Livre Associação (Aula Quatro)

Chás, banhos, cromoterapia. Dança, corrida, pintura, meditação. Aromatizantes, óleos, homeopatia. Tendemos a recomendar aos outros o que nos conforta. Se funciona comigo, vai funcionar com você. Um pensamento sobre esse começo: eu tinha uma música pra dar o tom desse texto, era Poder, do Arnaldo Antunes. Mas agora não é mais.

É que esse texto todo, ele é construído a partir do Princípio da Livre Associação. Então eu não sei direito pra onde vou levar vocês, daí achei melhor alertá-los com Major Tom.

Sim, parece que título e texto – sem intervenção d’O Editor (Renan, Fabi ou um Terceiro Continente a sua escolha) – têm relação estreita entre si. Um pensamento sobre essa reflexão: o título original do texto de semana passada era Pneumotórax, em homenagem a Manuel Bandeira, que é mundialmente conhecido como o único poeta que eu gosto. Renan vetou. E a única coisa a fazer, naquela hora, foi tocar um tango argentino. Se é que vocês me entendem (provavelmente não).

Mas a proposta da linha de raciocínio aqui são minhas anotações de aula. Da Aula Quatro. Com lapiseira 0.7, grafite 2B, no meu caderno temático do Pequeno Príncipe, sem pauta.

Eu tenho esse negócio com cadernos. Faz tudo parte de uma ideia cristalizada que tenho em mim: anotar tudo num caderno. Isso me faz comprar cadernos. Porque compro cadernos, acabo ganhando cadernos de presente. E isso significa que tenho muito cadernos. Aí quero ter um caderno para cada coisa antes de ter um caderno para tudo, que é o objetivo final do meu universo. Porque antes de colocar tudo no mesmo, todas as anotações precisam ser separadas por temas específicos. Um pensamento sobre esse parágrafo: cadernos sem pauta, sempre. Embora tenham todos uma pauta.

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E a primeira anotação do meu caderno diz: como observamos e absorvemos as experiências é o que constrói nossa identidade. A aula, como um ser de vontade própria, entrou num debate sobre se seria possível que o cérebro humano tivesse se desenvolvido a partir dos olhos, e não o contrário. Parece que nas ciências naturais – área da qual, naturalmente, ninguém sabia absolutamente nada por motivos de Curso Livre de Filosofia e Literatura – existem teorias sérias sobre isso. Essa ideia mal saiu da boca do professor e grudou na minha cabeça como fita banana (essa é aquela boa, né?). É claro que grudou. É claro que nosso cérebro se desenvolveu a partir do olhar. Óbvio.

A teoria me fez perceber que José Saramago era, secretamente, pós-doutor em ciências naturais. A desconstrução que ele faz do humano a partir da cegueira é incrível. Ele descreve com o impacto certo, necessário, cheio de vírgulas, mas que você compreende totalmente mesmo que a frase tenha três quilômetros, que, sim, é isso mesmo: o cérebro humano se desenvolve a partir do olhar e, uma vez todos cegos, não há nada que nos impeça de agirmos como seres não reflexivos.

Num gesto cansado, levou às mãos à cara para afastar o cabelo, e pensou, Vamos todos cheirar mal. Nesse momento principiaram a ouvir-se uns suspiros, uns queixumes, uns gritinhos primeiro abafados, sons que pareciam palavras, que deveriam sê-lo, mas cujo significado se perdia no crescendo que as ia transformando em grito, em ronco, por fim em estertor. Alguém protestou lá do fundo, Porcos, são como os porcos. Não eram porcos, só um homem cego e uma mulher cega que provavelmente nunca saberiam um do outro mais do que isto.
(Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago)

E eu tinha esquecido de quanto Ensaio Sobre a Cegueira tinha mexido comigo. Foi bom lembrar. A memória foi, inclusive, o tema seguinte.

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E a memória, ela me interessa. Como lembramos, como esquecemos. Como vivemos de novo, dentro de um discurso, o que já vivemos de fato. Será, penso eu, que o de fato de fato existe? Existimos nós? Ou somos só discurso? Somos só a narrativa que construímos sobre nós?

Um pensamento sobre tudo isso: tem um livro (porque sempre tem). Um livro que me veio de presente – e que talvez tenha sido um dos presentes mais bonitos que eu já ganhei. Levei meses pra terminar de ler, porque tive aquela relação estranha que têm os leitores com os livros que transformam suas vidas. Ainda não sou capaz de falar sobre. Mas todo dia me vem algum pedacinho dele na cabeça. Se é que tenho uma cabeça.

