detona (minha ansiedade) Ralph

A maioria das pessoas não tem ideia do que acontece quando você tem uma crise de ansiedade.

Às vezes penso que eu também não tenho. Às vezes penso que toda essa conversa de ansiedade aqui é pura especulação, achismo, aquele mimimi de sempre misturado com um pouco de hipocondria. Tenho dúvidas do meu próprio diagnóstico, mesmo que ele esteja lá, no meu laudo.

Que laudo? Não sei se era bem um laudo. Talvez fosse mais um parecer.

Às vezes até penso em ir lá olhar o que tava escrito de verdade só pra tirar a dúvida, mas a real é que eu lembro bem de todas as palavras – até das que foram só ditas, mas não foram escritas naquele papel. Às vezes essa minha memória é um saco. Na maior parte do tempo gosto dela, mas tem umas horas que odeio. Eu só lembro das coisas como um gravador, igual naquela música da Clarice Falcão. Que aliás, parece bem sob medida pra mim, embora eu não faça ideia do que/de quem seja Koni.

E aí essa, que nem era a crise desse texto, fica rodando na minha cabeça. É que se não for bem um laudo, se for mesmo uma coisa que inventei aqui na minha cabeça, vou precisar resolver isso de alguma forma. Por que meio que enganei geral, né? No fim das contas, eu nem era ansiosa de verdade. Era só charminho.

Claramente.

É óbvio que eu não sou ansiosa de verdade.

mestrado-impostor

Mas esse pensamento só vem depois.

Porque às vezes eu tenho umas coisas que meio que parecem crises de ansiedade. Às vezes, essa frequência de tempo indeterminada que a gente usa quando não quer admitir de verdade a frequência das coisas e que pode acontecer, bem, às vezes.

E quando tô passando por uma dessas – geralmente nas horas mais inoportunas do fim de semana – eu só não consigo respirar direito. Parece que tenho mais de cem quilos de novo e acabei de subir seis andares de escada correndo. Tremo, entro em hiperventilação, meus dedos ficam dormentes e, claro, não consigo segurar o pensamento.

Ele vai crescendo de um jeito louco de uma catástrofe (im)possível pra outra, como se fosse aquela poeira de um prédio que acabou de entrar em colapso e tá fazendo o concreto em pó subir por todos os lados.

E não adianta. Uma vez que o prédio implodiu e a poeira subiu, leva um tempo. Indeterminado.

Nessas horas eu queria poder ter algum comportamento repetitivo que faz com que as pessoas diagnosticadas com TOC tenham algo parecido com sossego (sim, eu sei que não é isso). Mas não tem jeito. Lavar as mãos, girar a chave na maçaneta, abrir e fechar as gavetas, mexer no fecho do relógio que nem uso, nada funciona.

O gif da respiração, muito menos.

Quando Renan identifica que estou em uma crise dessas a primeira coisa que ele quer saber é o que ativou – e eu gosto quando ele usa essa palavra. Algum tema específico?, geralmente é a pergunta que ele me faz. Mas é bem rápida, essa parte da conversa. Porque minha resposta é geralmente “não sei”, “nada” ou nada mesmo, sem aspas. Não desenvolvo. Eu costumo ficar só mergulhada lá, no Mundo das Ideias, sem dizer uma palavra. Num espiral de silêncio.

Depois, ele entra em modo solucionador.

Renan, que me lembra tantos personagens de filmes que eu amo, também é um pouco Félix Jr., personagem título do jogo Conserta Félix Jr., o fliperama onde vive Ralph, em Detona Ralph (Wreck-It Ralph, 2012). Munido do martelo que arruma tudo, quer saber o que fazer pra passar. Pra eu melhorar. Quer que eu faça alguma coisa, namorada?

Não. Não sei. Não quero falar. Me deixa. Essa sou eu, quebrando os blocos de concreto furiosamente. Meu nome é Ralph.

E aí vem a pior parte. Ele me diz que vai dar certo.

Não importa qual o motivo da pretensa crise. É que não adianta. Ele sabe disso, eu sei disso. Não funciona, falar calma. Vai dar tudo certo. Enquanto a so called crise tá rolando, sempre tem alguém que tá dizendo calma, vai dar certo, vai dar tempo, vai resolver. Odeio. Porque cada palavra aumenta exponencialmente o cenário horroroso que tá rolando na minha cabeça. Não é o problema da palavra. Nem de quem tá falando. Nada disso. Eu sei que todo mundo só quer ajudar mesmo, mas é que não funciona.

O que funciona, então?, quer saber você, que chegou até aqui e entende a agonia de Renan, que precisa lidar comigo, a quebradora de blocos de concreto.

Não tem resposta certa, nem resposta única. Cada coisa que parece uma crise tem uma forma de acontecer. Cada coisa que parece uma crise tem um tempo. Cada coisa que parece uma crise pode ou não ter uma solução.

Nem tudo tem solução. E o que não tem remédio, já diz a sabedoria popular, remediado está.

Às vezes Félix Jr. consegue consertar o prédio, mas a lógica do jogo não é deixar a construção inteira. Conserta Felix é, bem na verdade, um jogo típico dos Arcades das décadas de 1970-1980: você não consegue ganhar. Você vai passando de nível e fica cada vez mais difícil impedir que Ralph detone. Ou que o carrinho do Enduro, que o avião do River Raid e que o Pitfall evitem seus obstáculos.

Não tem fim, só tem game over.

E, quando essa é a lógica do jogo, a gente precisa mudar a estratégia. Nem tudo precisa de conserto definitivo. Às vezes a gente só precisa tentar melhorar a pontuação no final.

Arcade.jpg

 


4 comentários sobre “detona (minha ansiedade) Ralph

    1. eu não tô sabendo lidar com isso, não, Elika! que você veio aqui, leu uns textos e comentou no meu blog. pode ter textão sobre isso?
      (é pergunta retórica, porque textão nesse mundo pode é pra tudo!)
      muito obrigada por vir!
      (e por existir e resistir e mostrar que há vida pensante nessa internet véia sem fronteiras!)
      tô emocionada, de verdade.
      aliás, de verdade não, real oficial, que é a linguagem dessa ferramenta, né?
      beijos!

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