faqueiro da praia

Minha mãe tinha um faqueiro da praia.

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Era um faqueiro bonito, mas que a gente não usava nunca, porque ele era exclusivo pra casa da praia. A gente sempre ia pra praia no verão – acho tão engraçado falar “no verão” como se a gente tivesse mesmo essas marcas fechadas de estações do ano. E sempre que a gente tava na praia, meus pais iam numa imobiliária pra ver casas na praia.

É que a gente tinha o faqueiro. Mas não tinha a casa.

Eu nunca gostei de praia. Nem nunca gostei da ideia que meus pais tinham de ter uma casa na praia. O calor sempre me incomodou. O mar, a areia, o cheiro, o paraguaizinho que tinha lá na praia. Então eu sempre fui (do) contra.

Aliás, falando nisso, acho que eu devo umas belas desculpas pra minha mãe, sabe? Fui uma criança muito odiosa. Não gostava de nada. Nem de praia, nem de calor, nem de vestidos, nem de colônia de férias, nem de matemática, nem de judô, muito menos de basquete. Nada.

Em quase todas as minhas fotos de criança eu tô com a mesma cara fechada. Com o mesmo burro amarrado, como dona Elena costumava dizer. Se olhar com bastante atenção, dá pra me ouvir pisando duro por trás de cada uma das minhas fotos de infância.

martinha

Achava o máximo quando, cada vez que a gente saía da tal imobiliária ou mesmo da casa de praia de alguém, meu pai dizia que casa na praia só dava duas alegrias: quando compra e quando vende. Isso me dava aquela certeza que a gente nunca ia ter uma casa na praia. E eu ficava feliz por uns dois minutos, até todo mundo lembrar que estava na praia e decidir, bom, ir pra praia. Argh.

Mas o faqueiro sempre esteve lá. Em casa. Inabalável. Não podia mexer naquela caixa. Acho que ele acompanhou a gente em todas as mudanças. O faqueiro da praia. Com os cabos dos talheres em acabamento transparente.

Não sei dizer porque me apeguei tanto a isso, mas essa é uma história que vem voltando com força na minha cabeça nos últimos tempos. Também não sei dizer bem porquê. Ou talvez até saiba, mas esteja – com a habilidade que me é natural – evitando pensar muito sobre esses motivos.

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Eu nunca tive essa conversa com a minha mãe. Não sei porque ela guardou durante tantos anos o faqueiro da praia. Também não sei dizer em que momento ela decidiu que não era mais o faqueiro da praia e que poderíamos usar aqueles talheres no almoço de quarta-feira. Também não sei qual é o paradeiro atual do faqueiro da praia.

Talvez esse texto seja uma boa forma de saber de tudo isso. Ou talvez saber de tudo isso não faça, no fim das contas, diferença nenhuma. Porque a história do faqueiro da praia, hoje, não tem mais nada a ver com um faqueiro que só poderia ser usado na casa da praia.

Hoje, essa história é, pra mim, uma teoria. Como todas as boas histórias o são, aqui nessa minha mente puramente teórica. Hoje, eu acho que todo mundo tem um faqueiro da praia. Um apego. Um flerte com uma outra vida que não tem. Todo mundo planeja, em alguma medida, coisas em torno de outras coisas que não existem ainda, que pode ser que não venham nunca a existir.

E a vida às vezes é lidar com nossos faqueiros da praia. Entender se os faqueiros da praia vão mesmo resultar numa casa de praia ou não. Saber quais os motivos que fazem com que a gente guarde os faqueiros da praia ainda que não tenhamos a menor estrutura pra ter uma casa na praia. E a gente precisa saber, também, quando os faqueiros da praia deixam de ser os faqueiros da praia para virarem apenas faqueiros que podemos usar no almoço de quarta-feira.

Podia ser mais simples, né?

Podia ser só ter um faqueiro da praia.

Bom. Talvez fosse. Talvez isso tudo não passe desse meu olhar ansioso querendo enxergar intensidade até nos faqueiros da vida.

Vá saber.


6 comentários sobre “faqueiro da praia

  1. Kkkkkk, o faqueiro da praia está aqui em um canto qualquer do armario da cozinha. Eu quase não me apego a nada, nem aos meus filhos (sqn), pois sou completamente desnecessaria a eles. Mas a praia 🏖 , confesso que ainda sonho com ela aqui no fundo de meu quintal no Batel pra não precisar viajar nem tirar o carro 🚗 da garagem please …

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  2. Aí gente… eu preciso parar com isso tb. Tenho um faqueiro de casamento que não abri… tinha quadros que não queria colocar pra não estragar a parede…(mas me rendi… e furei as parede toda rsssss)tudo isso pra que???? Sei lá!!! Desapegaaaa de mim!! Não quero guardar uma coisa pra um dia talvez usar….quero usar tudo!

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