Never There

Largo das coisas.

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Nem comecei esse texto e já quero largar dele. Porque eu sei exatamente tudo que vou escrever aqui e já quero largar essas palavras todas, embora elas ainda não tenham visto a luz artificial da tela do computador.

Vi Amnésia (Memento, 2000) há muitos anos. Era uma época em que eu via esses filmes cabeça e achava que os entendia, larguei dessa prática faz tempo já. Mas – a par de toda a discussão filosófica, científica e artístico-antropológica que esse filme desperta e que vou largar aqui – tem uma cena que ficou sempre na minha cabeça (que grava as coisas como um gravador, dessa mania ela não larga). E contém spoiler.

Essa:

Se você não viu esse filme, vale saber que é a história de um cara que, tendo passado por um evento traumático e sofrido uma lesão na cabeça, não consegue mais reter memórias recentes. Esquece tudo que viveu num lapso curto de tempo. É. Parece que o cara é a Dory, de Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003) e Procurando Dory (Finding Dory, 2016).

Tá vendo? Eu faço isso. Tinha a ideia fixa de falar sério sobre esse filme, pra fazer o link sobre o que tô escrevendo e a cena aí de cima de um jeito até mais ou menos interessante e que faria sentido, porque parece que tenho um certo talento pra fazer essas conexões – embora esses dias tenha recebido uma avaliação de um texto que não estava “suficientemente fundamentado e estruturado e, por isso, ficou no nível intuitivo, superficial e confuso”.

Mas, quando tô aqui, na frente da tela do computador, a única coisa que consigo pensar é Leonard e Dory são o mesmo personagem, ignorando toda a diferença de proposta e de complexidade entre um filme e outro. E aí eu largo.

Larguei o judô na quarta série. Larguei basquete e natação. Larguei vôlei. Larguei o tênis. Larguei On The Road e Tópicos Especiais em Física das Calamidades. Larguei antes do final mais livros do que gosto de admitir que larguei. Larguei The Good Wife (2009-2016) e Grey´s Anatomy (2005-). Larguei de reestruturar aquele texto intuitivo, superficial e confuso. Larguei a disciplina de Teoria da História II no primeiro ano da faculdade.

São tantos exemplos que vou largar. E eu sei o exato momento em que largo as coisas.

Largo as coisas quando elas me exigem muito esforço.

Tipo esse texto. Larguei.

nada

Mas na verdade não.

Não larguei, porque ainda tô aqui, com ele na cabeça. Pensando em tudo que eu poderia dizer sobre o ato de largar e não disse.

E quando falo sobre esse meu sentimento de largar, acabo ouvido que na verdade eu não largo nada. Apenas quero largar. Eu não sei porque insisto. Não no largar ou não largar, não nisso. Não sei porque insisto em conversar com as pessoas sobre. Tem muita coisa que exige esforço que você não larga, é o que eu ouço, de modo geral.

E eu entendo. Que as pessoas tendam a não me ver largando as coisas, mesmo vendo que são coisas que demandam esforço. Eu mais não largo do que largo, é verdade. Mas lá no fundo, eu sei. Eu sei que eu larguei, mesmo que eu não tenha largado. É possível enxergar essa diferença? É sutil e, ao mesmo tempo, violenta.

E não é porque não me importo. É porque não quero me importar. Porque se importar – com o movimento certo de backhand, com Teoria da História II ou com a avaliação ruim daquele texto – demanda esforço. Demanda mais que esforço. Demanda lidar com o fato de que, mesmo com esforço, às vezes “intuitivo, superficial e confuso” é tudo que um texto pode ser.

E eu sei o exato momento em que largo as coisas.

Quando elas estão bem perto de sair do meu controle. Aí eu largo antes.

E é aí que a cena de Amnésia faz sentido nessa história toda. Se você voltar lá pra ver o trecho de novo, dessa perspectiva, talvez você veja o que eu vejo.

Ou não.

Talvez esse seja só mais um daquele tipo de pensamento que não saiu “suficientemente fundamentado e estruturado e, por isso, ficou no nível intuitivo, superficial e confuso”.

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6 comentários sobre “Never There

  1. Vc é demais! Só não “largue” nunca esse seu jeito único de ser! E se largar, não tem problema…vc continuará sendo vc…corajosa, autêntica… talvez vc não saiba disso, mas vc inspira muitas pessoas! Obrigada por não ter largado esse texto #dontpanic!!!…bjssssss

    Curtido por 1 pessoa

  2. O que tenho mais escutado nos últimos tempos é:

    você não está desesperada? não vai dar tempo. não vai dar certo. se eu estivesse em seu lugar já teria desistido. se estivesse em seu lugar estaria enlouquecida.

    Pois bem, minha resposta é:

    não tenho o costume de desistir das coisas, nunca fiz isso, não será agora…

    Mas talvez esta seja a minha forma de largar… Entregar e dar adeus.

    Faltam 37 dias.

    Martinha, “don’t panic”. Obrigada pelos seus textos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. pois é, Duda! acho que é bem isso, entregar e dar adeus, você tem razão!
      acho que todo encerramento – seja por conclusão ou por desistência – é, no fim das contas, uma forma de largar.
      obrigada por vir aqui, suas visitas sempre me deixam muito feliz!
      trinta e seis dias, e contando!

      Curtir

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