soluço

Caí numa armadilha.

Esse texto todo é uma armadilha. Eu tava tentando escapar, mas eu sou, aparentemente, muito boa em querer as coisas e fazer de tudo para que elas absolutamente não aconteçam. Ou seria o contrário? Não sei. Mas isso deve ser um talento. Um super poder. Ou pode ser só o inferno astral combinado com mercúrio retrógrado.

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Tenho um fraco por viagens no tempo. Se procurar bem, uma confusãozinha na timeline da história tá sempre enfiada no meio das coisas que eu mais gosto nesse universo (e possivelmente nos outros universos também). Capitão América, check. Assassin’s Creed, check. Flash, check. O Guia, absolutamente outatime. De Volta para o Futuro, dispensa comentários. E lembra, né? Daquela nossa conversa estranhíssima sobre Doutor Estranho. Sim, Prisioneiro de Azkaban é meu livro favorito. É que eu gosto de gastar tempo pensando no tempo.

Talvez seja coisa, assim, de gente ansiosa, aquele tipinho de pessoa que existe com a cabeça no depois o tempo todo. Talvez seja coisa de gente de humanas, que não consegue viver com a possibilidade de existirem conceitos objetivos e precisa problematizar qualquer meia hora. Ou de gente que reflete demoradamente sobre tudo. Ou de gente que meio que faz tudo isso ao mesmo tempo.

De gente que tem mais coisa pra fazer – tipo uma dissertação de mestrado em um tempo que, num piscar de olhos, diminuiu dois pares de meses – e está, a toda evidência, procrastinando. Quem sabe seja coisa de gente que solta, no meio do texto, expressões como “a toda evidência”. Não sei. Tenho muitas dúvidas.

Eu sempre tenho muitas dúvidas.

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E veja só. Eu não disse absolutamente nada até agora e esse texto já está recheado de marcadores de tempo. Armadilhas. Por todos os lados. Acho que temos, como humanidade, essa obsessão compartilhada. A gente quer controlar o tempo – colocá-lo dentro do calendário, do relógio, de métodos de contagem.

No fundo, a gente quer dizer que podemos dizer quando o tempo passa, como o tempo passa. Que somos nós que decidimos. Na (gloriosa, toda poderosa, salve, salve) Revolução Francesa, por exemplo, se levou essa conversa tão a sério que um calendário novo foi criado. Lá os meses duravam todos trinta dias, não existia mais novembro e as horas duravam todas cem minutos. É claro que os revolucionários franceses não foram os primeiros a usar esse método de mudar tudo pra dizer que diziam como o tempo devia passar, mas, como revolucionários franceses que são, são sempre os primeiros que me aparecem na cabeça.

Mas Marta, você pergunta, até outro dia você não era monarquista? Por que está aí, falando da Revolução Francesa com tanto fervor? Oras. Essa é outra conversa. Não dá tempo de conversar sobre monarquias revolucionárias agora.

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Tempo. (lat. tempus)
(…) 2. Uma das categorias mais fundamentais do pensamento filosófico, o tempo, juntamente com o espaço, é considerado um dos elementos constitutivos do real e de nossa forma de experimentá-lo.
(Hilton Japiassú e Danilo Marcondes. Dicionário Básico de Filosofia. Página 265.)

A gente não controla. A gente não domina o tempo. Ele passa – ou não passa – como e quando bem entende. Parece que ele se distorce sozinho – quando um dia demora duas semanas, quando um ano passa assim, num estalar de dedos – só pra ver até quando a gente vai aguentar manter essa farsa de dizer que ele passa sempre igual, do jeito que nós dizemos pra ele passar.

Eu tenho a nítida sensação que o Tempo, quase como uma entidade, ri de todos nós. Cegos, presos nessa dimensão de dias, horas, semanas, todas contadas exatamente iguais. Bobos.

Esse texto, eu não sei o que pensar sobre ele. Aliás – deve mesmo ser o inferno astral combinado com mercúrio retrógrado – não ando sabendo o que pensar sobre muitas coisas. E quando eu não sei o que pensar sobre as coisas, ao invés de não pensar sobre elas – um procedimento que me parece, teoricamente, mais adequado – fico pensando nelas todas de uma forma meio errante, alucinada. Sem filtro, sem fio condutor.

E chego aqui, na conclusão, pensando esse absurdo: acho que o tempo é mais ou menos como o soluço. Você nunca sabe quando vem, quando vai e de quanto em quanto tempo vai se repetir. E você tenta, só porque sim, segurar a respiração por trinta segundos, comer açúcar, tomar um copo de água. Nada resolve.

Só passa no susto.

soluço


3 comentários sobre “soluço

  1. Eu, que odeio com todas as forças essa palhaçada chamada calendário, estou há mais ou menos oito meses (na minha contagem) esperando Agosto passar!
    Meoooooo!
    Cê arrasou com esse texto fora do tempo?
    Claro que sim.
    Amo-te além dessa contagem estúpida que a humanidade teima em fazer.
    ⏰💣❤️

    Curtido por 1 pessoa

  2. Meu, ‘soluco’! Melhor explicação!
    Sério, serião!
    Esse Tempo que nos faz pensar, refletir e não chegar a lugar nenhum…enquanto pra alguns agosto demora, aqui nem acreditamos que está quase no fim, que a Marta está com quase trinta e que o filho já está com quase sete!

    Curtido por 1 pessoa

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