Juliana

Juliana foi embora numa segunda-feira. 

Lembro bem. No sábado, a gente tinha antecipado a comemoração do aniversário do Joca e feito um bota-fora. Mas a verdade é que minha ficha ainda não tinha caído. Quer dizer, eu sabia que ela tava indo embora. A gente já tinha discutido alguns detalhes práticos disso, é claro. Eu não ia mais poder ligar pra ela e torcer pra que não tivesse resposta só pra deixar aquelas mensagens de voz que Juliana tanto odiava.

Eu só comecei a realizar de verdade naquela madrugada de domingo pra segunda, aniversário de quatro anos do Joca, dia do embarque. Sentei no sofá da minha casa e fiquei encarando a televisão desligada várias horas. Pensando. Pensei muito. Não concluí nada, porque é o que eu geralmente faço. Sei que Londres é em outro continente, mas também é do lado. Sei que hoje o mundo é mais perto do que jamais foi. Sei que temos tantas formas de contato e ferramentas de comunicação que quase dá pra ignorar a distância.

Quase. A ênfase, quase sempre, vem no quase.

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Conheci Juliana na faculdade.

E a faculdade foi um período muito louco na minha vida. Talvez seja assim pra todo mundo que passe por uma, mas só posso falar da minha experiência. Só que antes de falar desse tempo vou dar uns passos atrás. Uns, sei. Quando eu era criança, morava no interior. Não tenho um registro muito fiel da minha meninice, mas sempre ouvi dos meus familiares que eu era uma criança introspectiva, que gostava de brincar sozinha. É coisa de personalidade, mesmo, só isso. E eu consigo numerar bem: tenho um amigo de infância.

Enquanto eu estava crescendo, minha família mudou de cidade duas vezes. Na última mudança, fixamos residência em Curitiba, uma cidade com fama de antipática que a precede. Então, não é tão surpreendente assim que eu tenha um espaço relativamente grande entre amigo de infância e outras amizades. Isso foi um problema pra mim, é claro. Sempre tentei, por causa desse vão significativo, construir amizades sólidas, mas nem sempre isso foi possível.

Quando eu estava terminando o ensino médio, achei que tinha conquistado vários amigos de vida toda. Portanto, não é de surpreender, também, que tenha ficado um pouco perdida quando eu descobri que não era bem assim. Eu sei que é da vida. Lá, com 17 anos, eu já meio que sabia também. Amigos podem ser transitórios, não há nada de errado nisso. Mas, particularmente, prefiro que não sejam.

Quando eu entrei na faculdade, então, eu estava meio maluca, porque algumas das amizades mais sólidas que eu tinha tido na vida tinham derretido. Foi por isso – e umas outras coisas – que a faculdade foi um período muito louco na minha vida.

Juliana entrou na minha vida no primeiro semestre do segundo ano, numa aula de Brasil.

Eu não sei bem se foi mesmo numa aula de Brasil, mas deve ter sido. Gosto de pensar que foi, porque essa sempre foi minha matéria favorita. Ela tinha vindo de outra faculdade, estava desperiodizada e tinha caído nas turmas H2, bem onde os estudantes não tão preocupados com sua vida acadêmica se matriculavam. Eu era assídua frequentadora das turmas H2. Juliana só estava lá naquele semestre, acho que porque tinha chegado depois do prazo de matrícula originário e não tinha mais vaga nas turmas boas.

Só sei que um dia ela chegou. E tinha lido o texto. Achei incrível, porque eu nunca lia os textos. Eu tinha cópia de tudo, é claro. Gastava quase todo meu dinheiro no xerox. Tirava cópia até de texto que não precisava. Mas eu nunca lia os textos. E aí ela chegou na aula, com o texto lido. Não sei mais como foi o resto. Devo ter perguntado de que planeta ela estava vindo, pra estar com o texto lido numa H2. Que absurdo. Só sei que, num piscar de olhos, a gente já tava fazendo uns seminários juntas. Mentira. Ela tava fazendo os seminários com as outras pessoas, eu só tava no grupo. Não sei como ela continuou fazendo seminários comigo depois daquele semestre. Honestamente, não sei como ela continuou falando comigo depois daquele semestre.

