a Bolsa e a Vida

Não tenho nenhuma objetividade pra falar dos livros de Douglas. Nenhuma. Nada. Zero. Não sei porque insisto. Esse texto, por exemplo. Tô com ele em meia viagem desde semana passada, quando notei, assim, sem querer, que o texto de hoje seria o de número quarenta e dois.

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Quando isso aqui estava sendo escrito durante a semana, começava assim:

Não tem nada demais nessa sexta-feira.
Quer dizer. Tô imaginando que não tenha, mas o que eu não tenho mesmo é a menor ideia do que vai estar acontecendo de verdade nessa sexta de hoje, porque tô aqui, no passado. Embora você esteja aí, no presente, que pra mim ainda é futuro. Incerto. Não sabido. Indeterminado.

E aí, muito espertinha que sou, eu emendava nesse trecho a primeira de várias citações aos livros d’O Guia que eu tinha planejado fazer:

“Um dos maiores problemas encontrados em viajar no tempo não é vir a se tornar acidentalmente seu pai ou sua mãe. Não há nenhum problema em tornar-se seu próprio pai ou mãe com que uma família de mente aberta e bem ajustada não possa lidar. Não há tampouco problema em mudar o curso da história — o curso da história não muda porque todas as peças se juntam como num quebra-cabeça. Todas as mudanças importantes ocorreram antes das coisas que deveriam mudar e tudo dá na mesma no final.
O problema maior é simplesmente gramatical”
(O Restaurante no Fim do Universo. Capítulo 15)

Só que não saí daí.

É que esses livros, eles me fascinam de uma tal maneira que eu não consigo selecionar só alguns trechos. Eu quero colocar tudo. Então, já nesse primeiro enrosco, comecei a pensar em outra abordagem, porque eu não poderia perder a publicação quarenta e dois sem falar de Douglas mais uma vez (embora, obviamente, eu sempre fale).

Aí, decidida que sou, decidi. Peguei da estante e fiquei a semana toda com Praticamente Inofensiva na mala, porque queria falar desse livro. E caí no mesmíssimo problema: não consigo, objetivamente, explicar porque Praticamente Inofensiva é meu livro d’O Guia favorito. Cada capítulo parece ser essencial pra fazer com que todo mundo veja o que eu vejo – claramente não aprendi nada com O Homem Sobre o Poste.
(E olha que o Capítulo Nove – em que Arthur encontra essa figura maravilhosa – é um capítulos que mais releio na vida)

Não tenho o hábito de reler livros inteiros, mesmo livros como Praticamente Inofensiva. Um pouco por causa da minha memória relativamente boa e outro pouco porque tem muita coisa pra ser lida pela primeira vez pra se ficar relendo livros inteiros.

Mas tenho uns capítulos preferidos. E, pra esses, gosto de voltar às vezes. É o caso do Capítulo King’s Cross, o trigésimo quinto de Harry Potter e as Relíquias da Morte, por exemplo, mas só porque Dumbledore fala pra Harry que aquilo tudo está, sim, acontecendo na cabeça dele, mas não significa que não seja real.

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O Capítulo Dois de Praticamente Inofensiva ocupa um lugar especial no meu coração. Tudo por causa de uma bolsa. Justo eu, que detesto bolsas.
(Para mais detalhes sobre esse comportamento dúbio obsessivo, sugiro retornar ao texto quarenta e um)

A bolsa de Tricia. Quem?

Ela era uma âncora em rápida ascensão. Tinha tudo o que precisava ter: um cabelo sensacional, uma compreensão profunda de uso estratégico de brilhos labiais, inteligência suficiente para entender o mundo e uma pequena e secreta apatia interior que fazia com que ela se lixasse.

Douglas continua sem nem se preocupar em abrir um novo parágrafo. Vai soltando uma atrás da outra como se falasse, realmente, de uma âncora de um jornal qualquer:

Todo mundo tem uma grande oportunidade na vida. Se você por acaso perde a única oportunidade que realmente interessa, todo o resto se torna assustadoramente fácil.
Tricia perdera apenas uma oportunidade na vida. Naqueles tempos já nem estremecia mais quando lembrava dela. Achava que tinha a ver com a parte que tinha ficado apática.

A oportunidade que Tricia perdeu tem a ver com a bolsa. Ou, mais especificamente, com o pegar ou não a bolsa. Quando ela resolve, finalmente, falar sobre isso, protagoniza o diálogo mais incrível que já li:

– O.k. – disse Tricia, decidindo colocar tudo pra fora. – Não sei como foi que você descobriu isso, mas…
– Eu não descobri nada, ao contrário do que você diz. Apenas escutei o que você estava dizendo.
– O que eu perdi, acho eu, foi uma outra vida inteira.
– Acontece com todos nós. A cada momento de cada dia. Cada decisão que tomamos, cada vez que respiramos, abre algumas portas e fecha várias outras. Não percebemos a maioria, mas notamos algumas. Acho que você percebeu uma delas.

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Costumo marcar trechos de livros que acho particularmente interessantes com colchetes à lápis (lapiseira com grafite 0.7, 2B, da Pilot, pra ser mais específica). Esse capítulo todo é marcado. Mas esse “acontece com todos nós”, esse pedaço específico, não tem marcação alguma. E nem precisa. Porque ele tá sempre – sempre – na minha cabeça. Pra tudo que eu faço. E pra tudo que deixo de fazer.

Li uma vez que Praticamente Inofensiva é o livro mais triste de Douglas. Não sei bem onde eu li isso, o que pode ser um indicativo de que é provável que eu tenha inventado essa história. Mas não acho que seja. Pelo menos não só isso. Acho, na verdade, que é o mais brilhante.

Como todos os outros, pode ser lido de uma forma absolutamente superficial, como se realmente estivéssemos falando de uma âncora de jornal frustrada refletindo sobre como a vida deveria ter ensinado a ela quando levar a bolsa e quando não, porque claramente havia uma regra ali que ela não estava conseguindo compreender. É verdade. Você pode ler esse capítulo assim, não tem nada de errado nisso.

Mas você pode ler além da bolsa. Você pode ler a vida.

Há uma teoria que diz que se um dia alguém descobrir exatamente qual é o propósito do Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais bizarro e inexplicável.
Há uma outra teoria que diz que isso já aconteceu.
(O Restaurante no Fim do Universo. Epígrafe)


2 comentários sobre “a Bolsa e a Vida

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