woman wondering

Quando passei a primeira versão desse texto pra Fabi, ela me contou a história que reproduzo abaixo:

“Eu ganhei uma fantasia da Mulher Maravilha no meu aniversário de sete anos. Lembro disso. Lembro porque ganhei do dono da loja que tinha lá em Castro quando contei que era meu aniversário. Está vivinha a cena na minha memória. Lembro do diálogo todinho! Aí cheguei em casa, me paramentei e subi no muro. Me joguei achando que podia voar. Caí, claro. Mas levantei e pulei de novo. Só que aterrizei bonito. Igual a Diana.”

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Fui ao cinema ver Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017). A razão essencial pra isso é que gosto do gênero herói – sou o público desse tipo de filme, acho que estamos bem estabelecidos nesse tópico. E achei o filme ótimo, a linguagem adequada, a história bem contada. Ele é certeiro, empoderador, bem feito, com um enredo fechado, claro e importante. Com sacadas geniais e uma boa dose de combate ao sexismo nosso de cada dia. Se ainda não viram, vejam. É bom, vale o ingresso.

Só que eu não gosto da Mulher Maravilha. Nunca gostei. Nunca tive um único momento de identificação com ela. E não acho que eu precisasse ter tido, também. Não considero a Mulher Maravilha um ícone feminista no mundo dos heróis, mesmo hoje, com toda essa política de readequação na forma de apresentação de Diana Prince ao mundo.

É que há algo nela que me incomoda muito. Sua (falta de) roupa de combate, claro. Mas esse incomodo é derivado de um maior. É algo que tem a ver com essa história única. Da heroína mulher, criada – numa ilha – para ser a paladina da verdade, do amor e da bondade num mundo endurecido pela violência dos brutos. Da heroína que não é humana. Que é uma amazona. Uma deusa. Ah, te escuto dizer, mas Superman é alienígena, Thor é um deus, por que só com Diana você está incomodada? Porque é só Diana que temos. Ninguém conhece a Capitã Marvel. Ninguém quer fazer filme solo da Viúva Negra, da Vampira, da Tempestade. Nós só temos Diana. Deusa, usando uma saia curta, botas de salto e um corpete (ainda se fala isso?). De cabelos soltos (!!) no meio da batalha.

E eu não quero precisar me ver ali, nessa imagem tão distante, tão intocável, tão bem arrumada e tão unidimensional. Eu sei que, numa escala de realidade plausível, uma aranha que lhe dê super habilidades é uma ideia tão absurda quanto uma deusa, uma louca, uma feiticeira, mas quero poder me identificar com uma heroína que seja uma pessoa comum que ganhou poderes no susto. Ou que não tenha poderes, mas que tenha muito dinheiro e inteligência de sobra para criar armaduras incríveis. Que tenha tomado um soro de super força para combater nazistas. Que prefira usar uma máscara, um rabo para prender os cabelos. Eu quero ter opções. Nós precisamos ter opções.

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Eu, Marta, nunca deixei de me identificar com heróis meninos apenas porque eram meninos. Mas, quando penso sobre isso, fico imaginando que talvez eu não tenha deixado de me identificar porque gosto do gênero, gosto dos poderes, das histórias, dos vilões, da aventura. E aí não consigo deixar de pensar que muitas meninas podem não ter tido a opção de olhar com atenção pra esse mundo porque simplesmente não havia nenhuma menina lá além de Diana. Essa personagem que era deusa. Que lutava de saia curta e corpete. De cabelo solto. Será que isso faz sentido?

Acho que o que me deixa agoniada nessa conversa toda – e o que fez com que esse texto tenha sido construído de forma tão vacilante e tenha passado por várias revisões e reformulações – é que, embora a Mulher Maravilha venha passando por uma revolução própria e esteja sendo (re)construída como esse ícone feminista no mundo de heróis, na verdade, pra mim, ela carrega valores que não são tão libertadores assim.

Mesmo depois de todas as manifestações sobre como vestidos são péssimos para sua movimentação, ela ainda é uma personagem quase tão antiga quando Clark Kent que jamais conseguiu sair desse uniforme. Você me entende? No fim das contas, o fato de Diana não usar roupas mais confortáveis, adequadas e protetoras em batalhas, pra mim, diz muito mais sobre o que meninas podem ou não podem fazer do que deveria.

Só que ao mesmo tempo, eu acho importantíssimo que um filme como Mulher Maravilha lidere as bilheterias, leve uma porção de gente pro cinema, venda um monte de brinquedos e de fantasias, sabe? Acho mesmo. Pra mim, a Mulher Maravilha não funciona, mas eu sei que ela funciona pra outras pessoas. E a gente precisa de heroínas. A gente precisa de opções de heroínas diferentes, que conversem com pessoas que pensam de formas diferentes. A gente precisa de representatividade. De alguma coisa que faça a gente pular de um muro achando que vai voar.

minimalista


4 comentários sobre “woman wondering

  1. Apesar de uma versão mais ‘feminista’, Mulher Maravilha não quebra com os estereótipos de gênero, o “mundo endurecido pela violência dos brutos” (masculino), versus a necessidade de uma “paladina da verdade, do amor e da bondade” (valores femininos). Mulher deve representar o feminino, então nada mais justo que manter o uniforme, o decote, a maquiagem e o cabelo impecável. Afinal, ser bonita é nossa obrigação!!!! #fail

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  2. Vou defender a Mulher Maravilha aqui, acho sim que você implica com ela por uma culpa que não é dela. É fato que precisamos de outras heroínas, mas o que a coitada da deusa Mulher Maravilha tem a ver com a não decisão de fazerem um filme só da incrível Tempestade (e sei que esse dia vai chegar). Ela é uma deusa como Thor, ela tem cabelos cacheados e arrumados, como Thor, ou se acha que o Thor acorda com aquele loiro assim? hahaha No filme os closes não são na bunda dela e em momento algum fica enaltecendo apenas seu corpitcho. Ainda temos muito o que melhorar nisso? Ainda temos. Ela foi a primeira, dá uma chance pra ela vai Martinha. Um beijo e vamos continuar amigas? HAHAHAHAHA

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    1. Você tem razão, Guid! Minha implicância tem fundamento em elementos externos. E eu reconheço que o filme faz sim uma releitura necessária da personagem e, ainda que mantenha o mesmo uniforme, não o hipersexualiza como antes, o que é uma vitória. E acho incrível que Diana funcione pra tanta gente, apesar de reconhecer que pra mim ela não funciona. Então, sim, vamos continuar amigas!
      ❤️

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  3. Ufa, toda sexta receberei atualizações, consegui resolver esse super problema!
    Meu, estou totalmente de acuerdo! Acho que ainda trabalha-se num empoderamento feminino excludente! Mas eu não posso dizer mais que isso, porque não curto Supers. Acho o discurso de Supers alienante as vezes, sobretudo pra meninos, tanto quanto princesas, então penso (com pré julgamento de quem não assistiu ao filme) que a tal Diana é uma princesa mais pra frentex! Mas não sei, também estou de acordo quando você diz que já é um grande passo ter um filme sobre uma heroína. Mas podíamos criar heroínas mais intelectualizadas, ou com pele mais escura, ou mais encorpadas, ou que em combate usem uma armadura pesada e roupas que protejam o corpo….enfim, toca aqui mano, tô contigo!

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