aniversário (de um fracasso)

Tenho um negócio com datas, sabe? Negócio, que coisa horrível de dizer. Não é bem a palavra. É mais apego, mesmo. Obsessãozinha, talvez. É bom, de modo geral. Gosto disso em mim. Lembro, sempre, do dia das coisas. Primeiro beijo, namoro, pedido de casamento, dia de mudança. Renan não gosta muito, acho que às vezes ele se sente meio pressionado por esse meu traço de personalidade. E ele jura que é por causa do aplicativo. Não é. Eu só lembro, não consigo evitar.

E hoje – que nem é dia de ansiosa – é aniversário de um fracasso.

WhatsApp Image 2017-07-01 at 11.10.57

Eu saí da faculdade de história do jeito errado.

Fazer história era meu sonho desde a fatídica sexta série. Tive um professor que era incrível e tinha letra feia. Só tende a piorar, ele anunciou no primeiro dia de aula – talvez falasse da letra querendo falar do conteúdo, nunca vou saber. Só melhorou. E eu decidi que queria saber de todas aquelas coisas. E tava resolvido. Eu seria historiadora (ainda não dizia isso, porque ainda não conhecia a palavra, mas nos abracemos ao anacronismo aqui).

Esse sentimento nunca mudou. Quando estava no terceiro ano do ensino médio – aquele momento insano de escolher o que devemos fazer pelo resto de nossas vidas pelo qual nos fazem passar (quem sabe a gente tenha essa conversa mais pra frente) – eu ainda sabia que queria fazer faculdade de história. Fiz alguns testes vocacionais indicados pelo colégio e todos eles davam mesmo a área de humanas. E eu não queria mais saber de fórmulas de qualquer coisa na minha vida. Queria saber de Revolução Francesa. Era só o que me interessava. Eu não tive a menor dúvida quando o momento de inscrição chegou. Lembro que meu número de inscrição era baixo, talvez setecentos e trinta, de tão rápido que eu tinha feito todo o processo. Eu sabia o que eu queria.

Bom, é claro que com dezessete anos a gente acha mesmo que sabe com certeza o que a gente quer.

jo-szczepanska-57782

Eu tenho muita sorte na vida. Em casa, a gente sempre pode escolher. Brinquedos, roupas, faculdades, profissões – a única obrigação era estudar (e devolver os livros na biblioteca na data certa, né?). Portanto, quando eu tinha lá meus dezessete anos, queria fazer história e era isso aí, mundo, que eu ia fazer. Mas eu tenho muita sorte na vida. Fabi, naquela época já formada jornalista há uns anos, enxergou um problema na minha escolha. O mesmo problema que ela tinha enfrentado, depois de ter feito a escolha dela.

O mundo. O mundo é muito diferente da nossa casa. O mundo não remunera bem jornalistas e historiadores. Jornalistas e historiadores não têm muitas perspectivas de trabalho e realização profissional no mundo. Eu rebati, falando do William Bonner, claro. Quantos William Bonner você conhece, Martinha? Silêncio. E então ela me disse que eu deveria, também, fazer outra faculdade, ter uma outra opção. Deveria cursar direito que, pelo menos, me abriria muito mais portas do que a história. Eu não gosto de briga. Não gosto de confusão. Não gosto de dizer não.

Com dezessete anos, então, inflei. Eu só inflo e me encho de coragem comigo mesma, sozinha, no Mundo das Ideias (que também ainda não tinha esse nome naquela época). E me prometi algo: tudo bem, então, quer que eu faça direito, vou fazer, mas só pra mostrar pra todo mundo que não é isso que eu quero – e não vou deixar de fazer história não, tenho dito. E não deixei. Nem história, com a expectativa batendo no teto do céu, nem direito, só pra mostrar pra todo mundo que não tinha nada a ver comigo.

WhatsApp Image 2017-07-01 at 23.06.03

A faculdade passa pela minha cabeça como um borrão, na maior parte do tempo. Foi um período muito louco – aliás, sdds – e eu tinha tantos outros dramas pra me preocupar que não tinha tempo de, tipo, ler os textos, fazer boas provas, apresentar trabalhos decentes, mandar bem em seminários, essas coisas. Estudar real, mesmo, eu estudei pouco. A grande verdade é que esse período foi meio que sendo levado. Minha carreira acadêmica na graduação foi bem comum, ordinária. Às vezes quase boa. Às vezes um pouco pífia. Tomei uma bronca enorme de um amigo uma vez, que me disse – não sem razão – que eu precisava levar as coisas que fazia a sério, que aquele índice de rendimento acadêmico (sdds IRA) seria importante e eu não poderia deixar esse número inapresentável.

Meu sentimento geral, quando tento fazer a avaliação desse tempo, é que a faculdade de história foi perdendo aquela aura de incrível que eu tinha construído na minha cabeça – algo que ela, na real, nunca teve de verdade. Coisas davam errado, professores pareciam não ligar muito para o que faziam em sala, alunos achavam que era mais negócio bajular esses mesmos professores para atingir seus objetivos. Essa coisa toda, esse monstro pavoroso que a academia (retro)alimenta.

