Conspiração Internacional

Existe um sem número de maneiras de saber como um país trata seus imigrantes. Às vezes, basta conferir se há ideia de muros circulando pelas fronteiras. Outras, olha-se para o parlamento, para as medidas de política internacional, para o ministério das relações exteriores. Mas existem outros métodos, mais simples, mais próximos, dos quais eu posso falar, mais reais. Tipo ir a uma casa de câmbio que funciona como agência de transferência de dinheiro.

Fabi mora fora, mas precisa pagar contas aqui, então às vezes (esse período de tempo indeterminado que você pode substituir por todo mês) a gente precisa fazer isso. Ela vai no banco de lá, eu vou na agência de transferência de dinheiro daqui. Não sei porque tenho a sensação de que a vida dela é muito mais tranquila que a minha. Deve ser só um palpite sem nenhum vínculo com a realidade, coisa de gente assim, que acha que o homem não pisou na lua mesmo.

A agência que vou fica no centro da cidade. Meu horário pra esse compromisso é geralmente encaixado na hora do almoço. O meu o de muitos haitianos que estão aqui, mas que têm família na terra natal, pra quem mandam um bom tanto do pouco dinheiro que conseguem nos trabalhos que, geralmente, brasileiros não querem fazer. É um pouco desse jeito que o nosso país trata seus imigrantes, eu imagino.

É claro que é complicado. Se relações humanas não são simples entre nativos de um mesmo pedaço de terra, entre gente que tem outra cultura, outra língua, outra moeda, então, nem se fala.

As pessoas da agência de transferência de dinheiro não falam francês ou a língua crioula haitiana. Os haitianos ali não falam direito o português. É claro que a agência está sempre cheia, e que a língua que predomina é o dialeto estrangeiro. Alto, revoltado, nervoso, irônico, depende do dia, do clima, do valor do dólar. Provavelmente estão sempre reclamando da demora e da ineficiência do atendimento. Não entendo francês nem a língua crioula haitiana, mas acredito que entonação e gestos de impaciência são basicamente os mesmos no mundo todo. Ou pelo menos no ocidente. Nas Américas, quem sabe?

babel

A demanda por atendimento é muito maior do que a oferta, lá na agência de transferência de dinheiro. O sistema de senhas (sistema gritado, sabe?) é confuso, as taxas são confusas, os clientes são confusos, os funcionários são confusos. Tem muita falha de comunicação no processo como um todo. É como um banco, mas num lugar que não é um banco. Sei que demora. É da vida. Mas às vezes (esse período de tempo indeterminado que você pode substituir por sempre) dá muita raiva. Tenho baixíssima tolerância com coisas confusas.

Preciso me concentrar muito pra não ficar pensando de forma obsessiva em como agilizar o atendimento na agência de transferência de dinheiro. E porque esse tipo de pensamento de querer organizar o mundo é muito automático quando tô em silêncio, e também porque sou bem jacu, eu uso fones. E sempre levo um livro. Uma das formas que tenho pra lidar com minha ansiedade é meio que não ficar sozinha com ela, sabe?

Pois bem. Fabi tinha mandado dinheiro. E eu tinha tentado ir na agência umas três vezes na mesma semana. Quando digo pra vocês que a demanda é maior que a oferta, acreditem. É mesmo. Numa dessas vezes, peguei a senha 96 e o atendimento estava na senha 64. Não tinha como esperar.

E aí mudei a estratégia. Escolhi um outro horário, no meio da tarde. Fui. Eu, meu fone, meu livro. E mesmo assim uma pessoa aleatória insistiu em conversar comigo enquanto eu aguardava a minha vez. Não sei o que leva as pessoas aleatórias a sentir essa necessidade de conversar com gente que tá lendo. Com gente que tá de fone. Com gente que tá lendo, tá de fone, é jacu e ansiosa. Realmente não entendo. Tirei o fone, respondi que, sim, era preciso pegar a senha mesmo, recoloquei o fone e voltei a ler meu livro. Cinquenta e sete, chamou a menina do caixa, finalmente.

fone livro

“Enviar ou receber?”. Receber, tenho moedas aqui pra ajudar. Documento, endereço, conferência de dados. Coloquei o livro em cima da bancada pra atender a todas as solicitações. E aí a atendente olhou pra mim e falou “Ah, você é a menina do livro!”.

