não é mentira

Foi no meio da madrugada. Três e pouco da manhã, trinta e um de março pra primeiro de abril. O apartamento era habitado por cinco pessoas. Uma delas gritou e acordou todo mundo.

“Seu pai tá tendo um ataque”, acho que era isso. Todo mundo levantou, desorientado. Chama uma ambulância, chama alguém pra ajudar, vamos agora pro hospital. Meu irmão e o porteiro da madrugada carregaram meu pai, que, meio inconsciente, se agarrou numa das portas. A ambulância não chegou, a gente foi pra emergência no nosso carro mesmo. Um Passat. Preto. Que meus pais chamavam de petroleiro.

Primeiro de abril de 2003. Eu tinha prova de laboratório de matemática naquela manhã, precisava ir pra aula. Argumentei isso. E fui. Acho que foi meio que o meu jeito de dizer que tudo ia continuar igual. Só que eu sabia que não ia. Não tinha como.

Eu só tinha 14 anos. Tinha acabado de começar o primeiro ano. Não tava entendendo porque meus irmãos e minha mãe estavam tão putos com a médica. Porque tava todo mundo tão nervoso. Não era só uma convulsão? O que é esse negócio de derrame, de acidente vascular cerebral? Ele não reconhece a gente? Por que não fala? Agora vai ser assim? Sim é uma apertada de mão, não é duas? Pisca um pouco pra saber se tá entendendo, pai.

Foi foda.

Eu já tinha 14 anos. Mas não lembro do meu pai falando. Quer dizer, falando português. Ele fala. Fala uma língua só dele, que diz bolo-banana-limão quando não quer nem bolo, nem banana, nem limão. Uma língua que nesses 14 anos – metade da minha vida até aqui – a gente meio que aprendeu a entender. Mas não consigo me lembrar de como era antes. Sei que tinha uma mensagem na secretária eletrônica de alguém, que ele tinha deixado uns dias antes. Mas não lembro. Não lembro do tom de voz, da velocidade das palavras, de como ele falava o R, nada.

Se bem que teve uma vez. Um tempo depois do AVC. A gente tava vendo o Santos jogar lá no quarto dele. Era campeonato paulista ou brasileiro, não sei bem ao certo. Só sei que era um cara que jogava mal, coitado, e tinha nome de cidade. E aí perdeu um gol daqueles feitos, que não tem como errar. Sei lá. Só sei que ficamos putos, pai e eu. Ele tava sentado na poltrona e eu tava na cama e, quando Canindé, esse era o nome, errou o gol, a gente se inclinou pra xingar. E ele começou a falar um puta que pariu de boca cheia, mas parou antes de terminar a primeira palavra. Aí a gente se olhou. E acho que o cérebro dele lembrou que ele não falava mais. E isso nunca mais aconteceu. Depois daquele 31 de março de 2003 antes de todo mundo ir dormir, aquele dia do jogo do Santos foi a primeira e a única vez.

Foi foda.

Mas também a gente conseguiu resolver. Se fosse fácil, ele sempre falava, qualquer um fazia. A gente foi se virando, mudando um pouco os papeis dentro de casa. Quem faz o quê. A gente se adequou. Hoje, acho que é seguro dizer que temos mais dias bons que dias ruins. Hoje, a gente sabe viver no dialeto do dedemolo. Essa língua que ele fala pra tudo. Quer café, pai? . Com leite? Tiniê. E vai comer essa granola toda também? Dé-dê-molo. Ninguém ficou muito pirado, embora a gente pareça bem maluco conversando. Falar a mesma língua é, no fim das contas, só uma forma dentre tantas pra se comunicar.

Todo dia primeiro de abril é um aniversário, porque o comentário geral da medicina especializada quando vê os exames dele daquele primeiro de abril de 2003 é o de que foi um milagre seu Pedro ter sobrevivido. Então a gente comemora.

Mas todo dia primeiro de abril também é um recado. Hoje, o recado, pra mim, foi o de que mais da metade da minha vida vai ser vivida conversando com meu pai por tentativa e erro.

