The Handmaid’s Tale

Não vou ficar de spoiler, prometo, mas não faria mal se você tivesse visto pelo menos o primeiro episódio de The Handmaid’s Tale (Idem, 2017).

Esse texto não é nada além de um registro de impressões pessoais sobre algumas ideias depois de ter visto a primeira temporada desse seriado. São as minhas perspectivas, a minha reflexão lenta sobre as coisas e o meu mar de pensamentos (catastróficos) lançados de forma mais ou menos organizada. Não há – nem poderia haver – tecnicalidades.

Eu não entendo de fotografia. Não manjo de atuações, não sei nada de produção. Não é meu departamento. Já fiz um curso sobre linguagem do cinema pra tentar aprender essas coisas, mas são conceitos de difícil compreensão pra mim. E me envolvo, até de um jeito meio inocente, com o que assisto – mesmo que seja, como costuma desdenhar Renan, uma produção low budget como os seriados de herói da CW. Mas posso dizer, por primeiro e com certeza, que The Handmaid’s Tale foi bem feito. E tá aí a lista de indicados ao Emmy que parece concordar comigo (notem a inversão aqui, mas finjam que eu não fiz esse parênteses). Sinto-me legitimada.

Inspirado num livro de mesmo nome escrito em 1985 (e, destruindo a legitimação conquistada no parágrafo anterior, me sinto a pessoa mais ignorante do planeta por nunca ter ouvido falar dele antes), o seriado nos apresenta a uma sociedade pouco a frente no futuro (a linha do tempo é um pouco bagunçada, mas acho que é essa a intenção). Nesse so called futuro distópico, as (poucas) mulheres férteis (tenho lá meus problemas com essa palavra) foram transformadas em propriedade (dos homens) do governo para fins reprodutivos ou, como em certo ponto defende um dos personagens, para cumprir seu dever sagrado. Essa sociedade, além desse pequeno detalhe, é toda dividida pelas funções de cada ordem (governar, reproduzir, dirigir os carros, cuidar da casa, ser esposa, assim por diante), como se fossem castas.

Os dez episódios se desenrolam por aí. Mostram um pouco do passado, um pouco do presente. E nos levam a uma jornada para tentar entender como a sociedade de antes foi capaz de permitir que aquela ordem ali estabelecida se desenvolvesse a ponto de comandar aquele país com aquelas regras. E que regras absurdas, você pensa, enquanto assiste. Imagina. Mulheres obrigadas por homens a cumprir seu “dever sagrado” de gerar filhos. Pessoas falando que é melhor deixar as coisas como estão porque o que é melhor nem sempre é melhor pra todos. Olhos (bem) fechados e cabeça (bem) baixa em troca de alguma sensação de segurança e relativo conforto. E aí você pensa de novo. E aí vem o trem. E passa por cima de você.

Eu gostei do que vi. Muito. Mas também odiei. Combinei com Renan, logo depois do primeiro episódio, de não fazer maratona e terminamos em exatamente uma semana – não foi maratona, mas não foi no ritmo que eu tinha planejado, também. No último dia, por exemplo, vimos três episódios. É demais. Não tem outra definição: é como tomar uma surra.

Meu mecanismo de defesa para coisas pesadas assim é sentir sono. A primeira memória que tenho disso é uma sessão de cinema de O Sexto Sentido (The Sixty Sense, 1999). Eu não queria ver – odeio filmes de terror. Lembro de ter acionado meu botão dormir simplesmente pra não precisar passar por aquilo. Isso aconteceu com The Handmaid’s Tale também. Precisei ver de novo um dos episódios, porque não consegui aguentar o tranco e dormi. Não é terror. Mas na verdade é.

É terror porque a gente acompanha June, a personagem principal, antes e depois da virada de comando naquele país. E o que mais perturba é que a June do presente silencia. Engole. E grita desesperada com os olhos. Se encolhe. Isso me arrebentou, como deve arrebentar qualquer pessoa que tenha o mínimo de empatia. Só que não é isso. Algumas práticas postas ali como regras sociais a serem seguidas por todos são tão parecidas com coisas que vemos hoje, ainda que de uma forma mais “branda” (só que não), que te fazem (fora)temer pelo futuro, de verdade.

Será que somos nós, agora, que estamos deixando com que esse tipo de discurso tacanho (não sei se tem outra palavra pra isso) ganhe cada vez mais espaço? E se sim – como imagino que sim – o que podemos fazer pra não virarmos nós os dorminhocos, que não acordam com nada? Pra que não nos levem sem que ninguém se importe com a gente, porque não nos importamos antes, quando levaram os outros, como diz aquele poema famoso, que todo mundo já leu, mas talvez não tenha prestado atenção? São perguntas que andam me angustiando há um tempo e ganharam outros contornos depois de The Handmaid’s Tale. Perguntas que vêm me fazendo repensar todo um discurso de vida. Eu e minha reflexão lenta.

handmaids instruction

Sempre tive dificuldade em me declarar feminista. Não porque ache que exista qualquer carga negativa na palavra, muito menos porque eu não defenda a ideia radical de que mulheres são gente e devem ser tratadas com igualdade – ao contrário da proposta dos Comandantes em The Handmaid’s Tale. Não é nada disso. Nunca me senti confortável pra me declarar feminista porque não tenho leituras necessárias. Me falta a teoria que faz com que seja possível dizer que sou feminista.

