crise por causa do livro de crises

Pois é, rolou.

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Tá Todo Mundo Mal, Julia Tolezano da Veiga Faria, Companhia das Letras.

Mas antes, um contextinho: tô cursando essa disciplina isolada sobre narrativas num programa de pós graduação alheio. Por que, né? A vida no mestrado tava muito de boas nesse semestre, então eu pensei “por que não me matricular nessa disciplina de sessenta horas que não tem nada a ver com meu tema de pesquisa?”. Nota digna de nota: as aulas são nas quartas-feiras.

Pois bem. Lá, toda quarta-feira, debatemos narrativa através da análise de biografias. Então – no meio de paralelas que se cruzam em Belém do Pará e encontram semelhanças entre a autobiografia da Rita Lee e as Confissões de Santo Agostinho – temos alguns compromissos peculiares. Um desses compromissos era escolher uma autobiografia e apresentar aos colegas de turma para debater sobre o gênero de escrita.

Vocês sabem, né? Como funciona a academia. Quando, lá no começo do semestre, a gente tava conversando sobre autobiografias que poderíamos discutir alguém mencionou, numa fala recheadinha de preconceitos, “vocês viram que absurdo? Os youtubers têm autobiografias agora!”.

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Bom. Recentemente eu conheci uma guria. Que eu já conhecia. De outros carnavais, com outras fantasias. Essa guria – que chamaremos aqui de Sincerona, de forma a ocultar sua real identidade para preservá-la – ficou incomodada com esse discursinho pronto.

Você já leu alguma autobiografia de youtuber? Não. Será que não valeria à pena? São livros escritos por ghost writers! Mas será que esse fenômeno não está querendo nos dizer algo? Sim, que são publicações caça-níqueis pra pré-adolescentes gastarem suas mesadas! Tá, mas será que não devemos pelo menos dar uma olhada no conteúdo? O que alguém que não tem nem vinte anos tem pra contar? Mas aí a gente não precisaria ler pra saber? E seguiu o baile.

Vocês pegaram a ideia. Sincerona levantou uma bola aí. A professora cortou. P(r)onto. Alguém poderia ler uma autobiografia de um youtuber pra gente ter esse debate! Mas é claro! Quem se habilita?

Mas quem será que se habilita? Quem será que se habilita?

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Aí estamos aqui. Na livraria. Na estante dos mais vendidos. Escolhendo o youtuber que iremos ler pra debater em sala de aula. E, sim, claro. Tem um monte de caça-níquel. Tem um monte de porcaria com capa colorida, fonte vinte, figuras, desenhos, duas palavras por página. Nada que tenha sido uma surpresa pra gente. É um fenômeno. E fenômeno tem dessas coisas.

Na dúvida que só aqueles planetas em libra me proporcionam, levei a questão pro debate na mesa de jantar de casa – que, na verdade, é o sofá, desculpa mãe. Renan, muitíssimo mais por dentro de todas as coisas do universo do que eu, falou: Já te disse, namorada, pra você ler o livro da Jout Jout. É mesmo. Ele já tinha me dito isso há uns meses e eu tinha absolutamente deletado essa informação do meu banco de dados. Que mancada.

Não sou uma pessoa muito de YouTube – acompanho poucos canais e perco a paciência muito rápido mais da metade das vezes. Não reconheço a maioria das web celebridades. Mas eu gosto da Jout Jout. Acho os vídeos incríveis, acho que ela manda bem no discurso, no posicionamento, na ideia de não usar maquiagem e no fato de sentar na máquina de lavar roupas pra falar com a gente, na sinceridade.

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Mas será que eu realmente ia encarar uma autobiografia de youtuber? Porque, sendo bem honesta comigo mesma, eu tinha os mesmos preconceitinhos da pessoa da aula de narrativas. E, aqui entre nós, foi até por isso que Sincerona entrou em ação na aula aquele dia. A gente sempre sente desconforto quando vê nossas opiniões, tão bem guardadinhas no Mundo das Ideias, aparecerem rodando por aí, sem o menor verniz, na boca dos outros.

Só que agora era uma questão de honra acadêmica. Um dos compromissos peculiares da melhor matéria do semestre. Precisava encarar. Que seja bom, que eu possa terminar, que seja indolor, era tudo que eu pensava. Bobinha.

Não é bem uma autobiografia, embora eu seja do time que acha que tudo é autobiografia. É um conjunto de textos sobre crises. Que todo mundo tem. Ou que eu espero que todo mundo tenha também, porque – meldels – eu tenho. É uma leitura leve, do tipo que te pega pela mão e te leva até o fim sem que você note. Não sei se há no mundo algo mais legal do que poder dizer que um livro te pega pela mão e te leva, assim, sem esforço. Só vem, diz o livro. E você só vai.

E é isso. Você vai. Lê as crises da Julia. Começa a achar que Julia é sua amiga – e acha divertido que Julia tenha tido umas crises sobre isso. Começa a achar que você e Julia são, tipo, muito parecidas em alguns aspectos. Começa a achar que, talvez, você e Julia poderiam ter trocado diversas mensagens sobre cada crise ali. Que você e Julia possuem um sistema de esquiva de crises estratégicas que também funciona de um jeito bem semelhante. Que o pensamento acelerado de vocês também mede o tempo em três segundos, dois minutos e episódios de seriado – e que vocês assistem, basicamente, aos mesmos seriados.

Que você e Julia, de forma bizarramente igual, também entendem que seus “talentos” não podem ser exatamente convertidos em profissões. Que… Peraí. Era só isso? Acabou? Mas, ô, Julia, volta aqui, a gente ainda precisa falar de umas outras crises que apareceram aqui na minha cabeça. Ou vai me dizer que você também não matava seus Sims na piscina tirando a escadinha e deixando os pobres cidadãos virtuais lá, na água, pra sempre? O que isso diz sobre a gente?

Tá, vem cá, deixa eu te dizer só mais uma coisa, então, antes da gente se separar pra viver cada uma suas crises particulares sem conversar por mais um tempo: você não acha que tudo isso pode ser culpa de Gilmore Girls?

gilmore

Pode ser, né, fala sério. Super pode ser.

Certeza que é.

Melhor debate acadêmico que ganhou tons acalorados e que me fez ler uma autobiografia de um youtuber qualquer pra apresentar seminário dos últimos tempos.


4 comentários sobre “crise por causa do livro de crises

    1. eu imagino que sim, também, que o público é outro (tanto que o livro dela nem tava no mais vendidos quando fui), mas é uma ideia, sabe?
      ler um outro youtuber por aí.
      vou pensar.

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