Mas meu recado também diz que a vida, de modo geral, pode ser entendida como uma grande conversa com meu pai: a gente nunca sabe direito, nunca tem certeza, é sempre um chute. É tudo tentativa e erro.


14 comentários sobre “não é mentira

  1. …eu aqui no salão, com lágrimas nos olhos e nó na garganta querendo chorar de soluçar. Mas a vida continua. E são mais de 5000 dias que ele é prisioneiro dele mesmo e eu sou sua fiel carcereira. Alguns dias serena, outros dias “p” da vida, querendo chutar o balde, mas, pensando bem não posso abandonar o barco e deixar meu amo e senhor à deriva. Ainda tenho muito a aprender e com certeza ele é meu instrutor de vida, de paciencia e resignação. E, enquanto houver fôlego estarei a postos em minha escola…🙏🙏🙏

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  2. Martinha, querida. Eu lembro desse episódio. Ele só mostra o quão especial é a sua família e o quão valente é o seu pai. Sempre seguindo em frente, com muito amor e dedemolo!

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  3. Penso que tenho uma família emprestada, a melhor que poderia e que nos incontáveis momentos de gargalhadas e lucidez (menos ou mais), podemos contar também os preciosos de aprendizagem. Observo demais, talvez seja um grave defeito, e nas leituras que tenho feito ao longo destes 14 anos, tenho absoluta certeza que o Seu Pedro, como costumo dizer, é um guerreiro sortudo prá valer. Tem uma família porreta demais que certamente receberia dele todo o cuidado e carinho caso a situação fosse inversa. Acredito que são todos inspiradores e que dona Elena, mesmo diante das lidas do dia a dia, se mostra valente e digna do grande aprendizado que o próprio Seu Pedro mencionava com frequência: “se fosse fácil, qualquer um fazia”. Estão todos longe de ser qualquer um. São incríveis! Amo e respeito demais! Me inspiro em vocês diariamente!!

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  4. Ma chorei igual criança. Pq lembro do tio Desde sempre. E de vcs todos. E acho linda uma história que consegue ser feliz apesar de.
    Marta, a última vez que te vi foi em Curi, acho que vc não tinha noção que tinha crescido e quando me viu pulou em cima de mim e foi um tombo gigantesco. Provavelmente vc não lembra. Minha vontade, agora, era dar um pulo desses em cima de vc e te esmagar de abraçar, pq vc é tão linda e verdadeira que me comove imensamente!!! Um beijo enoooorme e comemore muito este primeiro de abril! ❤️❤️❤️

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  5. Não, não é mentira: tio Pedro é alguém muito especial! Ele pode falar a língua que quiser, a língua que puder que sempre será um exemplo de pessoa do bem!
    Sou grata por aprender muito com ele. Com você, com sua mãe e com todos desse castelo aí que é regado de amor, dedicação, resignação.

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  6. Martinha, minha pequena, nossa caçulinha, és uma grande mulher, leitora voraz e escritora de primeiríssima qualidade pois sabe tocar o coração dos leitores e arrancar lágrimas de emoção que descem para morrer justamente no sorriso de alegria que nasce nos lábios de cada um que lê teus textos sempre cheios de sutileza. Simples assim…eu te AMO ❤️❤️❤️❤️

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  7. Cê sabe que tá num rol muito especial da minha vida, né? Além de ser a responsável por pagar minhas “contas” no Brasil, é minha advogada, minha enciclopédia, meus tutoriais de aplicativos mordernosos, meu manual vivo do Mac, minha guia de viagens internacionais (não ouse ocupar todos os dias!) e agora, depois do blog, uma das pessoas capazes de me fazer rir até chorar e de me fazer chorar no sentido literal do verbo.
    Obrigada por contar tão bem essa história que é tão nossa. Obrigada por me fazer transformar em texto o que eu também sentia e nunca falava. Não porque eu não saiba verbalizar, mas você sabe do problema que tenho em falar de coisas que ainda machucam. Obrigada por ter se transformado nessa pessoa fantástica que você é. Não que um dia eu tenha tido dúvida que isso iria acontecer.😜
    Nós temos/somos a melhor família. Amo-te.
    É nóiz!

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