Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

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Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, Jack Thorne (roteiro), John Tiffany (direção), J.K. Rowling, Editora Rocco

JK Rowling demorou uma eternidade pra voltar a Hogwarts.
(O sentimento que o epílogo de Relíquias da Morte desperta, na verdade, é o de que ela nunca quis voltar)

Mas atravessou a plataforma mais uma vez. Autorizou e acompanhou a produção da peça de teatro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, que retomaria a aventura de seu último ponto de parada, justo hoje, em primeiro de setembro de 2017. E desde as primeiras notícias que confirmaram o boato de que existiria uma nova história num novo formato, havia, também, uma enorme pressão para que a peça virasse livro. O roteiro foi lançado no mesmo dia da estreia, em julho do ano passado.

Sim, a gente sabe que há, pelo menos, uma geração inteira que foi pega na curva por Harry Potter. Mas esse debate não pode ser feito por um conceito tão estático quanto um que define um conjunto de pessoas com base em terem aproximadamente a mesma idade. Parece que poucos conseguiram escapar desse fenômeno que apresentou um mundo mágico saído de livros enormes e sem figuras, geralmente distantes tanto da molecada quando de quem não é assim tão moleque.

Construído com maestria por JK Rowling, o universo bruxo é imenso, complexo, rico e passa longe da bidimensionalidade tão comum na literatura classificada como ficção infanto-juvenil. Entre um drama e outro de algum romance adolescente, discute temas valiosos na formação de personalidade de seu público. A série apresenta personagens bem construídos, com motivações plausíveis e arcos narrativos bastante válidos. É claro que a história possui algumas falhas e ganchos que podem soar artificiais, mas, em um contexto geral, é muito bem sucedida em sua condução.

Fica fácil imaginar a ansiedade que um retorno à Escola criou no mundo dos trouxas.

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Mas, apesar do clima afetuoso de reencontro com personagens queridos, não é possível dizer que há algo mais que saudosismo nessa nova história. Talvez prejudicados pela forma do texto – que é, no final das contas, um roteiro – ou pela caneta – que não é a de Rowling – os personagens parecem dizer e fazer coisas que, quem sabe em prosa feita pela autora original, não fossem capazes de dizer ou fazer. A narrativa, corrida e um pouco confusa, cria situações um tanto quanto pitorescas – até para aquele universo – que parecem não estar organicamente inseridas em seu contexto. O texto é recheado de frases de efeito. Se o recurso não atrapalhou o original – são as nossas escolhas, Harry, que nos mostram quem realmente somos, não nossas qualidades – aqui acaba perdendo o significado.

Com um vilão questionável (e como não questionar a escolha depois de Voldemort?), cheio de clichês e com um desfecho relativamente decepcionante – depois de uma grande aventura que envolve viagens no tempo, a história parece voltar ao ponto de origem sem maiores consequências – Harry Potter e a Criança Amaldiçoada mais aparenta ser um laboratório para explorar se o teatro seria um dos formatos aptos a receber o universo mágico de Hogwarts do que um novo capítulo da franquia. É claro que, a depender da qualidade dos atores envolvidos na peça em si ou, quem sabe, em uma futura adaptação para o cinema, tudo isso pode ser relativizado, mas, como livro, a obra não consegue manter viva a empolgação que todo o hype de seu lançamento causou.

Bem diferente de Newt Scamander e sua maleta de animais fantásticos, mas essa é outra conversa. Por agora, não podemos perder a hora, porque hoje é primeiro de setembro.

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