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Mas ela continuou.

E esse negócio foi crescendo. Eu comecei a ligar mais pra minha vida acadêmica. Até li uns textos, fiz umas matérias em H1. Virei uma estudante de história quase boa – e uma boa estudante de direito. E ela começou a se sentir mais a vontade lá na Reitoria, aquele lugar tão contraditório. O que deve ter sido bom, porque deve ser horrível ser uma pessoa desperiodizada na faculdade. É tipo chegar num lugar em que todo mundo já chegou, só que um ano antes de você. E ela foi entrando na minha rotina.

E, de uma hora pra outra, Juliana era minha pessoa.

Quando eu penso nisso, não consigo me lembrar direito como era minha vida antes. Quer dizer, não sei precisar o momento em que Juliana passou de uma pessoa para minha pessoa. E não sei se isso é algo ruim. No fundo, acho que não é. Acho que significa que as coisas aconteceram de forma tão natural que foram plenamente naturalizadas. Como se sempre assim tivessem sido.

Juliana era tão minha pessoa que um dia me mandou uma mensagem dizendo que eu precisava ver mais ou menos cem episódios de um seriado até a estreia da temporada seguinte, dali umas três semanas, e eu assisti. Sem discussão. E foi assim que descobri como verbalizar aquilo que a gente tinha construído: Juliana era minha pessoa. Tão minha pessoa que entrou na minha vida e descobriu outros lados da minha existência. Viu, como se enxergasse a mim melhor que eu, essa personalidade densamente obsessiva que tenho. Riu, como ninguém, do meu mimimi pra tudo. Talvez ela seja uma das únicas pessoas que consegue me dizer, até sem falar nada ou lá do outro lado do oceano, que mais vezes do que não tudo que eu faço, digo e penso é mimimi.

Juliana virou parte da minha família.

E eu me encontrei. Entrei nos trilhos. Cresci. Saí da adolescência meio fora de época que tinha tido. Foi incrível. Tinha tudo nos eixos. Família. Amigos. Melhores amigos. Pessoas. Tinha trabalho social, religião, opiniões políticas sedimentadas. Tinha projeto de pesquisa, orientadora, boas notas. Certezas. Um futuro. A vida era muito boa.

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Mas aí alguma coisa aconteceu.

Não sei o que foi. Não tenho distanciamento para amadurecer algum pensamento sobre isso, embora constantemente dedique algum tempo pensando sobre isso (e não concluindo nada, porque é o que eu geralmente faço). Houve algum tipo de desconexão. A faculdade acabou (não pra todo mundo ao mesmo tempo, é verdade). Juliana casou, entrou no mestrado, engravidou. Teve filho. Escreveu uma dissertação. Virou mestra. Eu estava lá, mas não estava. Eu terminei uma faculdade, depois a outra. Ensaiei continuar na vida acadêmica assim, direto. Optei por não. Comprei um apartamento. Viajei. Casei. Ela estava lá, mas também não estava. Foi estranho. Muito.

Depois de terminar a faculdade, comecei a pensar a vida de forma muito prática, o que foi uma novidade pra mim. Acho que foram tantos anos de intenso trabalho mental para tantas coisas (tipo andar três quadras) que dei uma esgotada. Queimaram uns fusíveis. Só queria trabalhar, pagar minhas contas, fazer novas contas, trabalhar mais para pagar as contas novas. Começar de novo no dia seguinte. Entrei nesse piloto automático, achei que essa era a vida. Acho que a melhor definição pra esse meu momento talvez seja a de que eu virei burocrata, parei de enxergar uma jiboia devorando um elefante e vi um chapéu, para emprestar aqui um conceito trabalhado com minha outra pessoa além da Juliana. Talvez tenha sido isso. Provavelmente foi.

Isso durou um tempo. Mais do que deveria ter durado. Muito mais. Tipo uns anos.

E eu não consigo lembrar de quando Juliana decidiu que ia embora.

