Surreal (but nice)

Talvez tenha sido em 1999. Foi. Quando vi Um Lugar Chamado Notting Hill pela primeira vez, quando li o primeiro Harry Potter, quando meus irmãos finalmente me deixaram jogar Scotland Yard. Eu construí uma obsessão na minha mente. Por que, né? Sou toda trabalhada em obsessões. (Ora. Parece que temos um Sherlock Holmes aqui!)

Sonho com essa cidade. Com esse pedaço do planeta que – não importa o quando eu estude e concorde com autores descolonizadores e projeções cartográficas revolucionárias – é o exato centro do mundo. Com a rainha. Esse sonho, inclusive, foi o sonho mais legal que já tive na vida: fui jantar em Buckingham à convite da casa Widsor. Sentei na mesma mesa de Elizabeth. Jantamos. Ela me chamou de Martinha. Foi sensacional. Totalmente errado de acordo com todo os protocolos monárquicos do universo, claro, mas sensacional. Melhor sonho. God save the Queen.

Caso você ainda não tenha solucionado, eu conto, meu caro Watson: a obsessão só fez aumentar. Como Harry, cresceu comigo. Evoluiu com Bond, com Beatles, com aquele episódio de Friends, com Wimbledon, com Douglas, com XFactor. E eu sempre me defendi dela dizendo que não estava suficientemente preparada pra embarcar nessa viagem. Eu não ia saber lidar. Imagina. É tanta coisa, é tão caro, é tão longe, é tão monárquica, é tão, é tão, é tão. Uma longa lista de prioridades.

Foi bom enquanto durou esse plano. Era eu na minha zona de conforto desconfortável, querendo muito alguma coisa e fazendo de tudo para não conseguir.

Mas cá estamos nós.

Eu sou virginiana. Sou filha do meu pai. Sou a louca das caixinhas. Eu gosto de coisas muito planejadas, viagens com roteiro detalhado, elaborado com meses de antecedência e com previsões de planos de contingência pra tudo. Com expectativas de gastos, de clima, de quantos tickets de metrô serão necessários. Renan e eu já estamos juntos há quase oito anos, então posso dizer que já aprendi – de leves – a lidar com algumas surpresas durante a vida, mas ainda saio para uma viagem de férias sem a menor vibe de uma viagem de férias.

E essa viagem foi absolutamente não-tipo-Marta. Juliana queria que fossemos. Porque já é bem escolada aqui, na terra do mimimi, fez o certo: convidou Fabi, que, sagitariana como é, pilhou Renan – aquela duplinha que só arruma confusões. E pronto, eu tava cercada. A invencível armada tinha sido subjugada uma outra vez – a história é cíclica, repetimos sempre, sem nos darmos conta, né?

Não teve escapatória. Não teve crise de pânico, choro, desespero de meldels-como-vamos-pagar-as-contas que resolvesse. Cada passo em direção ao chá das cinco foi cercado de novos cabelos brancos. Ansiedade elevada ao preço da libra depois da última crise. É muita coisa, não vai dar tempo. É muito caro. Dá pra gente fazer malabares no sinal em Londres? E se os passaportes expiraram? Eu sei que eles estão válidos, mas você viu, né? Que o documento mudou. Será que vamos passar na imigração? Será que vamos conseguir comprar o cartão do metrô? Será que não vamos esquecer de pegar o passaporte no dia do voo? Será que vamos acordar na hora?

Travei. Não consegui montar um roteiro. A viagem – que passei este século inteiro planejando – ia acontecer sem o meu planejamento. Com meu caderno de anotações meio vazio. No escuro. Meu maior medo? Voltar de Londres e me dar conta que esqueci de ver o Parlamento.

Não esqueci. Ainda tô aqui. Não quero ir embora. Me deixa ficar.

Cheers, mate.

 

Fim? .


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