Al otro lado del Río

Estou remendando esse texto há meses. E pensei muito se deveria colocá-lo online ou não. Ainda não sei se devo, mas cá estamos nós.

É importante. E tem até trilha sonora.

As marcas que não produzem roupas em tamanhos considerados grandes demais são inúmeras, mas a maioria apenas silencia sobre essa mania de fazer tamanho “G de Barbie”, como costuma sempre pontuar minha mãe – e estou estrategicamente evitando o plus size, porque quero dedicar mais tempo a ele. Contudo, existe uma (que conheço) orgulhosa dessa política. O CEO já afirmou que “gente bonita atrai gente bonita e nós queremos nos direcionar a pessoas legais e bonitas”. E emendou: “Toda escola tem as crianças cool e populares, e também tem as não tão cool. Sinceramente, nós vamos atrás das cool. Vamos atrás das da criança total americana, com uma ótima personalidade e vários amigos. Muitas pessoas não pertencem e elas não podem pertencer. Se somos excludentes? Absolutamente”.

Dentre os muitos infortúnios da minha vida como pessoa gorda em um mundo que não suporta pessoas gordas, quero falar desse em especial: eu não achava roupas. Uma situação particularmente constrangedora, porque, na minha profissão (e sejamos honestos: será que na sua também?), a habilidade de se vestir/maquiar/apresentar – mais do que qualquer outra – te classifica como profissional respeitável ou não. Eram pouquíssimas lojas que forneciam peças minimamente aceitáveis para que eu, não sendo muito talentosa na santíssima trindade vestir-maquiar-apresentar, tentasse me encaixar na frase acima. Uma dessas lojas tinha (ainda tem, porque ainda continua lá) um nome que fazia alusão a um grande hambúrguer. Isso mesmo.

al otro lado del rio.jpg

A palavra constrangedora foi escolhida a dedo. Porque a vida de quem está acima do peso (ah, essa expressão “acima do peso” que me aguarde) é isso: uma sucessão de constrangimentos. De adequações. De silêncios. De muitas pequenas vergonhas, humilhaçõezinhas. De muitas desculpas. Desculpa por ocupar dois bancos nesse ônibus, desculpa por não conseguir passar nesse espaço, desculpa por quebrar essa cadeira. Desculpa por <insira aqui qualquer motivo pelo qual você ache que uma pessoa gorda possa se desculpar, porque provavelmente ela vai>. É uma vida de não pertencimento.

Os exemplos, aqui na minha mente acelerada, pipocam. Na entrevista de emprego, ainda que bem vestida, maquiada e apresentável, você é preterida por alguém mais em forma, porque essa pessoa é obviamente mais disposta, vai vestir melhor a camisa. Nas lojas de roupas, sequer é atendida. Mas tudo bem, porque você sabe seu tamanho (e seu não-lugar): G precedido por uma quantidade constrangedora de X. “Será que esse é o maior?”, você se pergunta. Na programação da TV, seu papel é sempre o alívio cômico, a piada (feita por ou sobre você). Um crítico de cinema do qual gosto muito volta e meia menciona o gênero “gordo gritando” pra classificar filmes que, bem, entendem por comédia colocar um gordo gritando em cena.

onesizefitsall

Sim, há exceções pra todas as situações acima. Mas vamos ser honestos? A verdade é que não tem muita gente querendo saber de você – ninguém quer te ver. Porque você é preguiçoso, desleixado, encostado. Você representa fracasso, falência, doença. Você incomoda. E isso tudo lhe é repetido à exaustão. Geralmente, em silêncio. Ninguém fala essas coisas pra você. Mas, na verdade, todo mundo grita exatamente isso. Todo dia. Toda hora. Em qualquer situação.

Eu sei que não é por mal. Sei que é cultural. E que culturas são feitas por pessoas, mas pessoas são feitas por culturas. Sei que na contemporaneidade só existe um tipo de corpo aceito, defendido, pretendido. Só um corpo possível. Esse corpo não é um “acima do peso”. Então eu sei que sempre que ouvi “você precisa emagrecer para o seu bem” era exatamente isso – o meu bem – que pretendiam as pessoas que me diziam essas palavras. Porque ser saudável significa ser magro. Dá pra gente falar disso pra sempre, né? E é um tema para o qual tenho estudado e me preparado, mas seguremos nossa ansiedade.

