cotidiano

Meu despertador toca de segunda a sexta, sete e trinta e cinco. Só tenho um alarme – diferente de certas pessoas – mas sou adepta da soneca, não gosto muito de acordar cedo. Essa soneca é de nove minutos. O único objetivo dessa função? Deixar qualquer virginiano maluco. Não sei se tem como mudar esse tempo nas configurações. Odeio não saber, mas sempre esqueço de pesquisar se tem como, porque, né? Acabei de acordar. Escrevendo sobre, porque odeio não saber mesmo, fui atrás dessa informação e descobri: não tem como mudar, é padrão – de fábrica. Mas tenho pra mim que deve ter um jeito, sim, sempre tem. Só não descobri ainda.

Café. Não deveria tomar café, eu sei. Só vou tomar esse, juro. Café. Lancheira. Mochila(s). Óculos. De sol, sadly. Queria usar óculos de grau. Não preciso. Por que você não usa um sem grau, Marta? Porque seria errado e eu saberia que estou enganando todo mundo. Mas você não precisa contar pra ninguém. Pois é, mas agora já contei. Ninguém vai ligar! Eu sei.

doses-café

Jaqueta corta vento. Roxa. Luva(s). Capacete. Helmet. Já terminaram de ver Os 13 Porquês (13 Reasons Why, 2017)? Tô pensando se devo, mas tô querendo falar disso. Chaves, controle. Apaguei todas as luzes? Fechei a cortina? Tranquei a porta? Apple tinha água? Claro que sim. Mas pode ser que não. Agora, só vou saber quando voltar. Quando? Do jeito que esse trânsito tá louco, não dá pra ter certeza. Se acontecer um acidente, não sei o telefone de ninguém de cabeça. Mancada, né? Vou deixar isso anotado em algum lugar. Até parece que se você se acidentar de moto vai ter consciência pra dizer alguma coisa, Marta. É. Como essa conversa veio parar aqui? É só prestar atenção. Lembra quando aquele carro te fechou do nada e você conseguiu parar rapidinho? Seu tempo de reação – ligeiramente ansioso – é satisfatório, fica tranquila.

Café. Você disse que era só aquele primeiro. Ah, mas só mais esse, juro, não tem problema. Trabalho. Aula. Como mudar a programação da soneca do celular, pesquisar. Piscou, perdeu. Dez abas de navegador abertas. Fones. Ordem aleatória – se é que isso de ordem aleatória existe. O que estamos ouvindo hoje? Toca Beatles, Stevie Wonder, Nina Simone, Vespas Mandarinas, Projota, Legião Urbana, Buchecha, Zélia Duncan, Negra Li. Uma salada.

Tento ter essa relação livre – por assim dizer – com a música. Mas, por conta de uma deficiência que eu nunca quis resolver direito até precisar resolver, eu prefiro música em português. Acho estranho precisar me explicar por isso, mas, né? Mundo líquido, eles disseram. Globalização, eles disseram. E depois vieram com umas ideias meio Revolução dos Bichos de que uns são mais iguais que os outros que eu bem sei.

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Almoço. Concentração. Foco. Um olho no peixe, outro no gato. Essa coisa aqui em cima do meu pescoço às vezes é difícil segurar. Essa comida não tá muito bem temperada, preciso aprender a colocar sal. Mas calma. Primeiro preciso aprender a deixar a cebola dourar sem ter ataques de pânico achando que ela já queimou no instante que foi pra panela, né? Uma coisa de cada vez, como se fosse possível. A cozinha tem sido uma boa terapia, mas a melhor coisa mesmo é cortar os ingredientes em cubinhos. Cortar ingredientes em cubinhos. Quando estou cortando ingredientes em cubinhos, consigo me concentrar só isso. Se bem que, cortando, penso em como consigo me concentrar só isso e, puft, já não estou mais concentrada só nisso. Se é pra tombar, tombei.

Tinha uma regra lá na casa dos meus pais quando eu tava no colégio: dormir nove da noite. Era uma tortura diária. Invejo gente que deita e dorme, sabe? Invejo. Mesmo que eu deite tarde, muito tarde, e esteja com sono, muito sono, não adianta: coloco a cabeça no travesseiro e pronto. Acordo. É batata. Cortada em cubinhos.

Uma conversinha, pra terminar:

– Tá vendo esse carro aí da frente? Sempre que eu paro atrás de um carro dessa marca acho que tem uma luz queimada no nosso, olha, tá vendo? Por causa desse formado do porta-malas, só aparece uma, a outra não, viu? Não parece que tá queimada?

– Nossa, namorada, nunca tinha nem olhado pra isso.

– Gente, penso nisso toda vez!

– Acho que essa é a metáfora perfeita sobre cada um de nós encara a vida, né?

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Todo dia é uma batalha.


5 comentários sobre “cotidiano

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