outros estudos

Primeiro, foi o título.

A primeira aula do mestrado. Ninguém está devidamente preparado pra primeira aula do mestrado. Parece que você nunca entrou numa sala de aula antes, não importa por quantas delas você já tenha passado na vida.

O programa da disciplina, com três páginas cheias de uma bibliografia que quase ninguém tinha ouvido falar, veio assim, de cara. Cada um de vocês irá apresentar pelo menos um livro da bibliografia por semana, mas eu recomendo fortemente que todos leiam pelo menos mais um, porque teremos debates e vocês irão conduzir pelo menos três quartos das aulas. Ênfase nos pelo menos.

Olhei praquelas folhas e tentei escolher os livros das próximas dez semanas sem pensar muito. Se minha vida fosse um filme – às vezes penso que até daria boa, sabe? – teria sido assim:

Aliás – baita filme, esse. O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, 2006). Já até usei numa resenha, uma vez.

A Condição Operária e Outros Estudos sobre a Opressão. Logo depois de ter escolhido esse título, bateu um arrependimento. Porque eu – lisa que sou – não costumo ficar levantando bandeiras e, bom, um livro com esse nome, pensei comigo, exige um posicionamento. Por que, né? Chama A Condição Operária e Outros Estudos sobre a Opressão.

Depois, foi o livro.

Eu não me apaixonei, assim, de primeira. Comecei a leitura pela apresentação e, ressabiada que sou, achei o texto carregado demais. Forçado. Difícil de engolir. Parei. Não deu pra encarar aquele começo tão… Sensorial. Pensei em desistir, pedir pra trocar de tema, de seminário, de disciplina. Quase larguei sem nem ter começado. Mas comecei.

E a cada capítulo, eu ia tomando um golpe diferente. Apanhei.

Meu compromisso com o livro era puramente acadêmico, mas depois de um tempo, ele teve um efeito diferente em mim. E aconteceu, num livro chamado A Condição Operária e Outros Estudos sobre a Opressão um fenômeno que deveria acontecer quando a leitura fosse, sei lá, Ansiedade: como enfrentar o mal do século.

Digo isso porque esse tipo de fenômeno acontece quando você lê algo meio “contaminado” com o que precisa ler. Deve ser por isso que chama “autoajuda”. O que você tá lendo talvez importe menos do que o que você tá precisando ler naquilo que tá lendo. Isso faz sentido? Provavelmente não, né? Então vou parar por aqui mesmo esse pensamento. Mas foi meio que isso que aconteceu comigo e com A Condição Operária. Eu precisava tanto ler aquelas coisas na vida, sabe?

Simone

E aí sim. Aí foi Simone.

Depois de todas as rasteiras que tomei daquele livro – um compilado de textos que ela foi escrevendo durante sua curta, diversificada e intensa vida – eu voltei pra apresentação, que eu tinha deixado de lado num tempo que parecia outra existência. E comprei cada palavra. Não tinha mais nada de forçado ali. Simone entrou pra minha (não tão curta) lista de pequenas obsessõezinhas.

Quem era aquela mulher? Qual caixinha era dela? Filósofa? Professora? Operária? Revolucionária? Profeta? Religiosa? Herege?

Ela era tudo aquilo. Formada filósofa, com carreira de professora interrompida pela decisão de que era necessário um “contato com a vida real” do trabalho na fábrica. Militante ideologicamente associada à esquerda, mas que nunca deixou de questionar ideais tão genericamente repetidos por seus pares – de operários a Trotsky. Uma francesa que lutou na Guerra Civil Espanhola e visualizou, antes da ascensão de Hitler, que “a calma de Berlim tinha algo de terrível”. E era, também, tantas outras coisas. Nos 34 anos que viveu, parece ter tido tempo para três vidas inteiras (e uma penteadeira).

Eu não consegui encaixar Simone Weil em nenhuma explicação.

E entrei em parafuso. Como eu tinha passado uma vida inteira sem nunca nem ter ouvido falar daquela mulher? Como eu, uma pessoa supostamente tão interessada em história pós Revolução Francesa, nunca tinha lido absolutamente nada que tinha sido escrito por aquela pessoa? Como eu tinha vivido até ali?

Cada vez que conversava com alguém sobre algo que tinha mexido comigo naquele livro, eu começava pedindo desculpas, porque obviamente todo mundo no universo sabia quem era Simone Weil. Todo mundo menos eu.

Demorei um tempo até perceber que, bem, quase ninguém sabia quem era Simone Weil. Como assim? Como vocês não sabem? Como vocês não estão nem interessados em saber? Como vocês podem continuar existindo sem saber? Preparei apresentações. Projetos de pesquisa. Novas dissertações, teses, traduções de um francês que eu sequer sei falar.

Não fiz nada disso, mas nunca mais tirei aquele xerox da mala.

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Finalmente, foi o trabalho final da disciplina em que li o livro de Simone Weil.

No Mundo das Ideias, planejei semanas a fio o que iria escrever – uma sequência (caótica) de (livre) associações que misturava entreguerras, Paralamas do Sucesso, Titanic (Idem, 1997) e Escola da Ponte. Mas é claro que fiquei a noite toda acordada pra fazer no último dia do prazo, por motivos de old habits die hard. Sem dormir, fui trabalhar. Era uma quarta-feira.

Quando você passa a noite em claro e começa o dia seguinte, o dia seguinte, na verdade, nem existe. O tempo fica meio que parado, suspenso. O mundo todo parece que diminui uma marcha. A vida fica num volume mais baixo. Fica tudo mais… Distante. E da distância, você .

Naquela quarta-feira eu vi. Ficou tudo claro. Tava dando tudo errado. Não tinha mais jeito. Aquele navio já tinha batido no iceberg. E eu não devia mais ficar ali. E então – sem plano, sem bote, sem colete salva-vidas – eu fui.

Esse dia. Esse dia foi loco. Como têm sido todos os outros depois dele.

freddie_

“Quanto a mim mesma, para mim pessoalmente, veja o que significou o trabalho na fábrica. Mostrou que todos os motivos exteriores (que antes julgava interiores) sobre os quais, para mim, se apoiava o sentimento de dignidade, o respeito por mim mesma, em duas ou três semanas ficaram radicalmente arrasados pelo golpe de uma pressão brutal e cotidiana. E não creio que tenha nascido em mim sentimentos de revolta. Não, muito ao contrário. Veio o que era a última coisa do mundo que eu esperava de mim: a docilidade. Uma docilidade de besta de carga resignada. Parecia que eu tinha nascido para esperar, para receber, para executar ordens – que nunca tinha feito senão isso –, que nunca mais faria outra coisa.”
(Simone Weil, Carta a Albertine Thévenon, 1934-1935)


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