Também sei que é possível gritar de volta. Você pode se posicionar com segurança, com altivez, orgulho, com o queixo pra cima e com os punhos cerrados. Você pode devolver na mesma intensidade a maneira violenta com a qual o mundo te trata. Mas também pode se amoldar. Internalizar. Que é preguiçoso, que come muito mesmo, que é desleixado. Que não se veste direito. Que incomoda e é isso. Paciência. Em maior escala, que não tem o direito de pertencer. Pode se tornar invisível.

ansiosa

Existem várias maneiras de você devolver as coisas pro mundo. Não gosto de classificá-las como certas ou erradas. Prefiro pensar que as várias maneiras de você devolver as coisas pro mundo são só várias maneiras de você devolver as coisas pro mundo.

Da posição que escolhi para falar disso – aqui nesse projeto pessoal, em primeira pessoa, não científico – eu só posso falar sobre o meu caso. E eu não rebati com violência, embora tenha ensaiado. Eu internalizei. Eu pedi desculpas. Eu fiquei invisível. Foi minha maneira. É que, pra mim, ser invisível sempre foi muito confortável dentro do seu próprio desconforto. Há um mundo de possibilidades aí. Da invisibilidade, você pode criticar com liberdade essa sociedade que lhe exclui do mercado de trabalho, da loja de roupas, da programação da TV. Você pode politizar a exclusão, pode problematizá-la e, assim, pode não vivê-la. Teorizar sobre algo: a melhor forma que conheço de não viver, de não sentir.

Mas depois que você perde (ou elimina – a depender do seu discurso sobre o significado de cada palavra) quase metade do seu peso, você precisa de roupas novas antes de pensar sobre o seu lugar no mundo a partir de agora. Ou, a depender do seu nível de ansiedade, ao mesmo tempo em que você pensa sobre seu lugar no mundo a partir de agora.

bari - first things

É uma coisa absolutamente chocante entrar numa loja de roupas, você de braços dados com seu IMC no não anormal. Você é visto. Quando você é visto, você pertence. Assim, num piscar de olhos, sem a menor preparação para tanto, você pertence. E pertencer pode não ser tão legal assim. Porque, no fim das contas, você pertence a essa sociedade que faz tanta gente não pertencer. Que marginaliza tantos tipos que às vezes se torna impossível manter uma contagem atualizada.

No processo terapêutico pré-cirurgia, precisei trabalhar vários temas espinhosos. Precisei ouvir que não tinha uma opinião muito boa sobre pessoas magras e, bem, concordar. Eu não tinha mesmo. Não que eu deixasse de conviver com pessoas porque eram pessoas magras, era só uma opinião geral, genérica. Também precisei pensar sobre a função da minha obesidade. E não sabia responder lá e não tenho certeza hoje, mas acho que a função da minha obesidade era ser minha capa de invisibilidade. Não sei se era consciente, inconsciente ou um pouco das duas coisas. Porque eu, no fim das contas, não queria pertencer. Ainda não quero. Não a essa sociedade privilegiada – de classe média alta, branca, magra, heterossexual e monogâmica – que cotidianamente exclui, marginaliza, estereotipa, planifica qualquer um que falhe em um ou mais requisitos.

Só que agora pertenço. Existo. Antes de ir pra mesa de cirurgia, assinei mil tipos de termos de responsabilidade. Esse não era um deles.

É claro que é incrível ser magra. Afinal, o mundo ama pessoas magras. Pessoas magras não incomodam. Pessoas magras estão no mercado de trabalho, na programação, têm opções de roupa pra escolher. Podem pegar uma peça, provar e experimentar a sensação incrível de servir. Não precisam ficar constrangidas porque nem o XXXXG entrou. E eu não me arrependo nem por meio segundo – se você tiver alguma dúvida, retorne aos primeiros textos. Poderia fundar uma igreja e sair por aí, domingo de manhã, batendo na porta da casa das pessoas perguntando se elas têm um minuto para ouvir a palavra da cirurgia bariátrica. A bari me livrou de metade de mim, mas esse processo como um todo fez com que eu me livrasse, como se diz por aí, de várias bosta.

bari - várias bosta

Só que agora pertenço. Existo. (2)

E preciso lutar contra essa sensação de não pertencimento ao pertencer. Porque não posso mais não pertencer. Porque agora estou aqui, do outro lado do rio. Agora, quando alguém olha pra mim, me vê. E vê a personificação dessa sociedade excludente, porque agora – querendo ou não – eu personifico isso.

