azedumes

Ando azeda, sabe. Eu sei que sim. E não sei se estou devidamente preparada pra falar, mas o programa que vai conduzir esse texto me incomodou em vários aspectos e eu não tô conseguindo evitar a temática. É que nesses dias de azedume, o raio problematizador fica meio fora de controle. Aí resolvi escrever meu way out. Vou voltar pra debate porque acho que sempre vou voltar pra ele. Acho importante, acho difícil e acho que devo falar sobre o peso pra não comê-lo outra vez. Been there, done that.

bothways.jpg

Há umas duas semanas passou um Profissão Repórter que debateu (não foi bem isso) a vida de pessoas obesas no Brasil. Eu fui convencida pelas chamadas insistentes na programação e resolvi assistir. Sempre gostei do Profissão Repórter. Penso que é uma boa abordagem, um formato legal. Costumo achar todos os programas curtos. Só que com esse foi diferente. Odiei. Achei mal feito, mal conduzido, problemático e errado. Interminável. Sofri assistindo. Me incomodou. Pare de assistir, tem torturas que você pode evitar. Concordo com quem me disse isso, de verdade. Concordo na norma, não no conteúdo. Tem torturas que posso evitar, mas que não devo. Nem quando estou azeda.

O programa apresentou quatro personagens. Cada um deles em um momento diferente de vida com seu peso. Um, absolutamente vencido, entregue. Outra, em uma cruzada solitária para tentar emagrecer por motivos obviamente errados. Os outros dois, modelos plus size, um trabalhando no ramo como complementação de renda e a outra tendo na moda sua profissão exclusiva.

profissão
Jovens falam sobre dificuldades para emagrecer e aceitação do corpo

Eu já estive absolutamente vencida pelo que o mundo me disse ser certo ou não com relação ao meu peso – talvez tenha sido a fase mais longa e mais dura. Também já encarei cruzadas solitárias de tentar emagrecer por motivos errados. A moça da reportagem, que agonia, está fazendo tudo pelos motivos errados. Uma outra pessoa – quem quer que seja ela – nunca é motivo pra você fazer alguma coisa. Você é o motivo. Você. Não o que o mundo espera de você, não o que o marido espera de você. Filhos, pais, irmãos, ninguém. Muito menos o que você acha que deve fazer pelo mundo para que ele te deixe existir. Ninguém deixa você existir, você já existe. E esse reconhecimento – de que você não precisa de autorização – talvez seja a coisa mais importante e mais difícil de se perceber quando você não é legitimado pelo mundo, seja qual for o defeito que o mundo insiste em dizer que você tem.

Nunca pensei, em absoluto, sobre virar modelo, né? Mas também tive, em algum momento da vida, aquela ideia de certa paz com o corpo que tinha. Foi a fase mais curta, sem dúvidas. Já falei aqui sobre como é basicamente impossível, hoje, você ser deixado em paz com relação ao seu corpo quando seu corpo não corresponde ao que o mundo espera do seu corpo. Evitei o plus size naquele dia. Hoje não.

Não sei quem inventou isso. Nem quando isso começou a aparecer. Só sei, que de uma hora pra outra, não era mais tamanho extra (extra, extra, extra) G. Era plus size. Quem decide? Quem dita essa regra? Quem autoriza o uso dessa expressão? Por que todo mundo concorda com isso? Por que não tem ninguém falando nada? A modelo disse, na reportagem, que as pessoas ainda falam sobre modelos normais e modelos plus size, “como se fosse anormal ser plus size”. Mas ela falou isso de um jeito meio conformado, meio rindo, sabe? E apontou que há uma mudança positiva aí, como se estivéssemos em transição pra algo melhor. Mas será que estamos?

O que me incomoda de verdade é que há uma distância gigante entre a mesma coisa.

O programa deixou isso claro como água. Na primeira parte, quando abordou mais os dois personagens mais “reais”, mostrou as dificuldades invisíveis – e sufocantes – de estar “acima do peso”. Faltam roupas, carteiras de faculdade, espaço pra passar na roleta do ônibus. Sobra chacota, olhar de lado – de um querer ver, mas não querer, sabe? Invisibilidade. E ao mesmo tempo, atenção total de um jeito horroroso. É a vida que levam aqueles personagens ali – o vencido e a moça do regime. E a moça do regime ainda tem um agravante: não se sente protegida nem em casa, já que a campanha de “você precisa emagrecer” é capitaneada pelo marido, que de companheiro de vida aparentemente não tem nada, porque, se durante a gravação de um programa de TV, não teve o menor cuidado com as coisas que disse, imagina sem a câmera?

Depois, quando mudou o foco para os dois modelos, houve também uma alteração na narrativa. Eles – aparentemente mais confortáveis consigo mesmos, depois de anos de não – defenderam sua profissão. Mostraram como o mundo da moda plus size está sendo descoberto, como as marcas estão olhando pra esse mercado e investindo nessa linha de produtos. O programa ficou, com o perdão do inevitável jogo de palavras, um pouco mais leve. Cheio de sorrisos, de afirmações positivas. E isso é importante, sabe? Eu acho que é mesmo.

A repórter que conduzia a história do modelo – que também é enfermeiro – perguntou a um dos pacientes do rapaz o que ele achava da outra face do seu cuidador, de ser modelo plus size. O senhor respondeu “eu acho engraçado”. E todo mundo riu. Quando o programa mostrou o desfile de moda que cobria, frisou que os modelos plus size – de apenas uma das marcas que participava do evento – tinham sido os mais aplaudidos da noite. Houve incentivos da plateia, palmas com fervor de que é isso mesmo!

becky-phan-23122.jpg

Talvez seja implicância minha, sabe? Mas vejo um problema aí. Porque é a mesma coisa, numa outra linguagem, disfarçada. Parece que tá todo mundo incentivando real, fazendo força para que quem está “acima do peso” deixe as sombras, tome as rédeas, faça o movimento para pertencer, para fazer parte. Mas na verdade não é isso. Porque lá na vida real os vencidos ainda não conseguem sentar na cadeira da faculdade, não passam na roleta do ônibus, não conseguem comprar roupas de inverno. Os vencidos ainda precisam ouvir que não podem usar biquíni e que estão gordos feito chupetas de baleia, mas que “brinco assim, mas não tem maldade”.

Acho, daqui do meu azedume, que na passarela os modelos plus size são incentivados porque, na verdade, é ali que quem está acompanhando o desfile pode olhar pra essas pessoas e pensar – confortável – que não são modelos normais. Ali, esse pensamento, que é naturalizado, mas também combatido, é permitido. Então há aplausos. Como se os modelos plus size tivessem feito um truque.

É. Ando azeda.

julia-d-alkmin-121797

 


2 comentários sobre “azedumes

  1. Essa maneira massificada de pensar.
    Essa construção desconstruída que nos é empurrada goela abaixo.
    Essas pessoas insensatas, insanas, teleguiadas, manobradas.
    Esse mundo do avesso.
    Já nasci azeda.
    Devo morrer bem pior.

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s