O Marceneiro

Quando meu pai era moço – e ele é dessa época em que não se era jovem, se era moço – trabalhava na marcenaria do meu avô.

E, em todas as casas que moramos, meu pai sempre conservou uma oficina, como gostava de chamar. Onde tá o pai? Tá na oficina. E, na oficina do meu pai, reina a organização. Talvez venha daí – mais do que do meu signo – essa minha obsessão por caixinhas.

o marceneiro org

Ele sempre tava lá, na oficina, pendurando martelos, enfileirando parafusos, separando pregos, serras e lixas em ordem alfabética. Consertando algo, construindo outra coisa. Ele fez, inclusive, uns descansos de panela que a gente usa na mesa do almoço até hoje. Eu descobri não faz muito tempo que foi seu Pedro que fez os tais descansos de panela. Passei uma vida acreditando que eles tinham comprado aquelas peças em algum lugar que só vendia isso.

Minha mãe sempre chamou meu pai pelo nome do meio dele, Cesar. Mas ela também o chama de MacGyver. Como ouvi desde criança esse apelido sem o referencial que minha mãe tinha, me surpreendi quando descobri que meu pai tinha sido apelidado em homenagem a um programa de televisão, e não que um programa de televisão tinha sido feito em homenagem ao meu pai, como era o certo. Nunca vi MacGyver. Nunca precisei.

o marceneiro casa

Meu pai já é um senhor. E, como todo velhinho que se preze, é cheio de manias. Acrescente-se a esse quadro o fato de não mexer o lado direito de seu corpo e ser afásico, cortesias do AVC. Por conta disso, nossa comunicação às vezes é truncada. Ele tem essas obsessõezinhas e sempre quer as coisas na hora. Às vezes isso não é possível. Eu sou ansiosa (ah, cê jura?). Quero entender o que ele quer dizer na hora. Às vezes isso não é possível. Quando essas duas coisas se encontram, o mundo explode.

E, mais vezes do que eu gostaria, perco a paciência com ele. Me arrependo, sempre. Às vezes na hora mesmo, às vezes só um tempo depois, quando já fui embora e começo a pensar que eu deveria ter mais paciência com ele. E é batata, ato contínuo ao arrependimento certeiro, vem uma fila desses pensamentos catastróficos que, se você vem aqui faz um tempo, já conhece bem.

Só que meu pai é uma pessoa muito obstinada. Até demais, sabe? Enquanto ele não faz você compreender o que diabos ele quer, ele não sossega. Dedemoleia até resolver. Ora mais de bom humor, ora menos. Sempre incansável. Sempre se fazendo entender. De um jeito ou de outro.

Isso não acontece só com a gente, não. Quando ele vai comprar alguma coisa – geralmente em lojas de material de construção – ele costuma explicar o que quer para os vendedores, mesmo que sempre esteja acompanhado de um de nós. Não adianta a gente dizer pra ele pai, explica pra gente que a gente passa o recado. Não. Ele quer a atenção completa e absoluta do vendedor, quer falar com quem resolve e simplesmente ignora a presença de outros humanos no entorno.

O marceneiro

Nenhum vendedor até hoje saiu da estatística de olhar pra gente, meio culpado, e dizer que não tá conseguindo entender. Mas nenhum vendedor até hoje saiu da estatística de, depois de solucionar a questão (em caso de dúvidas, retorne dois parágrafos), abrir um sorriso grande e genuíno de fazer uma venda assim, tão peculiar.

Só que depois do AVC, meu pai sai pouco de casa e usa muito computador, smartphone e tablet. Funcionam como sua janela para o mundo – tem gente que acha que as novas tecnologias são fonte de tudo que há de ruim no planeta hoje, nós não fazemos parte dessa estatística. Mas, embora a gente tenha tentado, os programas facilitadores de conversação desenvolvidos até hoje nunca funcionaram direito – e, desconfio, mais porque meu pai não se vê inabilitado de estabelecer sua comunicação com o mundo e recusa, ainda que inconscientemente, cada uma dessas medidas.

Eu tenho a impressão que, na cabeça dele, nada no mundo é mais claro pra dizer que ele quer uma serra circular de bancada do que o dedemolo-tiniê incansável até que a gente entenda, finalmente!, que ele quer uma serra circular de bancada. E quando a gente entende, finalmente!, é uma festa. Dá quase pra ouvir ele dizer, enquanto comemora aos gritos: até que enfim vocês entenderam, bando de gente que não presta atenção! Não era óbvio? A única coisa que eu queria era uma serra circular de bancada!

O marceneiro-projeto

E, sim. Ele quer uma serra circular de bancada. Uma furadeira horizontal. Uma tupia. E, você sabe: o que veínho quer, veínho consegue. Ele construiu uma oficina no apartamento – para desespero de todos nós (dona Elena lidera a lista com folga). Ele, mesmo tendo boa só a mão esquerda, a mão não nativa, opera essas máquinas assustadoras todas, que foram feitas para serem usadas com duas mãos – para desespero de todos nós.

Ele, mesmo tendo dificuldades de comunicação, passa horas vendo e revendo vídeos de marceneiros no YouTube. Copia, pacientemente, projetos e fichas técnicas de móveis que acha pela internet, primeiro em folha branca, numa letra um pouco vacilante – a mão esquerda não é sua mão nativa, afinal de contas. Depois checa as medidas, tira dúvidas, separa os materiais necessários. E aí, começa. O barulho é ensurdecedor, os perigos são insanos, a sujeita que faz é estarrecedora. Para nosso desespero, claro. Mas ele transforma aqueles desenhos meio tortos no papel em coisas de verdade, que não são tortas at all. Para nosso orgulho, também.

marceneiro-montagem carrinho

Meu pai. O marceneiro.


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