É esse o conflito. É louco.


10 comentários sobre “Al otro lado del Río

  1. Uallll…
    Deixar as pessoas sem palavras vem sendo sua especialidade a cada textão postado!
    Só tenho a dizer hoje: Ame-se independente de qualquer coisa ou pessoa. Sim, só posso dizer isso pq é algo que tô tentando aprender também! Continue sendo linda do jeito que vc era, do jeito que vc é e do jeito que vc quiser ser… Seja feliz!
    Amei o texto! 👏💗

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  2. A sensação de “não pertencer”, a vontade de ser invisível nesse mundo cada dia mais absurdo. Acho que a gente divide isso desde sempre. A bari foi a sua forma de encarar tudo isso de frente, de peitar, de dar um “chega pra lá, pohan”. Ainda procuro a minha.
    Só quero dizer que me orgulho cada vez mais de você. Por suas escolhas, por suas lutas, por suas vitórias. Quanto a pertencer, não sei se servimos pra isso. E, sinceramente, se o objetivo for se enquadrar nessa zona que chamam de “humanidade”, I don’t give a fuck por não seguir padrões!
    Amo-te.❤

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  3. Martinha filósofa! Deixar eu ver se eu entendi… você está num conflito por agora pertencer àquilo que tanto você julgou (julgar não é bem a palavra, mas ñ encontrei uma melhor) que não pertenceria.. é isso? Realmente complexo…
    Complicada essa história dos tamanhos das marcas. Em muitas lojas uso tamanho G e olha o meu tamanho (acho que P hoje em dia apenas a Thais e a Bárbara usam). Sempre penso: mas e quem realmente é gordinho, usa o que?? Foda.

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    1. basicamente sim, Rê.
      o conflito é que agora eu sou aquela pessoa sobre a qual, de forma geral, eu não tinha lá uma opinião muito boa antes. coisa de gente maluca, evidentemente.
      e sim, os tamanhos P, M, G, são, basicamente, iguaizinhos – e pessoas que não conseguem se espremer dentro deles ficam reféns de lojas que vendem tamanhos grandes e de marcas que fazem do tamanho plus size (que muitas vezes nem é exatamente maior) um verdadeiro “favor”.

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  4. Hummm…Acho que se sentir mal ou em conflito agora não é o caso. Você fez uma escolha que, antes de qualquer coisa, foi por você, pela sua saúde e não deve entrar em conflito por isso.O XXXG muitas vezes vem junto com uma série de problemas de saúde e isso não é legal.
    Ah…e nem todos os P’s e M’s são iguais, nem todos os P’s e M’s são visíveis (muitos e muitos conflitos que nem conhecemos).
    Mais um Ah…não ser invisível quando se tem idéias tão boas para compartilhar, é muito bom!
    Beijooooooo

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  5. Aiai, logo eu que sempre fui refém de tudo isso que vc nunca quis ser tb vivo em busca desse não pertencimento, imagina o que se passa nessa sua cabecinha então???? A verdade é que me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem…e cada vez tenho mais certeza que esse trem não passa por aqui …

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  6. …hoje eu nem deveria comentar pois “pertenço” ao mundo dos nem um pouco invisíveis XLGG ( xiselegege ). Mas, vou vivendo assim gordamente sem ligar para a fala dos nossos semelhantes que adoram dar pitacos onde não lhes diz respeito.com😘no ombro rsrsrs

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  7. Eu não tenho nem palavras para descrever esse texto, cheguei a chorar aqui.
    Eu não te entendo muito porque eu sempre fui magra, na verdade minha única aflição em entrar em lojas eram as calças que não entram na minha bunda, por ser grande, e lojas de sapatos, ah essas eram um verdadeiro pesadelo, saia sempre chorando, nunca tem um sapato que caiba no meu pé, é um horror!
    Mas eu te entendo, eu consigo me colocar no seu lugar e perceber o quão horrível as pessoas são… Chorei com seu texto. Obrigado pela leitura, espero que um dia tudo mudo e fique melhor

    Carol | http://www.pinkisnotrose.com

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