Sobre calendários e relógios

Trabalharemos com spoilers.

Se você não viu Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016), volta na próxima sexta.

Sério.

[filme e filosofia]-strange-destaque.jpg

Eu tenho um fraco por heróis, já estabelecemos isso antes, né? Mas não leio muitos quadrinhos porque tenho um pouco de implicância com a narrativa. Já tentei, bastante. Mas meu negócio é textão, gosto de imaginar as cenas, não de vê-las desenhadas. Seria tudo muito mais legal, acho eu, se os heróis fossem personagens de romances em prosa. Pensem nisso.

Então, não li os quadrinhos de Dr. Estranho, embora tenha lido muito sobre eles e sobre suas histórias cheias de psicodelias típicas dos anos 1960-1970 em textões especializados. Também acompanho há anos um canal no YouTube sobre heróis, pra não dizer que sou a descoladona da turma que só . O herói não me era um completo estranho, mas também não era, assim, um Capitão América. Eu tinha altas expectativas com o filme (filmes de herói, amo/sou). Elas foram atendidas. E superadas. By far. Estamos começando uma conversa sobre filosofia hegeliana a partir de um filme de herói da Marvel, que fez piadinha com a senha do wi-fi. Minhas expectativas foram claramente superadas.

Hegel, Marta? Serião? Cê não tá vendo essa barra, não?

[filme e filosofia]-Hegel

Em linhas (bem) gerais, Hegel propõe, em Fenomenologia do Espírito (1806), uma imagem de dualidade – dialética – entre o senhor e o escravo. Segundo o Dicionário Básico de Filosofia – livro-referência que me acompanha na vida desde 2006 e já me salvou de várias enrascadas filosóficas (e vocês ficariam assustados de saber em quantas enrascadas filosóficas eu sou capaz de me meter) – a dialética do senhor e do escravo serve para “explicar o processo de constituição da consciência em interação com a outra consciência”. Prossegue, inabalável, o verbete mastigador de conceitos:

Em sua relação com o que lhe é outro, o sujeito sempre o trata como objeto; no entanto, no caso de outra consciência, temos uma relação entre duas subjetividades. Portanto, a consciência subjetiva sempre procura submeter outra consciência, tratando-a como a um objeto. É este processo que Hegel descreve como relação entre o senhor (Herrschaft) e o escravo (Knechtschaft). Entretanto, o senhor, embora se considere superior, necessita ser reconhecido pelo escravo, seu inferior. O escravo, por sua vez, pelo seu trabalho, conquista sua autonomia e sua identidade. Assim, as posições terminam por se inverter. (Hilton Japiassú e Danilo Marcondes. Dicionário Básico de Filosofia. Página 74.)

Ou seja: a ideia é a de que o senhor, para ser reconhecido como tal, passa ao escravo o poder de reconhecer a si próprio, escravo, como sujeito capaz de dar legitimidade ao outro, ainda que esteja vinculado a uma posição inicialmente inferior, de objeto. O meu tempo médio para começar a entender essa confusão conceitual toda foi de mais ou menos dez anos. E, quase imediatamente ao pequeno lapso de compreensão, entrei em um espiral de dúvidas novinhas em folha.

Pois bem. Lá vai. Tendo você resistido até aqui, é hora de alertar, uma vez mais: trabalharemos com spoilers.

[filme e filosofia]-spoilers are coming

A ameaça de Dormammu – o grande vilão do longa – aparece desde o começo de Doutor Estranho. Mas, mais ou menos no meio da história rola aquele sempre necessário diálogo expositivo. Wong (#melhorpersonagem) explica que o ser vive na Dimensão Negra, além do tempo. Diz que ele é o conquistador cósmico, o destruidor de mundos, “um ser de poder infinito e fome insaciável, que busca invadir todos os Universos e levar todos os mundos para sua Dimensão Negra”. Criando aquele clima de filme de herói, o mestre continua, num tom sinistrão: “ele anseia pela Terra, acima de tudo”, explicando que o feiticeiro que abandonou o templo roubou páginas de um ritual para entrar em contato com Dormammu e drenar poder da Dimensão Negra.

Logo depois da explicação, quando Stephen dá a entender que vai pular fora, é drenado pra ação e pro combate direto com Kaecilius, o dito mestre que quer a vida eterna que pode ser fornecida por Dormammu, uma vez que na Dimensão Negra não há tempo. O antagonista faz um belo discurso sobre qual é o real inimigo dos humanos e explica – usando as mesmas palavras que o médico usou para desacreditar toda a seita antes de começar seu treinamento – que o tempo escraviza a todos.

