Parênteses e cafeteiras (ligadas)

Eu não descobri a ansiedade durante o processo da bari, já sabia dela antes. E, como toda pessoa ansiosa, já tinha tido aquele momento de desespero peculiar: procurar técnicas orientais de tratamento. Ó as ideia. Tá. Não sei se foram lá tentativas válidas, porque eu meio que desisti nos primeiros momentos, mas né? Tenho na minha conta uma sessão de vinte e oito minutos de acupuntura – aquele tratamento que te promete rios de tranquilidade enfiando agulhas em você – e outra de uma hora de prática mais duas horas de teoria de zazen – uma forma de meditação com olhos meio abertos. Nenhuma delas, como se pode notar, funcionou. E eu segui com minha vida, sem conseguir relaxar direito.

Enquanto tiver uma tarefa inacabada, a vida do ansioso vai ser um inferno.

Veio a terapia e, depois, a cirurgia. E a recomendação médica para as duas semanas seguintes à bari: repouso. Nos primeiros dias, então, fiquei sob vigilância constante de todo e qualquer movimento que fazia, na casa da minha mãe. Foi que esse texto começou, porque foi quando descobri a coisa mais interessante sobre a minha ansiedade (até agora). Ela é meu vício. Meus maiores problemas não são, na verdade, os tópicos pelos quais fico ansiosa.

Não importa se é o trabalho novo (do qual certamente serei demitida porque não paro de girar uma cadeira que faz aquele barulho de cadeira girando), os milhões de artigos que preciso escrever pro mestrado (que só vou fazer no último dia e vai ficar tudo uma bosta), a cafeteira que ficou ligada de manhã (e vai incendiar o prédio), o que vai acontecer se eu estiver passando no corredor de duas pistas com a moto e um carro resolver mudar de faixa (morte líquida, certa, lenta e dolorosíssima). O meu problema é que sou viciada em ser ansiosa. Por qualquer coisa. Eu anseio tudo. E o nada, também.

Falar, escrever, pensar, acordar, dormir. Basicamente qualquer verbo. É constante. E exaustivo. Faz com que minha cabeça gire, buscando o nosso amigão da vizinhança, o pior cenário possível. E, como todo vício, cada vez é preciso mais. Mais constância, mais intensidade, mais exaustão. Já li muito sobre ansiedade (ah, cê jura?). Sei que é o mal dessa geração, do século, da pós-modernidade. Uma doença que o mundo obriga você a ter e quer te convencer que não é bem uma doença, mas sim uma qualidade, uma característica positiva. Algo de que você deve se orgulhar. Ou rir, com aquelas listas engraçadinhas do buzzfeed.

buzzfeed
cê jura?

Só que aqui – no meu caso – não posso culpar o mundo. Pelo menos não por completo. Sim, eu sei. Tudo é velocidade. Pressa. Entrega. Hoje, é tudo pra ontem. Tudo é urgente. Mas acho que já estou suficientemente segura pra dizer que a ansiedade não me é completamente imposta. Por mais absurdo que isso possa parecer, eu meio que escolho ser ansiosa. Se eu não tenho nada pelo que ansiar – como naquelas duas semanas de repouso absoluto – eu entro em parafuso. Os dias demoram meses pra passar. Não consigo me ocupar com nenhuma outra coisa que tenha potencial de virar vício. Nada me prende. A única coisa que fica rodando em looping infinito na minha cabeça é o fato de estar ansiosa por não ter motivos para estar ansiosa.

Mas e aí, Marta? E se você tem coisas para ansiar? Fica tudo bem? (Risos).

risos

Tenho saído de casa mais cedo que Renan. É a primeira vez que essa rotina se estabelece desde que começamos a morar juntos. E sair mais cedo que Renan de casa é um teste. Quando eu saio de casa, Renan ainda está tomando café. Às vezes, ainda nem levantou. E eu preciso ir.

E ele precisa arrumar a cama (nunca coloca as almofadas na ordem certa), apagar as luzes (sempre esquece da do corredor), desligar a cafeteira (ele não poderia simplesmente escolher a que desliga sozinha hoje?), fechar a cozinha pra Apple (ponto pra você, namorado), puxar as cortinas (nunca lembra), trancar a porta (risos). Lembrar de pegar a chave (pra quê, se não trancou a porta?), a carteira, o celular, o fone. O outro fone (por que, né?). A lancheira, a mala da academia. Não esquecer o controle da garagem, não bater o carro na saída da vaga (ele passa sempre raspando na coluna!), ligar os faróis quando pegar a BR (vá saber quando essa multa vai chegar), lembrar que tem uma conversão proibida no caminho, chegar no trabalho inteiro, não ficar devendo horas.

E eu, que preciso ir, obviamente não consigo. Minha cabeça, indo pro trabalho, vai passando fase por fase todas as etapas do dia dele, identificando tudo que pode dar errado, cada coisa que ele pode esquecer. Cada coisa que ele nem pensou. E, quando minha cabeça nota, já chegou onde deveria chegar.

cafeteira

Talvez Renan nunca tenha parado pra pensar na real dimensão de ser meu safe haven. É da natureza dele não ficar enroscado nesse tipo de pensamento (afinal, não tranca nem a casa). Mas eu, quando penso nisso, sempre imagino como seria minha vida se a gente não estivesse junto. E sempre me apavoro. Eu sei que gente que é ansioso não pode começar a pensar nos “e se” da vida, mas às vezes escapa. É, no fim das contas, um vício. Consciente ou não, de livre e espontânea vontade ou pressão. E um desses “e se” da minha vida é certamente esse. Como seria minha vida se, naquele dia dois de outubro, a gente tivesse resolvido não sair.

Bom. Provavelmente eu não saberia lidar com o fato de chegar em casa do trabalho e encontrar a porta do apartamento destrancada, a cortina sem fechar, a luz do corredor acesa, a cafeteira ligada. E, também, com o fato de nada disso ter feito o mundo desabar. Nem com a ideia de rir de toda essa preocupação com incêndios, contas de luz milionárias, almofadas fora de ordem e, bem, qualquer que seja a minha preocupação com a cortina aberta.

Tem gente que consegue tratar a ansiedade com práticas orientais. Agulhas enfiadas em você durante vinte e oito minutos. Meditação em posições desconfortáveis e de olhos abertos, encarando um ponto fixo na parede. Pra mim nada disso funcionou. Só que não vou ficar aqui apontando dedos pra esses tratamentos, né? Até porque eu consigo – mais vezes do que não – tratar minha ansiedade com Renan.

Só podemos combinar, por favor, de trancar a porta?


8 comentários sobre “Parênteses e cafeteiras (ligadas)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s