso educar minha filha como feminista? Aqui vão quinze sugestões. É simples. E é fantástico. É uma carta? Não. É um manifesto, como diz seu subtítulo, certeiro. Particularmente, tenho grande carinho por subtítulos. Tendo a achar que é depois dos dois pontos que vem a verdade sobre um livro (ou sobre um filme, ou sobre uma tese, ou sobre um textão).

Algumas das sugestões de Chimamanda podem parecer óbvias. E a única coisa que consigo pensar sobre isso é um grande e sonoro “que bom”. Precisa mesmo ser óbvio. Precisa ser. Ela sugere à sua amiga, por exemplo, que ensine para a filha “que “papeis de gênero” são totalmente absurdos”. E não é que são, mesmo?

Eu nunca brinquei de bonecas. Tive muita sorte por ter sido criada numa casa em que era absolutamente permitido não brincar de bonecas. Cresci jogando futebol e videogame, separando blocos de montar por cor, tamanho e função, com uma coleção respeitável de Comandos em Ação sem os polegares que eram atirados impiedosamente das janelas com paraquedas de sacola e amarrados com barbante (os paraquedas nunca funcionavam). Minha mãe os chamava carinhosamente de hominhos. Quando estava na quarta série, fiz judô. Aprendi a operar chaves de fenda, martelo, nível, alicates e a fazer montagem e instalações de móveis e prateleiras simples (tenho um pouco de medo de usar furadeiras).

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Imagino que não deve ter sido fácil pros meus pais. Fui criança nos anos 90, numa cidade pequena, de interior. Mas eles já sabiam como fazer, sou a última de quatro irmãos que foram criados assim: brincando do que quisessem brincar, aprendendo o que quisessem aprender (e tentando aprender matemática, porque sim).

Nunca liguei, por todos esses motivos, para essa classificação de coisas “de menina” e “de menino”. Nem de brinquedos, nem de esportes, nem de roupas, nem de atividades, nem de nada. Minha criação fez com que eu achasse qualquer papel de gênero algo errado, mesmo quando eu não fazia nem ideia do que esse tipo de palavra significava.

Desconfio que meus pais não se autodeterminassem feministas. Tenho essa leve impressão. Mas, também desconfio, eles fizeram um ótimo trabalho com o material que tinham à disposição. Minha mãe sempre diz que não tem manual para criar filhos. Acho que acredito nisso. Não tenho filhos, mas tenho a meu favor uma boa dose de observação e uma capacidade considerável de teorizar as coisas.

E, enquanto eu lia esse livro e ia pensando de que forma aquelas sugestões tinham ou não tinham sido aplicadas na minha criação, na criação dos meus irmãos, na criação dos meus sobrinhos, na criação das pessoas que eu conheço, comecei a ter um momento meio Douglas Adams. Todo mundo deveria ler esse livro. Pensar sobre esse livro. Pensar sobre essas sugestões. Sobre o que estamos fazendo com a próxima geração. Sobre o que estamos fazendo com a nossa geração.

Então, é esse o meu convite final, o sexto, se não me perdi nas contas, de sexta. Leia esse livro. Pense sobre esse livro. Não importa se você tem ou não filhos, se vai ou não vai ter filhos. Não importa. Só leia. Porque, concluo eu, todos nós temos uma criança dentro da gente, ansiosa pra ser educada como feminista.

Sejamos todos feministas. Sem medo.


6 comentários sobre “convite(s)

  1. …eu sou feminista, feminina, fêmea e mãe de filhas lindas, livres, amadas e amantes e também sou mãe de um filho que ama a esposa e valoriza cada ação dela, seja em casa ou no trabalho, auxiliando e tomando decisões em conjunto, assim como deve ser sempre com AMOR ❤️❤️❤️ Martinica você deveria ter estudado JORNALISMO, à revelia rsrsrsrs

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  2. Como sempre arrasando!!! Prometo que quando meus filhos crescerem mais vou ler todos esses livros aí que vc tá indicando ( eu devia ler agora…mas acho que vou me sentir muito ocupada rssss) . Certeza que nossa família eh feminista e sempre esteve à frente do seu tempo no quesito educação!!! Um beijo, amo, amo ler ansiosa sextas!!!!

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  3. Hoje, com filhos já adolescentes, percebo como a mãe e o pai estavam à frente do tempo… Nunca (nunca mesmo!) houve uma frase em casa do tipo “isso é brincadeira de menino”, “essa roupa está muito curta”, “se comporte como uma mocinha”… Muito pelo contrário. Sempre houve apoio, amor, compreensão pra toda forma de atitude e pensamento. Como fomos sortudos, nós quatro…
    Obrigada, pequena, por continuar transformando em textos nossos pensamentos mais profundos. Obrigada por continuar me apresentando novos ídolos, novos livros, novas musicas, novos mundos. Já sou fã da Chimamanda. Mas não mais do que sou sua fã. Love you. ❤

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  4. Só amor por esse texto! Em tempo: também escuto a história do “é só uma fase!”, e pode ser que seja mesmo. Mas por ora, não quero filhos (sim, todo mundo me pergunta isso, e olha que faz 3 meses que casei).
    Quero esses livros emprestados, me coloca na fila! (vc sabe que eu devolvo :P)

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  5. Gata, garota, como posso estar atrasada para um texto que me bate tão no coração?
    Não conhecia essa autora, obrigada, de coração, porque já quero ler tudo. Li brevemente a discussão sobre a transfobia e tenho minha opinião, mas fica pra um café, depois que eu ler a obra dela. (Mas já adianto que é favorável a ela sim)

    Agora… sobre crescer e brigar com o tal papel de gênero, palmas para nossos pais. Eu brinquei de boneca, mas eu preferia um carrinho. Eu usava os vestidos que minha mãe fazia pra mim, mas eu preferia a camisa do Atlético, e eu amava qualquer desculpa pra jogar bola! E eu ficava de cara desde muito cedo de ser “coisas de menina” e “coisas de menino”. E minha mãe nunca me incomodou porque eu tava de all star, calça jeans e camisa de time nas festas de família, mas eu tenho certeza absoluta que ela ouviu muito por causa disso.
    Ou seja, a gente só é o que é porque nos deixaram ser. Então, nos resta agradecer. Pq eu não mudaria nadinha, nem aqui, nem aí!

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