Breve parênteses: eu imagino que uma dimensão em que o tempo não exista deva ser uma dimensão sem pessoas ansiosas. Nesse universo alternativo, não haveria Marta? Reflitam.

Enfim. Gosto muito desse momento de ressignificar quem é bom e quem é mau no filme, mas vamos passar por ele, por agora.

[filme e filosofia]-strange

Vamos para a conclusão. Para a cena que mostra o embate entre Stephen e Dormammu. É uma sequência belíssima e, também, bastante filosófica. Uma coisa que deixa tudo mais legal ainda (caso você esteja achando isso legal até agora, tá?) é que o interprete do herói, Benedict Cumberbatch, também dá vida (à voz) do ser.

Como último ato para salvar a Terra, quando tudo que tentou antes deu errado, o Doutor entra pelo portal para a dimensão de Dormammu e ao encontrar com o vilão anuncia que chegou para barganhar. “Não, você veio para morrer!”, diz Dormammu, e facilmente aniquila Stephen. E, então, o Doutor aparece novamente, repetindo o que havia dito. O vilão diz, uma vez mais, que o Doutor está lá para morrer, e, embora note a estranheza do momento repetido, mata o herói outra vez. E há uma nova sequência idêntica.

“O que está acontecendo?”, pergunta, enfim, a entidade. “Você deu a Kaecilius um poder da sua dimensão, então eu trouxe um poder da minha. Esse é o tempo. Tempo infinito e sem fim.”, explica o Doutor.

Morte.

“Você não pode fazer isso para sempre!”, vocifera o vilão. “Na verdade, eu posso. É assim que as coisas são agora! Eu e você. Presos nesse momento. Para sempre.”, diz o Doutor.

O diálogo a seguir é meio que incrível:

– Então você vai passar a eternidade morrendo!
– Sim, mas todos na terra irão viver.
– Mas você vai sofrer!
– A dor é uma velha amiga.
Morte. Morte. Morte. Mil mortes.
– Acabe com isso! Você nunca vai vencer!
– Não. Mas eu posso perder. De novo, de novo e de novo. Para sempre. Isso faz de você meu prisioneiro.
– Não! Pare! Faça isso parar! Me liberte!
– Não! Eu vim para barganhar!
– O que você quer?
– Leve seus seguidores da Terra. Encerre seu ataque ao meu mundo. Nunca mais retorne! Faça isso e eu irei interromper o loop.

[filme e filosofia]-minimalist

Má, meldels! Eu quero pular da cadeira cada vez que vejo essa conversa!

Não é belo pensar que esse momento é uma encenação perfeita da dialética do senhor e do escravo? É Dormammu, na posição de senhor, exigindo que o Doutor o reconheça como tal, mas, numa tomada de consciência do poder que detém e usando a seu favor algo que o senhor não possui (no caso do filme, o tempo, que não existe na dimensão de Dormammu; no da dialética do senhor e do escravo, o trabalho), o herói toma para si a autonomia de outorgar ou não esse reconhecimento ao vilão e as posições terminam por se inverter!

Que. Coisa. Maravilhosa.

Dá até vontade de ver mais uma vez.

Êta filme bom!


5 comentários sobre “Sobre calendários e relógios

  1. …euzinha, que não vi o filme, só quero barganhar rsrsrsrs e dizer que a dor nunca foi minha amiga e que esse negocio de “tempo” foi uma invenção nada inteligente da humanidade, portanto, minha ansiosa preferida : VIVA o HOJE sem sofrer pelo ONTEM que já passou e nada espere do AMANHÃ que ainda é um misterio. A vida é perfeita nós é que complicamos…❤️❤️❤️

    Curtido por 1 pessoa

  2. Oi, Marta. Conheci suas palavras por indicação da Ariana (acima). Digo, de cara, que algumas delas já me tocaram. Menina, esse filme é o predileto (no momento) do meu menino de 6 anos…. já rodou, reprisou, repassou tantas vezes em nosso canto.. que eu vou, com categoria, repetir o que li: o filme bom! Nos encontramos por aí… tenho um site literário com minha irmã (irmasdepalavra.com.br).
    Beijão

    Curtido por 1 pessoa

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