fil(tro) telefônico

Minha memória me diz que há um marco zero, que não foi sempre assim. Mas eu não sei quando começou – a gente nunca sabe. Só sei que odeio.

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E eu ia dizer que odeio telefone, depois desse primeiro odeio com ênfase. Porque odeio mesmo, o telefone. Mas aí fiquei pensando bem sobre o que quero com esse texto hoje. Eu sei que o problema não é o telefone. Nem só os áudios, as apresentações, os seminários. Nem só aqueles momentos em que eu preciso estar com mais de três pessoas no mesmo ambiente. No fundo, preciso assumir essa jacuzice por completo. Eu odeio falar.

Sempre tive muito mais facilidade de organizar pensamentos escrevendo – e olha que nem assim eles estão muito organizados, porque, verdade seja dita, essa minha cabeça, ela funciona de um jeito que não consigo acompanhar. Às vezes eu penso que estou pensando em muita coisa ao mesmo tempo e aí tento racionalmente pensar em tudo que estou pensando. Nessa hora, dá branco. Por um momento, a minha cabeça fica vazia. E aí eu penso pronto, não tô pensando em nada. E aí vem o trem. O caos completo. A loucura sem fim.

Esse tipo de ritmo, ele atrapalha quando você vai tentar conversar. Porque quando você fala, precisa encadear logicamente o pensamento, transformar esse pensamento em frases que façam sentido pro seu ouvinte. Não pode sair falando bolo-banana-limão se você não quer nem bolo, nem banana, nem limão – esse tipo de coisa só é autorizada se você for o’Marceneiro, dé-dedemolo-tiniê. Sim, eu sei. No texto é a mesma coisa. Mas no texto você tem um intervalo – só seu – entre escrever e permitir a leitura. Aí você pode reler, ver se faz sentido, se está conseguindo comunicar alguma coisa, o que quer que seja. Testar, editar, revisar. Respirar.

Esse tipo de coisa, de minúcia – de overthinking, pra ficar internacional e na tendência – não tem como fazer quando se está envolvido numa conversa. Não. Na fala, é na lata. Não tem teste, não tem edição, não tem revisão. Falou, tá falado. Tá no mundo.

É por isso que odeio falar.

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Mas, como ainda não é socialmente aceitável não falar, desenvolvi uma espécie rudimentar de edição, que acontece meio que em tempo real, na correria do curto intervalo entre pensar e dizer. Na falta de termo melhor, chamo de filtro, ao melhor estilo louca-das-planilhas. E vou filtrando enquanto falo, falando enquanto filtro.

Como você já deve ter percebido a essa altura, falar é meio que um desastre. Tenho todas as razões do mundo pra odiar. Eu travo. Meu sistema dá pau. Minha fala é como uma estrada cheia de buracos e eu vou passando em todos eles, sem perder nenhum. É cheia de “és”, “quês”, “ahns”, “tipos”, “mas”, “daís”. Daí, inclusive, já foi até meu apelido. Eu repito as coisas. Não as coisas importantes. Repito as bobagens, os conectivos, os “quês”. Faço aquele barulho, tsc, sabe? Falo pra dentro. Enrosco. Esqueço.

Mais vezes do que gosto de admitir, no meio de uma conversa qualquer eu começo a pensar será que essa pessoa tá entendendo alguma coisa do que eu tô dizendo? E respondo essa pergunta, sempre, com um é claro que não, olha você aí sem conseguir concatenar lé com cré. E enquanto tenho esse debate sempre com o mesmo resultado, meu filtro continua filtrando e minha boca continua falando. E eu me perco. Aí falo me perdi. E dou aquela risada de desespero sem graça.

Imagina, então, falar no telefone.

É pior. Muito pior. E quando pensei nesse texto, imaginei que ele seria todo dedicado ao meu ódio pelo telefone. Por que, sabe? As pessoas insistem, em 2017, em usar o telefone. Telefonar: ato ligar para uma outra pessoa que não está no mesmo lugar que você, que não pode te ver, que você não pode ver, pra falar. E eu odeio mesmo, real oficial. Porque preciso me esforçar muito pra falar no telefone. Preciso de concentração total (nunca) e foco absoluto (jamais) no que estou fazendo – dizer e ouvir coisas para outra pessoa que não estou vendo – sob pena de cair na roda-do-daí e nunca mais sair (toda-santa-vez). É uma atividade que exige um esforço louco de mim. Terminar uma ligação é como terminar uma maratona.

Mas aí, ontem, enquanto isso aqui ainda não passava de um rascunho, Juliana me ligou. E eu não odiei. Ficamos uns quinze minutos no telefone. A gente falou do sol em virgem, do problema na TV, da folga no dia seguinte, de youtube, outras banalidades. Não tive nenhum problema pra encadear de forma lógica minhas palavras. Juliana entendeu tudo que eu disse, eu entendi tudo que Juliana falou. Conseguimos comunicar. Ela chegou no lugar onde ia comprar o almoço e desligamos.

Como assim?

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Eu acho que todo mundo no planeta usa filtros na maior parte do tempo. As situações do cotidiano exigem filtros. Algumas pessoas acionam mais filtros que outras, claro. Mas, no fim das contas, precisamos deles. Pra falar, pra escrever, pra comunicar. Precisamos adequar o discurso. Precisamos de algumas identidades, alguns uniformes. No trabalho, na escola, na fila do pão. Em sociedade. Precisamos, antes, pensar. Selecionar. Filtrar. Existem pessoas que usam seus filtros com menos esforço e outras, como eu, que precisam gastar um pouco mais de energia para acioná-los e, ainda sim, executar outras tarefas do dia-a-dia, como por exemplo conversar com outros seres humanos.

Não acho que seja ruim, que seja problemático, que cause desvios de personalidade. Nada disso. Os filtros estão lá. Nos os usamos. Mas eles não são naturais. Estão lá, mas não desde sempre. Eles foram construídos. Colocados lá. É por isso que precisa de esforço. É por isso que cansa. E é por isso que, de vez em quando, a gente precisa tirá-los. Limpar os dados, reexibir todas as linhas e colunas – pra completar essa metáfora de pacote office.

Pra isso, a gente precisa de lugares, momentos e pessoas com quem possamos existir sem filtros.

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