Mas ela decidiu. E a iminência de Juliana ir embora fez com que eu sacudisse um pouco. Sabe? Ligou um alarme daqueles na minha cabeça. Eu, essa pessoa que tem família morando fora há anos e não sabe, em absoluto, lidar com isso. E agora? Como assim, vai embora? E a vida aqui? Eu meio que dei uma surtada. Precisava correr atrás do tempo perdido. Quantos anos? Quanto tempo ela aqui e eu nessa babaquice? O que tá acontecendo? O que aconteceu? O que eu perdi? Nossa senhora da bicicletinha. Não vai dar tempo. Era só no que eu pensava: não ia dar tempo de correr atrás de todo esse tempo.

Eu tendo a travar quando estou sob muita pressão. Então foi meio óbvio: Juliana ia embora e eu entrei em pânico. O que, obviamente, não impediu nada.

E Juliana foi embora numa segunda-feira.

Só que o mundo, ao contrário do que eu imaginava, não acabou. Ele se transformou, como costuma fazer todos os dias. Porque acho que, no fim das contas, nada é definitivamente definitivo. As coisas são fluídas. O mundo é líquido. Não. Nada é, tudo está sendo.

No começo, tinha medo de conversar muito com ela, porque acho que faz parte do processo de ir embora procurar outros amigos, fincar raízes no lugar em que você chegou. Não que eu já tenha, assim, me mudado de país, mas são coisas que imagino por tudo que já vi. Fiz tudo que podia, daqui, pra fazer com que Juliana pudesse se sentir em casa no estrangeiro.

E depois daquela sacudida, eu meio que voltei. Porque a sensação que tenho é que, durante um tempo, eu tinha ido. Não sei pra onde, não sei porquê, não sei, só ido. E tudo isso me fez voltar. E eu fiz alguma coisa. Várias coisas. Dei uma revolucionada na minha própria vida. Tive meu pequeno 14 de julho.

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Juliana, que tinha ido embora, nunca esteve tão presente.

Porque estar presente é muito mais do que estar aqui. É pertencer. E eu, nessa jornada de volta pra minha vida, descobri que Juliana é minha pessoa não porque ela está ou deixou de estar aqui. É porque ela me dá a sensação de pertencer a alguma coisa boa, a alguma coisa que faça sentido. Acho que ela tem esse efeito nas pessoas. Deve ser por isso que ela é a pessoa de tantas pessoas.

Um tempo depois, Juliana ligou e disse que viria fazer uma visita.

Meu coração queria sair fora do peito. A ansiedade de uma pessoa ansiosa não tem limites, às vezes, sabe. Ela chegou num fim de manhã de sexta-feira. Mais alta, mais magra, mais bonita, mais segura, mais de Londres. Mais do mundo. Foi incrível. Foi simples. Foi feliz. A impressão que tive, durante aquelas semanas intensas, foi a de que Juliana jamais tinha ido. Parecia que a gente tinha se visto ontem. Disse isso algumas vezes. Por uns momentos, parecia que ainda estávamos lá, quase dez anos antes, no pátio da Reitoria. Mas não é isso. É melhor.

Queria ter dito muito disso pra ela pessoalmente, mas não consegui. Afinal, eu tendo a travar. Já me perdoei por isso, tá tudo bem. Acho que posso classificar qualquer pensamento em contrário como um bom e velho mimimi. Porque acho que, depois de tanto tempo, as coisas estão mais claras. Mais serenas. Menos dramáticas, talvez. Juliana é minha pessoa, é parte da minha família. Não importa onde, quando, como. E, nessa jornada, eu redescobri uma certeza, no fim das contas.

Juliana deixou um pouquinho dela aqui, mas voltou pra casa num domingo.

juliana-Marta dando um Jump

~Após o sinal, deixe seu recado:

Ô Juliana! Atende esse telefone! Não, sério. Tô ligando só pra saber: você pode almoçar comigo na terça da semana que vem? 


11 comentários sobre “Juliana

  1. Texto mais lindo do mundo.
    Texto mais lindo do mundo.
    Texto mais lindo do mundo.
    Texto mais lindo do mundo.
    Posso escrever “texto mais lindo do mundo” pra sempre.
    ❤️❤️❤️❤️

    Curtido por 1 pessoa

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