Meu dia tava sendo uma merda. Tava chovendo, eu tava atrasada, toda enrolada, precisei parar no meio da tarde pra ir na agência de transferência de dinheiro. Mas quando ela falou isso, sei lá, uma coisa boa aconteceu. Não foi aquela sensação de um complô de agências de espionagem sobre as coisas que eu leio, sabe? Sou, respondi, meio pra dentro, jacu como sempre. “Terminou aquele? Das palavras? Como era mesmo o nome?”. Ela lembrava do livro que eu tava lendo meses antes. E, ao contrário do que o manual de instruções dos ansiosos recomenda em casos como esse, eu só conseguia pensar que coisa mais incrível. Terminei sim, disse, com uma sensação infinitamente melhor do que a que eu tava experimentando até ali. Preconceito Linguístico, vale a leitura, é incrível. “Obrigada pelas moedas, sempre que tiver, pode trazer, você me ajuda e eu ajudo você”. Obrigada. Boa tarde. Bom trabalho. Obrigada.

Foi incrível.

Conta aí, uma coisa boa.


8 comentários sobre “Conspiração Internacional

  1. Queria muito contar uma coisa boa, porque adoro quando sou pega de surpresa em um momento desses, faz a gente renovar a fé na humanidade. Mas a verdade é que eu não lembro a última vez que isso aconteceu comigo – eu lembro que aconteceu com a Pérola, no dia do aniver da pequena, em que o moço deu todas aquelas flores pro aniversário, e foi lindo.

    Mas a real é que eu tenho pensado o contrário, tipo, como as pessoas têm sido pouco cordiais umas com as outras, e pouco pacientes também. Mas isso, eu posso apostar, é fruto da obra. A obra que acontece do lado da minha casa há anos já, que muda nossos caminhos todos os dias (literalmente falando), que tira a paciência de todos que só querem chegar em casa. É motoqueiro furando sinal, é motorista fazendo conversão errada, é ônibus tocando em cima de quem quer que seja, enfim… Às vezes, eu juro, tô animada pra vida. Mas aí tem aqueles 30 minutos pra andar duas quadras, com as pessoas se xingando, se buzinando e se fechando e eu fico um pouco triste.

    Desculpa, Marta. Coloquei tudo ao contrário. Fica com a primeira parte do meu comentário só, acho que ela combina mais com o post.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Curioso como a forma com que você conduz seu texto induz todos a pensarem que vão se deparar com um final nada bom.
    E na realidade era o que você mesma estava esperando, já que seu dia tava sendo “uma merda” e a situação que você vivenciava na agência estava no mesmo patamar.
    Então tudo o que você mais queria era concluir sua tarefa pra poder voltar pro resto do dia, de merda, que tinha pela frente. Afinal era meio da tarde, você estava atrasada, toda enrolada, e ainda chovendo. Você não disse, mas provavelmente era uma quarta-feira. Ou tinha tudo para ser.
    E então, de repente, um simples comentário foi suficiente para te desarmar! O sol reapareceu, perfume de flores no ar, pássaros cantando.
    É claro que nem todos os problemas desapareceram, a menos que tivessem publicado uma portaria suspendendo todos os prazos do dia, mas fato é que o simples comentário te proporcionou um novo rumo para o resto do seu dia, uma nova perspectiva, mais sorridente.
    Vai dizer que você não saiu sorrindo da agência??!!
    Tão bom, né, sorrir por coisas bobas e inesperadas?!
    Tão bom, né, quando coisas simples assim nos reconectam com a humanidade que há em nós e no próximo?!
    Hoje tive um pequeno momento assim, que me fez sorrir o dia todo, e acho que ainda fará por mais alguns dias.
    Minha nova professora, nessa escola que é a vida, surpreendeu a todos quando abraçou uma amiguinha ao ser recepcionada por ela na escolinha. Foi surpreendente porque, pela pouca idade, ela ainda está numa fase individualista, em que a criança não é dada a esse tipo de afeto com outras crianças.
    Enfim, uma coisa boba e inesperada, que me fará sorrir até a próxima coisa boba e inesperada que virá…rsrsrs
    Mas também me faz perceber o quão doce podem tornar nossos dias gestos simples, como um abraço entre crianças ou um sincero “bom dia” na língua dos adultos.

    Curtido por 1 pessoa

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