Vocês acreditam que podem conhecer a si mesmos sem se construírem de algum modo? E que eu possa conhecê-los sem construí-los um pouco a meu modo? Podemos conhecer apenas aquilo que podemos dar forma. Mas que conhecimento é esse? Talvez esta forma seja a coisa mesma? Sim, tanto para mim quanto para vocês; mas não a mesma para mim e para vocês. Tanto isso é verdade que eu não me reconheço na forma que vocês me dão, nem vocês, naquela que lhes dou. Além disso, a mesma coisa não é igual para todos e, mesmo para cada um de nós, pode mudar continuamente – e de fato muda sem cessar.
(Um, Nenhum e Cem Mil, Livro II, 11. Retornando à Cidade, Luigi Pirandello)

A gente vai falar mais desse livro. A gente vai. Só não tô pronta ainda. Existem esses livros, né? Apenas existem.

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Essa semana mesmo eu tive essa conversa. Livros que mudam nossa percepção – no caso, era nossa percepção sobre a história, mas, no fundo, é só a nossa percepção mesmo, sem sobrenome. E pra mim esse livro foi A História Repensada, de Keith Jenkins. Um pensamento sobre isso: gostaria que tivesse sido um livro com um título melhor, sabe? Ia ficar mais bonito aqui, nesse texto, se o livro que tivesse mudado minha percepção sobre a história tivesse sido, sei lá, Mosquito Empire, de John Robert McNeill (¯\_(ツ)_/¯). Mas não foi. Foi A História Repensada mesmo.

Lembro que quando eu li Jenkins pela primeira vez – naquele que deveria ter sido o último ano de faculdade se eu terminasse as coisas no prazo – ele explodiu minha cabeça. Aquele xerox está tão anotado, grifado e glosado que deve ser humanamente impossível ler o original sem se contaminar com o meu direcionamento. Um pensamento sobre essa última frase: agora que gosto de história medieval, adquiri esse hábito de dizer que gloso as coisas. É. Agora eu gosto de história medieval. Parece que jogo virou, não é mesmo?

Até aqui, sustentei que a história é um discurso em constante transformação construído pelos historiadores e que da existência do passado não se deduz uma interpretação única: mude o olhar, desloque a perspectiva, e surgirão novas interpretações.
(A História Repensada, O que é a História?, Keith Jenkins).

Calma. Respira. Eu vou parar. Sei que tudo tem limite.

Mas a aula prosseguiu, porque ela tem vida própria, existe num universo inteiro só dela. Foi longe ainda. Falou-se de vida como fragmento, lembrei do episódio The Problem with the Solution, do podcast Invisibilia. Falou-se de como a geração atual parece não ter memória – uma ideia  que me incomoda profundamente porque discordo horrores dela – e eu pensei em como nos comportamos como os ludistas quebradores de máquinas quando nos deparamos com coisas que não entendemos. Falou-se sobre o que é arte, e eu pensei nos robôs de Asimov, que tinham capacidade de produzir mais arte que os humanos que diziam que ser humano é poder criar.

Foi, com folgas, meu recorde de anotação no caderno do Pequeno Príncipe. Não o que ouvia. O que eu lembrava. O Princípio da Livre Associação estava ativado, no último volume. Assassin’s Creed, Douglas Adams, Os Sofrimentos do Jovem Werther, Paula Sibilia. O fim da História. Na última parte da aula, já um pouco – assim, de leves – fora de controle, eu lembrei de Astolfo, o porquinho mais ansioso do planeta.

É que a gente ainda é porquinho, mas já sabe se virar.

Tendemos a recomendar aos outros o que nos conforta.

Chás, banhos, cromoterapia. Dança, corrida, pintura, meditação. Aromatizantes, óleos, homeopatia.

Não.

A minha recomendação é só uma. Aula.


5 comentários sobre “Livre Associação (Aula Quatro)

  1. Estou presa no episódio do caderno, porque é um conflito emocional meu também. Além de ter um caderno para casa coisa, eu nunca consigo terminar com um caderno. Isso me entristece, porque não me dá carta branca pra começar oficialmente outro, mas eu sempre começo outro…e nunca consigo ter todos a mão, então tenho que ter bloquinhos de notas, daí eu tenho um bloquinho de nota pra cada coisa…e não consigo ter todos a mão, então, tudo se resume a um post it ultimamente! Tudo é besteira? É! Mas
    as tenho mais de 30 anos e não sei como resolver isso! Terapia, pão de queijo, Homeopatia? Chega junto!

    Curtido por 1 pessoa

    1. inclusive um dos mais bonitos que eu tenho foi um presente seu, aquele de capa vermelha, cê lembra? acho que se me trouxe da primeira vez que cê foi pra casa da sua mãe. nunca consegui achar um tema pra ele, tá em branco porque é perfeito e não tem tema perfeito. cadê esse pãodequeijoterapia pra gente resolver isso?

      Curtido por 1 pessoa

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