hometown

Recusei um convite pra passar o dia na minha cidade natal.

Captura de Tela 2017-09-08 às 13.55.15

Foi no último minuto, porque, até então, eu tava conformada que ia gastar um dia do meu feriado em Ponta Grossa porque eu tinha que ir. Mas na última hora, daquele meu jeito meio desengonçado de dizer as coisas, eu falei que não ia. E não fui.

Eu nunca gostei de lá, não. Nem nunca morei. Só nasci. E fui embora pra Castro. Não sozinha, óbvio, mas vocês entenderam. Só que aí existem essas convenções sociais. Você precisa visitar a cidade que nasceu no feriado, encontrar com a família, no sentido amplo da palavra.

Precisa almoçar no restaurante do amigo do primo do vizinho, precisa ir na casa da tia da mãe da sobrinha da moça que mora no final da rua tomar um café. Essas coisas de interior, vocês sabem. Pode ser que vocês não saibam na prática, mas, pelo menos na teoria, vocês têm uma ideia, né? Todo mundo já viu essa cena uma vez na vida, nem que tenha sido naquela novela de época que passa na faixa das seis.

Eu nunca gostei de lá, não. Não é por nada específico. É que não gosto, e só.

nathan-anderson-81866

Eu sou a última dos filhos dos meus pais. E, diferente dos meus irmãos, que nasceram em anos de Copas do Mundo, eu nasci em um ano de Olimpíadas. Diferente dos meus irmãos, que sempre foram amigos dos primos da idade deles, eu não fui. Nunca consegui conectar direito, sabe? Eu tenho essa dificuldade de conectar de verdade com as pessoas, sejam elas da família no sentido amplo ou não.

As idas pra Ponta Grossa, pra mim, sempre foram esquisitas.

Mas quando eu era criança, a gente sempre tava em Ponta Grossa. Sempre tinha alguma coisa, um almoço, um café, um aniversário. E, invariavelmente, a parte que eu mais gostava da viagem era quando a gente passava por uma placa da estrada da volta – Castro, em letras maiúsculas e brancas bem no meio da placa verde, e uma flecha pra direita. Significava que a gente tava voltando pra casa.

Enquanto eu ia crescendo, a gente se mudou duas vezes e as idas pra Ponta Grossa foram, com o tempo, ficando mais espaçadas. Menos almoços, cafés e aniversários, mais velórios. Eu ensaiei, num determinado momento da vida, umas festas, até, mas nunca deu liga. Não consegui ter uma conexão genuína com aquele pedaço de mundo. Tudo que tenho, quando penso na cidade em que nasci, são flashes genéricos e um sentimento dominante de não estar no lugar certo.

Não é nada específico, mas é tudo.

É diferente, por exemplo, da ligação que Fabi tem. Fabi estudou lá. Morou lá sem nossos pais por anos a fio. Tem amigos lá – primos ou não. Tem histórias lá. Pode até ser que ela tenha algumas agonias como eu, mas ela tem uma outra coisa pra fazer peso na balança. Faz todo sentido do mundo que, quando ela está aqui, queira passar um dia lá.

Mas eu não tenho. E durante um tempo na minha vida eu me culpei por não ter a menor ligação com aquela cidade, porque, afinal de contas, tem um pedaço significativo da minha família que continua morando lá. Tios, primos, vizinhos da sobrinha da moça do final da rua. E, imersa na culpa por não ter a ligação que eu achava que deveria ter, eu fui incontáveis vezes pra Ponta Grossa porque eu tinha que ir.

Mas aí você começa a refletir melhor sobre esse “ter que”. E eu refleti. Demoradamente, as usual.

daria-nepriakhina-111869

No ano passado, quando minha vó, a última dos meus quatro avós a ir embora, faleceu eu estava engatinhando no meu pensamento. E é claro que eu fiquei triste. Minha vó era uma pessoa incrível, agregadora, feliz, contagiante, daquele tipo de pessoa que ilumina um ambiente. Ir pra Ponta Grossa enquanto dona Júlia era viva era porque tinha que ir, mas também era pra ver a vó.

É engraçado, esse negócio de família. Porque tenho uma amiga que diz que tenho uma ligação muito estreita com a minha. E eu tenho mesmo. Mas, pra mim, família é aquele conjunto de pessoas com as quais você quer passar o natal, sabe? Não pessoas que você precisa encontrar no aniversário de oitenta anos ou no velório da sua vó, mas sim com as quais você quer passar o natal. O natal é meu feriado favorito porque, lá em casa, é sempre uma reunião de pessoas que querem estar juntas, mesmo que seja só pelo FaceTime.

Eu gosto da minha família. Sei que falando assim pode dar a impressão contrária, e tô aqui escorregando nesse texto até agora porque tô com esse sentimento de que posso ser interpretada de um jeito errado. Mas eu gosto. Gosto dos meus tios, dos meus primos, da vizinha da casa da minha vó que vendia geladinho pra gente. Só que eu não preciso encontrar com a minha família no feriado só porque é minha família, sabe?

O princípio – depois de muita reflexão – veio simples pra mim.

Porque, quando lembro dessas idas pra Ponta Grossa, eu só consigo lembrar disso: só das idas. Muito pouco das vindas. Sempre moramos longe de Ponta Grossa, mas era sempre a gente que ia. Se a gente não fosse, quase ninguém vinha. Até hoje é assim. Se a gente não vai, quase ninguém vem. E aí, quando você inverte, fica simples: por que você precisa ir, quando quase ninguém vem?

E ninguém tem que ir ou vir só porque é família. Ninguém “tem que” nada.

A gente só vai ou vem se quiser. E tá tudo bem.

E aí eu não fui.

patrick-tomasso-131664


9 comentários sobre “hometown

  1. É incrível perceber como o sentimento pode ser tão contrário em duas pessoas que cresceram no mesmo ambiente.
    Talvez seja pela minha peculiar capacidade de me conectar às pessoas.
    Talvez pela idade tão igual à dos primos.
    Talvez pelas alegrias e agonias que chacoalham na minha memória.
    E talvez seja só a mesma “single story”, iniciada por cada uma de nós de maneiras diferentes.

    Curtido por 2 pessoas

  2. …ninguém tem “que nada mesmo”, eu superconcordo, mas foi tão bom ver a alegria do César na presença dos irmãos dele. Poder ver como as sobrinhas dele tornaram-se mulheres lindas ( Tiquita, Ana Paula, Joceline, Bel ) e são agora mãezinhas especiais dos sobrinhosnetos. Isso não tem preço…vale sim, só as nossas idas durante todos esses anos, pois assim tenho a impressão que por alguns momentos ele se liberta desse cativeiro dele mesmo e fica iluminado de alegria por reencontrar pessoas amadas, e, convenhamos, deve ser entediante ele só ter a minha companhia durante os outros 364 dias do ano…??? ❤️❤️😘

    Curtido por 1 pessoa

  3. Oi Marta, tudo bem? Amo tua escrita! Eu sempre falo a mesma coisa, mas é o que sinto ao ler tuas reflexões.Gosto da maneira como direciona as palavras para transmitir teus pensamentos e sentimentos. Parece que consigo entrar no teu mundo, mesmo sem te conhecer. Compartilho muito do teu ponto de vista sobre o “ter que”. Ótima reflexão. Grande abraço pra ti! Fernanda

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s