We’re not in Kansas anymore

A gente vive num mundo insano, acelerado e que parece ter por objetivo único a criação – no atacado – de pessoas ansiosas. Informação atrás de informação, vídeo no YouTube atrás de vídeo no YouTube, bomba atrás de bomba no Oriente Médio. É um looping infinito de tudo.

Só que pressa nunca combinou com texto. Acho que é por isso que escrever funciona tão bem como escape pra mim. Quando tô escrevendo, eu sou obrigada a ir só até onde minha velocidade de digitação permite, mesmo que eu tente de toda forma superar isso – e engato uma palavra na outra enquanto tô digitando com grande frequência sempre.

No texto, minha ansiedade encontra uma barreira, uma parede, um obstáculo que ela não consegue passar. Porque mesmo que eu junte o começo de uma palavra com o final da outra, quando releio e vejo que aquilo que escrevi não é nem uma palavra nem outra, só é algo que não faz sentido nenhum, preciso voltar lá e consertar. De uma forma que não consigo teorizar muito bem, essa dinâmica me dá algo parecido com um sentimento de paz.

Quando comecei a pensar nesse projeto aqui, lá no nosso amigo de sempre Mundo das Ideias, eu tinha duas coisas em mente.

A primeira – e mais urgente – era tirar de dentro de mim esse sentimento de asfixia com tudo que eu pensava e pensava e pensava. Eu queria – e precisava – parar de sentir o grande abismo entre tudo que pensava remoía o tempo todo e o pouco, quase nada, que dizia. Eu já tinha entendido, na terapia, que não podia deixar tantos pensamentos assim tão sufocados. E também sabia que era muito mais fácil, metodologicamente falando, encarar o papel digital em branco que encarar uma sessão intensa de conversa. Meu negócio é fazer textão mesmo.

A segunda coisa que eu queria – nem urgente, nem imediata – era que algumas pessoas específicas fizessem a leitura desses textos. Tipo, talvez, quem sabe, umas dez pessoas específicas. Porque eu sempre escrevi, mas sempre tive muita dificuldade pra mostrar o que escrevia. E isso é mais ou menos a mesma coisa que não escrever. Eu acredito, de verdade, que um texto nunca tá pronto (nem nunca tá bom). Acho que é assim que textos funcionam mesmo. Mas também acredito que um texto não lido é um texto que não existe.

Eu tenho esse costume de ficar refletindo demoradamente, por longos períodos e de uma forma até meio obsessiva sobre essas minúcias, né? Não deve ser muito saudável esse combo de reflexão lenta e ansiedade. Desculpa, sociedade.

kansas- leão.jpg

Então, claro, fiquei meses pensando sobre ter um blog ou não. Começando muitos textos diferentes sobre temáticas variadas e quase nunca terminando nenhum deles. Meu processo de escrita (ou de vida?) é mais ou menos esse, mesmo. Escrever, apagar, escrever, salvar e esconder. É meio que um mantra. Só que escrever-apagar-escrever-salvar-e-esconder, na verdade, não era revolução nenhuma, porque eu não estava fazendo nada de diferente de tudo que já tinha feito antes, e não era essa minha proposta de vida pós-bari.

Aí decidi fazer um teste. Resolvi mandar um textão ou outro pra Fabi e pro Renan, essa duplinha de sagitarianos do barulho que se mete em altas confusões. Fabi recebeu os textos da bari, que naquele momento eram um só, e Renan recebeu Todas as Sextas.

E quando Renan leu o primeiro esboço (que já devia ser a sexta ou sétima versão, claro) de Todas as Sextas, ele teve um raro momento de sisudez pra conversar comigo. É muito estranho quando a pessoa com a qual você mais convive muda totalmente de chave pra conversar com você. Cria meio que um clima importante – e trilha sonora que me vem à cabeça pra esse momento é a Marcha Imperial de Darth Vader, mas a palavra pra descrever o sentimento fugiu. Pois bem, disse Renan que poderíamos abordar essa-ideia-de-blog de duas formas: um projeto absolutamente pessoal, como eu tinha imaginado, ou de um jeito um pouco mais elaborado, porque, segundo ele, havia potencial aí.

kansas-homem de lata

Eu não sei lidar muito bem com pessoas falando que há potencial em coisas que eu faço – e se você já falou comigo alguma vez na vida deve ter percebido isso com clareza e sabe que não é charminho – mas também sou bem ruim em dizer não. E Renan é particularmente bom em me convencer a topar umas loucuras (quer um exemplo? Leia esse textão aqui). E eu também não antecipei o que poderia vir. Irônico que justo eu, jacu e especialista em worst case scenarios, duplamente qualificada, portanto, não tenha antecipado que poderíamos estar aqui, agora, tendo essa conversa.

