o Banco

Meus pais são aposentados do Banco.

O Banco. Eu demorei anos pra descobrir que havia mais de um banco no mundo. Era sempre o Banco. E todos os outros bancos – depois que eu soube que existiam – tinham sobrenomes, sabe? Não o Banco. O Banco sempre era o Banco. Ainda falo assim. Às vezes as pessoas precisam me perguntar mas qual banco, Marta? Oras. Qual Banco, pff.

Meu pai era o camisa nove do time de peladeiros do Banco. Ele nunca voltava pra marcar, só ficava na banheira e jamais teria sido tantas vezes artilheiro se no campeonato do Banco valesse a regra do impedimento. Minha mãe sabia o número da conta dos clientes de cabeça. Às vezes sabia também o saldo da conta dos clientes de cabeça. Tenho viva na cabeça a memória de uma ligação que ela recebeu logo que a gente se mudou pra Curitiba, depois da aposentadoria. Um cliente – daqueles que têm o número da casa da gente, não sei bem que tipo de cliente é – ligou lá em casa e perguntou se ela sabia quem era. Ela respondeu dizendo que claro que sabia e deu o número da conta do cara. Não o nome. O nome ela tinha esquecido. O número da conta, jamais.

banco_do_brasil_amello_4

Passar em um concurso público, lá em casa, sempre foi a receita de sucesso na vida. E o plano sempre foi cristalino. Estudar. Formar. Passar num concurso. Começar a vida depois disso.

Por muitos anos, então, eu alimentei uma ideia fixa. Sólida. Ser juíza. Era uma convergência de caminhos: trata-se, sim, de uma profissão bonita. E (muito) bem remunerada. Eu poderia usar o direito para tentar fazer algo pelo mundo. E, de quebra, teria o futuro brilhante que meus pais tinham imaginado pra mim. Era exatamente o que eu queria.

E durante esses anos todos, fiz concursos. De magistratura, apenas um – embora fosse exatamente o que eu queria, sempre tive ~medo~ de fazer essas provas. Concursos para quaisquer outras possibilidades de carreira, fiz vários. Gastei dinheiro e vários domingos fazendo concursos. E passei em dois. Nada extraordinário, classificações bem regulares, mas passei.

banco_do_brasil_amello_1

Um, de banco. Não qualquer banco. Do Banco. Eu não seria só concursada. Seria do Banco, como meus pais tinham sido. Durante os anos em que fiquei na lista de espera para ser chamada – tratava-se do amigão de sempre, o cadastro de reserva – a expectativa da convocação foi uma verdadeira alegria pra eles. E o concurso? Era a pergunta que lia nos olhos do meu pai quase todo dia. Minha mãe nunca cansou de falar sobre como seria bom eu contar com o plano de saúde do Banco. Trabalhar trinta horas por semana, minha filha, é um sonho. Deve ser mesmo, eu pensava, quase convicta.

Mas às vezes eu pensava, meio que em desespero, e se me chamam? Alegria pra uns, fonte de ansiedade pra outros. Vá entender.

Não fui chamada. O concurso venceu.

Insisti. E acabei passando em outro. Foi na sorte. E me deu um ponto de segurança, de solidez, num momento conturbado da vida. Fiquei até um tempo sem acreditar de verdade que tinha passado – eu olhava a lista várias vezes pra conferir se era meu nome mesmo, sabe como? Vai que muda, né? Alegria pra uns, fonte de ansiedade pra outros.

Depois de um tempo, quando eu já estava bastante segura de que realmente meu nome tava na lista, resolvi procurar outros amigos, que também estavam na mesma. E descobri um outro mundo. Os concurseiros profissionais existem mesmo. E vivem de fazer qualquer prova em qualquer canto do país pra qualquer tipo de cargo. Eles se mobilizam. Planejam ações conjuntas, lotam caixas de e-mails dos responsáveis por colocar em marcha os editais de convocação. Eles fazem planilhas (!) pra saber se os próximos a serem chamados irão aceitar a nomeação ou não.

E eles continuam fazendo outros concursos, pra outros cargos, em outros lugares do país. A tal da lista de aprovados. Alegria pra uns, fonte de ansiedade pra outros.

Nesse concurso que passei, alguns candidatos já foram chamados. E eu ainda estou na lista – ela não mudou mesmo. Existem vários nomes na minha frente, mas alguns já preencheram a planilha (!!) falando que passaram em outros concursos e irão assinar o termo de desistência. Segundo o informativo mais atualizado, existem quarenta e três cargos vagos e sete em processo de vacância, além de trinta e seis disponíveis, mas não passíveis de nomeação neste ano. Não acho que é muito provável, mas, sabe, não é impossível.

Só que, agora, eu já não sei quero mais. Eu já não sei dizer se um dia eu realmente quis.

banco_do_brasil_amello_3

Toda a solidez se foi. Só sobrou um suco de mal-estar da pós-modernidade aqui.

E um cartão do Banco. Alegria pra uns, fonte de ansiedade pra outros.


2 comentários sobre “o Banco

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s