a lista

Esse texto já está escrito há uns dois meses. Veio meio que pronto, num domingo à noite. Quando terminei sua primeira versão – que deixou de vir pro blog por conta de Isso – senti tristeza. Gostei do que escrevi, o que não é algo comum, mas senti tristeza. Na verdade, a Tristeza, esse pequeno ser azul, deve mesmo ser a dona do meu painel de controle, sabe?

Quando eu e Renan vimos Divertida Mente (Inside Out, 2015) – e eu lembro desse momento exato como se ele fosse aquele jingle insuportável que Riley jamais esqueceu – e a Tristeza fez a primeira Martice, ele me olhou de um jeito tão transparente e insuportavelmente divertido que só vendo pra saber. Algumas identificações são assim, imediatas. Renan é a Alegria. E eu sou a Tristeza. Todos sabemos disso.

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Mas não era disso que eu queria falar. Esse texto, pronto (só que não) e meio que deixado pra lá diante da inevitabilidade do fluxo da vida, fala sobre amizade. E ontem foi dia do amigo, segundo a internet. E, você sabe, se tá na internet, só pode ser verdade. Então cá estamos nós.

Oswaldo Montenegro lançou um álbum ao vivo pra comemorar seus 25 anos de carreira, lá em 2004. E esse CD – era nesse formato que se ouvia música no começo do século, meninos e meninas – tá na minha lista. Oswaldo Montenegro não é meu cantor favorito (até porque não sei se tenho um) e não faz meu estilo de música favorito (até porque não sei se tenho um).

Nossa relação é quase um one night stand, no strings attached. Um friends with benefits. Começa com Chão, Pó, Poeira, se intensifica em Taxímetro e termina com Bandolins (geralmente termina no meio de Bandolins, porque não gosto muito dessa música). Uma relação quase simples. Quase. Só que tem uma música (porque sempre tem). Talvez mais do que qualquer outra canção no planeta, A Lista mexe comigo. Eu não sei muito bem qual o motivo – além do óbvio: sua letra é feita pra isso mesmo.

E aí, naquele domingo à noite, quando você estava se preparando para lavar roupas, fazer o almoço de amanhã, organizar mais uma semana em listas de coisas práticas da inevitabilidade do fluxo da vida, toca A Lista. Não era a música que você tinha pedido ao aplicativo de streaming pra tocar. Por que paramos de ouvir músicas em CDs? Jamais saberemos. E você escuta, mesmo sem querer, Oswaldo lhe pedir: faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais? E pronto, sua cabeça vai.

Talvez seja só uma predileção organizacional, afinal, a letra pede que façamos uma lista. E eu, metódica que sou, faço listas. Mercado. Seminários. Viagens. Livros. Tarefas. Filmes. Formas de salvar o mundo. Faço listas de listas. Listas para tudo. E sempre escritas, não adianta o quanto eu tente migrar essa pequena obsessão pra uma plataforma mais sustentável. Acredito, com a sinceridade que só minha ansiedade é capaz de me dar, que eu poderia sufocar em todos os papeis com listas que comecei na vida. Frouxo.

Talvez seja porque, mesmo advertida em sentido contrário, eu seja demasiadamente intensa para todas as coisas. Teorizar a vida – mesmo que pra não vive-la em alguns momentos – exige essa intensidade, né? Eu sempre tive essa certeza. E construí em torno dessa premissa minha verdade e agora estou presa aqui, intensificando idas ao mercado.

Talvez seja porque, mesmo não sendo eu uma pessoa velha, tenho dentro de mim um espírito – se é que isso existe – que é antigo, melancólico, um pouco triste. Não é meu único espírito, mas ele está lá, fazendo com que algumas memórias fiquem azuis.

Mas, ultimamente, talvez seja mais porque nesse processo todo de bari eu tenha tomado algumas decisões importantes na vida. E, porque precisava começar por algum lugar, comecei com uma lista de grandes amigos. Fiz uma avaliação das minhas amizades. Quais deveriam, segundo eu mesma, receber investimentos de tempo, dedicação, trabalho. Quais deveriam ir para a sacola. E quais não.

Falando assim parece preciso. Criterioso. Objetivo. Duro. Cruel. Frio. Calculista. Cheio de pontos. Sem vírgulas. Meio estranho pra essa pessoa intensa, você deve estar pensando. Alguém que parece até ter um certo orgulho de ser aquele caso clássico de gente de humanas. Quente e letrista. Aliás, sdds orkut.

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Calma.

Falo investimento, mas não sou muito boa em coisas que tenham em sua definição a palavra investimento – talvez por não ter prestado bem atenção naquela aula de matemática financeira que tive no colégio (quem teve essa ideia?). E essa minha avaliação toda meio que saiu pela culatra. Só me mostrou (como eu já sabia) que fiz, faço e provavelmente continuarei fazendo investimentos que podem ser tidos como equivocados. Mas também me mostrou (como eu já sabia) que amizade não é algo lá muito semelhante à bolsa da valores. Então tá tudo certo. Essas falhas são, em última análise, humanas. Como nós.