Reticente, eu deixei que Renan chefiasse o ~Departamento de Marketing do Ansiosa~. Irônico que justo eu, jacu e especialista em worst case scenarios, duplamente qualificada, portanto, não tenha antecipado que poderíamos estar aqui, agora, tendo essa conversa. (2)

Aquelas dez pessoas específicas se multiplicaram. Teoria populacional malthusiana aplicada na prática. A primeira série de textos teve uma repercussão que me assustou. E – bastidores! – rolou uma crise forte de ansiedade depois que publiquei Quem é mesmo o dono de quem? Fiz um esforço mental pesado pra continuar – e não me arrependo.

Tive – e continuo tendo – respostas tão incríveis e tão surpreendentes que não sei direito como lidar. Às vezes parece que tá todo mundo combinando essas coisas num grupo de whatsapp do qual só eu não participo, de tão sincronizado que é. E é sensacional. Aqui na minha mente acelerada, vem uma mistura do mais genuíno fascínio e do mais profundo terror. Queria mostrar todas as palavras incríveis que recebi desde que comecei, mas ia parecer muito panaca da minha parte, então eu guardo. Numa pasta, que é tipo o equivalente virtual da caixinha. E saiba: se merece uma caixinha, é porque a louca das caixinhas se apegou.

Mas o que você quer com esse papo que parece meio sério, meio não, Marta?

Quero contar uma história – porque eu sempre quero contar uma história.

kansas-estrada

Lá na primeira semana de blog eu recebi uma mensagem. Fabi é jornalista. Eu, como irmã mais nova, sempre convivi com os amigos jornalistas da Fabi. Eu até queria ter feito jornalismo, sabe? Mas essa é outra conversa. A mensagem, de uma amiga da Fabi, perguntava se eu toparia fazer uma entrevista pra dizer como eu lidava com a minha ansiedade.

Eu já contei pra vocês como é meu processo de travamento né? Marta lê algo. Marta não sabe o que responder. Marta pergunta pra Renan o que fazer. Marta fica no gif-da-panqueca pra sempre de porque-você-vai-lá-perguntar-pro-Renan-essas-coisas-se-sabe-no-que-isso-vai-dar? Marta diz que sim, topa fazer uma entrevista. Marta, essa pessoa jacu, que não tem desenvoltura nem pra conversar normalmente, topa fazer uma entrevista para a televisão. Com câmera. Com aquela luz de câmera. Com microfone. Com repórter. Ó as ideia.

Só que isso foi lá no começo. Fiquei um par de dias sofrendo com essa possibilidade, mas como não tinha desenrolado mais nada, eu entendi que tinha ficado por isso mesmo e continuei tocando minha vidinha normalmente. Só que aí essa semana – vários meses depois que eu já tinha botado pá de cal no assunto – eu recebi uma ligação. Precisava mesmo ser uma ligação?

O telefonema cresceu para um “sim, continuo topando dar uma entrevista, com certeza” que virou encontro com equipamento de filmagem envolvido pra dali dois dias, na quarta-feira. Precisava mesmo ser numa quarta-feira? Para uma conversa absolutamente maluca sobre como eu lido com minha ansiedade. Com uma câmera envolvida. Com uma luz de câmera. Com um repórter. Com um microfone. Para um programa de TV. Que deve ir ao ar qualquer hora dessas. Oh, boy.

Toto, I’ve a feeling we’re not in Kansas anymore.

 


5 comentários sobre “We’re not in Kansas anymore

  1. Martinha, que maravilha, fico muito feliz por vc! Desculpa a demora pra ler… Minha vida está meio louca nos últimos tempos…

    E sabe, gosto dos seus textos pq me identifico… É engraçado isso, somos muito parecidas, mesmo sendo muito diferentes… Fez sentido? Principalmente o escreve-apaga-escreve-esconde e no meu caso, escreve-apaga-escreve-esconde-lê-apaga.

    Obrigada por existir! E por escrever e nos deixar ler! Beijos!

    Curtir

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