Havia exceções, claro. Disciplinas aproveitadas, textos lidos, grifados de cabo a rabo com marca-texto luminosa e comentados com minha lapiseira 0.7 com grafite 2B. Professores incríveis. Minha memória resgata, de pronto, quatro deles: três professoras e um professor. Pra minha sorte e pro meu azar, uma dessas professoras incríveis calhava de dar aula na disciplina que eu mais gostava (Brasil, vocês já sabem disso). Então, pensei comigo mesma, é isso. Professora, penso em fazer minha monografia sobre esse tema, bem nesse período que você estuda, você acha que poderia me orientar? Sim, Marta, claro.

qlkufwe8vju.jpg

Deu errado. Deu muito errado. Deu tudo errado. Cada reunião de orientação deu errado. O tema deu errado. O tema para o qual precisei mudar deu errado. Os seis meses a mais de faculdade deram errado. A monografia deu errado. O resumo de quinze páginas da monografia deu errado. A apresentação deu errado. A arguição da orientadora na apresentação da monografia parecia não ter fim de tão errado que deu.

A única coisa que eu conseguia pensar enquanto eu era massacrada naquele primeiro de julho era só me dê a nota necessária pra isso terminar, por favor, não quero precisar passar por isso de novo na minha existência, nunca mais quero voltar aqui pra nada nessa vida. Traumático. Muito. Passei, com a nota necessária e um corte profundo na minha alma, na minha dignidade e no meu orgulho. Eu nunca mais queria voltar lá.

Precisei voltar pra colação de grau uns meses depois – realizada dentro de uma sala de aula qualquer daquele mesmo prédio, sem nenhuma pompa, apenas porque era protocolar fazermos o juramento. A cerimônia foi, pro meu profundo desespero, presidida pela minha antiga orientadora. Eu tenho quatro fotos daquele quatro de novembro. Dá pra ver, nelas, minha cara de algo semelhante ao terror. Foi rápido, pelo menos isso. Depois, ainda precisei encontrar com a professora no corredor. Que coisa mais constrangedora. Não desejo esse tipo de coisa pra ninguém.

Entre aquele primeiro de julho de sete anos atrás e o vinte e dois de março desse ano, posso contar nos dedos quantas vezes eu voltei pra Reitoria. Uma pra fazer o juramento. Outra, três anos depois, pra assinar o diploma e levar esse documento embora. Umas três ou quatro vezes, no máximo, para encontrar amigos em compromissos acadêmicos ou não. Tudo sempre muito rápido, com urgência de ir embora. Eu não gostava nem de passar por aquele lado da cidade.

Só que eu não sou lá muito boa em dizer não. No começo do ano, uma amiga disse que queria fazer uma matéria na história e perguntou se eu conhecia a professora. Sim, respondi no ato, ela estava naquele grupo dos professores incríveis. Ela é fantástica, me deu aula de medieval e me fez gostar! Justo eu que nem acredito nessas coisas que supostamente aconteceram antes da Revolução Francesa, né? Vamos fazer, ela chamou. É quarta. Não posso, vou precisar fazer mil matérias obrigatórias do mestrado esse semestre. Disse, firme.

Minha resistência – vou contar pra vocês – é algo impressionante. Durou SEIS HORAS INTEIRAS. No fim daquele seis de fevereiro, a dinâmica tinha se invertido por completo e eu tava chamando quem tinha me chamado pra fazer a disciplina na história comigo, porque eu já tava super aí pra mais uma matéria na minha já insana grade e ela tinha desistido. Mas por favor, vamos comigo, eu chamei mais uma vez. Acho que você deveria fazer comigo por motivos de não quero fazer amigos na história. Apelei. Reitoria. Ó as ideia.

Matrícula solicitada. Matrícula autorizada. Início das aulas, vinte e dois de março. O fim, na última quarta. Ficou um vazio, porque deu tristeza de terminar, todo mundo que fez sua avaliação da matéria na última aula concordou. Mas teve, também, um sentimento de que algo no universo – no meu universo, pelo menos – foi reparado. Melhor disciplina do semestre. Do mestrado. Da vida acadêmica. Eu e a história, no fim das contas, acho que fizemos as pazes.

Melhor escolha, sabe? Lutar contra nossos pequenos demônios.

dom-pedro-I


6 comentários sobre “aniversário (de um fracasso)

  1. Esses demônios que podem ter sido criados por uma outra Marta, que quase nem existe mais. Fico feliz que tu fez as pazes! Até porque tu que me ensinou que a História e a Reitoria podiam ser nosso lar também 💙

    Curtido por 1 pessoa

    1. … goste de você, apaixone-se por você, tenha carinho por você e tudo a sua volta não será mais sacrificio e sim prazer. Você é uma pessoa linda, incrível, inteligente, sensível…só precisar se dar conta disso e aproveitar todos esses dons ❤️❤️❤️Eu, quando te elogio não sou tua mãe, sou tua admiradora número 2, porque o número 1 eu abdico para o Renan que te compreende e é teu amor. Quanto às datas, acho que tem alguma genética materna nessa pira, porque eu não entendi até hoje porque os números grudam no meu cérebro kkkkkkkk Eu te I love you

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s