E amizade é uma coisa muito estranha. Difícil definir. Difícil escalonar. Como você sabe que é amigo de alguém? Eu me pergunto isso diversas vezes (por dia). Já pensei em várias formas de responder esse questionamento aqui dentro da minha cabeça. Depois de um mês conversando com a pessoa? Depois que você conhece a casa dela? Os pais? Sabe o nome dos irmãos? Depois que seu celular conecta na rede sem fio automaticamente? Depois de viajar junto? Depois de um café? Não há resposta. E há milhões de respostas.

Às vezes, você passa anos a fio convivendo com alguém e não sabe absolutamente nada a respeito daquele ser – e às vezes isso nem importa. Às vezes você tem uma grande conversa com uma pessoa e pronto, ela pula do final da lista imaginária de grandes amigos para o começo. Às vezes, mesmo que você e a pessoa tenham dividido um tanto de vida considerável, alguma coisa acontece e, pronto, isso vai embora, acabou. Às vezes nada acontece, passa e só. Mudam-se os momentos, o clima, o mês, o ano, a escola, a faculdade, o trabalho, o sentido da rua. Às vezes tudo isso muda e a pessoa lá permanece. Não há resposta. E há milhões de respostas.

É claro que não é assim o tempo todo. E eu sei que tenho em mim um espírito – se é que isso existe – leve, alegre, de fácil convivência. Conheço muitas pessoas, de muitas fontes diferentes. E convivo bem com as pessoas. E tenho, sim, uma boa lista de grandes amigos. Mas – mais vezes do que eu gostaria – eu me sinto absolutamente só. E – mais vezes do que eu gostaria – eu faço uma lista de grandes amigos que já não encontro mais, de sonhos que desisti de sonhar, de amigos que joguei fora, de mistérios que não consegui entender. E não sei onde me reconheço.

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Era aí que esse texto terminava. Veio pronto. E triste. Naquele domingo à noite, mandei só pra Fabi. Era o segundo texto que mandava pra ela naquela semana e tinha a mesma avaliação: acabou de repente, de novo. Tudo bem. A inevitabilidade do fluxo da vida veio. Escrevi, salvei e guardei. Aí, dias atrás, resolvi mostrar pra Renan. O que você acha, namorado?

[12:00, 11/7/2017] Renan Rizzardo: se eu escrevesse, faltaria otimismo
[12:00, 11/7/2017] Renan Rizzardo: por mais que concorde com a definição complicada de “amigos”, sou muito grato por ter – poucas – pessoas que posso compartilhar a vida
[12:00, 11/7/2017] Marta Savi: Hahahaha você é muito a Joy. Sério. Eu invejo
[12:01, 11/7/2017] Renan Rizzardo: hahahahahahahahahahahahahahahaha
[12:02, 11/7/2017] Renan Rizzardo: não dá pra ter tudo, sabe
[12:02, 11/7/2017] Renan Rizzardo: já temos em casa
[12:02, 11/7/2017] Renan Rizzardo: tem gente que tem bilhões de amigos
[12:02, 11/7/2017] Renan Rizzardo: mas é sozinho                       
[12:02, 11/7/2017] Renan Rizzardo: tem que valorizar msm

Renan é a Alegria. E me fez refazer a reflexão, de uma outra perspectiva. Não é assim o tempo todo, mesmo. Misturada com A Lista, tem uma outra música que faz o contrapeso nessa história toda, porque sempre tem. Ninguém é só a Tristeza. E há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração. E toda vez que a Tristeza me alcança o menino me dá a mão.

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9 comentários sobre “a lista

  1. Já tivemos uma conversa sobre esse tema, lembra?? É o que vc pontuou… a amizade é uma coisa cíclica… as vezes, ela acaba por N motivos e não há nada que possamos fazer, por mais que a gente tente. O timing da amizade acaba e já era. Saber lidar com isso é um aprendizado (estou diariamente tentando aprender). E sobre se sentir sozinha, não é só vc. Acho que todo mundo se sente abandonado em alguns momentos.

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  2. Fico emocionada, de verdade, sobre como você e o Re se completam… como são lindos juntos em todos os momentos ❤

    Em tempo: fiquei pensativa sobre fazer uma lista de amigos também! Obrigada! (:

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    1. Ah, Ju, você não sabe como fiquei feliz com esse seu comentário!
      Obrigada, de verdade!
      E acho que a lista, mais do que uma lista pro mundo, pra colocar algo em marcha fora da gente, é um exercício de reflexão pra dentro. Pra pensar!
      ❤️

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  3. Eu simplesmente amo seus textos. E é engraçado… Pois não leio todas as sextas-feiras, não fico ansiosa aguardando… Mas de repente e simplesmente leio. Geralmente quando quero me expressar de alguma maneira… E está lá, no blog da Martinha, o sentimento que eu buscava. Obrigada!

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