Embora tenha tido oportunidades acadêmicas para tanto, nunca não estudei gênero. Deveria ter estudado. Não li O Segundo Sexo. Deveria ter lido. Não fiz estudos específicos sobre o corpo ou sobre a condição da mulher. Deveria ter feito. Acho que é seguro dizer que, embora eu reclame bastante da academia, pauto várias coisas da minha vida nela. São aquelas caixinhas nas quais a escola me botou e eu ainda não consegui sair. Pra mim, a teoria é sempre o ponto de partida. Na minha cabeça, eu jamais teria legitimidade para falar do feminismo se não tivesse pleno conhecimento teórico sobre todas as suas especificidades, ramificações, rupturas e continuidades. Ou seja, jamais teria legitimidade, ponto.

Mas isso mudou. E foi recente.

Primeiro, eu comecei a ficar realmente incomodada com algumas manifestações de ignorância pelo mundo – dessas que parecem que só acontecem em futuro distópico de seriados de TV, mas que não. Eu fui, por óbvio, criada em uma bolha, então demorei um tempo pra perceber que existiam pessoas reais – de carne e osso – que acham que menina só brinca de boneca e menino só brinca de carrinho. Que acham que mulher que usa batom vermelho é puta. Que acham que é natural que um homem seja infiel em um relacionamento porque isso é coisa de homem. Que acham que a roupa que uma mulher usa é capaz de dizer se ela está pendido ou não. Que acham que o dever sagrado da mulher é reproduzir.

Depois, conversando com pessoas que também se sentiam incomodadas com esse comportamento, pude ver que o meu medo – de não ter o respaldo necessário para dizer-me feminista – era o mesmo de muita gente. Li algumas teorias, fundamentei algumas ideias, vi algumas palestras. Menos do que acho que deveria ter lido, fundamentado e visto.

Em seguida, durante a última campanha eleitoral, tomei uma decisão radical. E aqui cabe um parênteses: valorizo meu voto, embora pouco acredite neste nosso processo eleitoral pretensamente democrático e, em última instância, seja monarquista (sim, é real). Porque sou uma pessoa responsável com meu título, algumas pessoas próximas costumam adotar as mesmas opções de voto que eu. Isso, pra mim, tem o peso do mundo. É muita responsabilidade você ser a razão de uma outra pessoa digitar algo na urna. Pois bem. Parênteses feito. Durante a última campanha eleitoral, mesmo ciente do impacto que isso poderia causar nas escolhas alheias, tomei uma decisão radical: só voto em mulheres.

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Voto. Sufrágio. Hoje algo tão corriqueiro, universal, exercido até de uma forma displicente. Mas basta olhar pra trás, algo tão distante. Ou basta olhar pra frente e pronto, um suposto direito adquirido que ao menor sinal de ventos mais fortes está em risco de novo. Voto é sobre representação. Sobre escolher – no meio dessa salada ideológica que é cada momento de escolher, diga-se – quem você entende que mais tem a capacidade de te dar voz. Não é esse meu único critério, óbvio, mas hoje eu só voto em mulheres.

Só que ainda não era isso. Eu ainda estava com pé atrás. Já tinha lido, estudado, mudado minha concepção sobre várias coisas, mas eu ainda não me sentia segura para me declarar feminista. E, enquanto eu pensava se deveria ou não escrever algo no dia 08 de março, aconteceu. Antes de contar a história da sapatilha – que não era bem uma história sobre sapatilha – eu comecei e apaguei vários arquivos. Estava tão cheia de dedos para escrever que ouvi, depois de soltar aquele texto, que deveria ter sido mais clara, mais enfática. Ter sido mais. Dito mais. O óbvio não é óbvio pra todos. E o óbvio precisa ser dito. E foi isso. Algo tão simples, mas tão representativo.

O que diabos eu estava esperando pra dizer que sou – de boca cheia – feminista? Que tipo de legitimação externa a Marta precisava? O que é que me segurava? Por que diabos eu achava que precisava de uma teoria quando, na prática, eu sou? Sou mulher. E sou feminista. É claro que sou feminista.

Todos nós deveríamos ser. Enquanto é tempo. Enquanto é possível que nos importemos com os outros antes de serem levados – ou pelo menos enquanto estão sendo levados. Antes que todos acabemos, num piscar de olhos – porque é nessa velocidade que as coisas mudam pra pior – num futuro próximo que não é tão distópico assim.

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2 comentários sobre “The Handmaid’s Tale

  1. Essa série é um soco na cara. É uma sensação de um fast foward, de um futuro dos dias de hoje.
    Nós, mulheres pensantes, privilegiadas, não podemos ter preguiça de nos indignar, de falar, de nos fazer respeitar e de sermos ouvidas. Não é um problema dos outros, é de todas nós. Precisamos nos unir e nos proteger.
    É cansativo, dá vontade de delegar à outras mulheres mais corajosas, mais estudiosas sobre o assunto. Mas se você consegue enxergar o absurdo, automaticamente você tem o dever de falar.

    Curtido por 1 pessoa

  2. … amei o texto. Aguçou minha curiosidade para assistir essa serie. O texto está escrito de uma maneira que prende o leitor e o deixa querendo ler mais, saber mais, enfim abre o apetite para as letras rsrsrs. Sensacional a sutileza do (fora)temer kkkk. Completamente ADeRI 😜😘 em tempo: mande as sapatilhas de 08.03 em meu e.mail please !!!

    Curtido por 1 pessoa

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