expectativa vs. realidade

Aviso (de Incêndio): esse texto é um pouco sobre Walter Benjamin, mas o quero dizer não tem muito a ver com Teoria da História, prometo.

Walter Benjamin era crítico literário. Um pouco místico. E ensaísta. Mas não era historiador.

Só que escreveu Sobre o conceito da História (1940). Algumas teses que – por falta de tempo – ficaram meio soltas. E historiadores, só pra vocês saberem, são pessoas que adoram teorizar sobre coisas meio soltas.

Mas esse texto não é sobre Teoria da História.

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É sobre fazer as pazes com Benjamin. Durante muito tempo eu me senti enganada por ele. Por anos eu achei que sua Tese IX era um embuste. Diz o conceito:

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.
(Sobre o conceito da História, Tese IX, Walter Benjamin)

Eu não prestei muita atenção quando deveria ter estudado tudo isso na faculdade, mas eu lembro vagamente dessa aula. Porque esse conceito é bonito. Poético. Impactante. As palavras ali te fazem construir uma imagem sem precisar de uma. Você nem pensa no quadro de Paul Klee, você só imagina.

Constrói aquela visão na sua cabeça. Você antecipa toda a angústia que sente o anjo, preso na parede sem conseguir impedir a grande tragédia que é o passado. Os olhos esbugalhados, a boca escancarada. As asas abertas e imóveis. A tempestade que imobiliza.

Benjamin foi talentoso ao usar aquelas palavras ali.

Talvez porque era um ensaísta. Talvez porque pudesse – de longe – ver todos esses problemas da história. Ou só talvez porque escreveu as coisas que escreveu influenciado por um forte senso de depressão que rondava (não só) a produção científica europeia no meio do século passado. Não importa muito.

Mas eu construí a imagem do Anjo da História na minha cabeça. E vivi com ela – tão impactante quanto o texto – até que um dia eu resolvi procurar o quadro de Paul Klee.

Queria ver o que Benjamin tinha visto.

E aí eu me senti muito enganada.

Porque, veja você, esse desenho:

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Não tem nada – absolutamente nada – do que Benjamin viu nele.

É só um desenho. Esquisito. Não parece um anjo. Não parece um anjo agoniado. Não parece um anjo olhando o passado de boca aberta. Não parece um anjo imobilizado por uma tempestade. Não tem nada.

Eu não sinto absolutamente nada do que tá descrito no conceito quanto olho pra essa imagem.

E, por isso, por esse grande sentimento de nada, durante muito tempo, eu me senti muito enganada. Porque, qualé, Benjamin. Como assim você tira “um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente” daquele desenho, meu chapa?

Mas – porque Benjamin tem sido nesse ano uma leitura recorrente pra mim e porque temos falado muito dele durante as aulas do Curso Livre de Filosofia e Literatura – eu comecei a pensar sobre toda essa minha frustração com a Tese IX.

Refleti – demoradamente, como é de praxe.

E acho que, só talvez, toda essa frustração com a Tese IX não tenha, na real, absolutamente nada a ver com a Tese IX. Ela tem muito mais a ver com toda a expectativa que eu criei sobre o Anjo da História que Benjamin viu no desenho de Paul Klee.

Fui eu. Não foi Benjamin, não foi Paul Klee.

Eu que achei que ia ver mais do que vi. E sou eu quem tenho que lidar com minha própria expectativa frustrada. Eu preciso lidar com o fato de o desenho de Paul Klee não ter despertado em mim toda a poesia catastrófica que despertou em Benjamin e fez com que ele descrevesse, com tanta precisão, como é ter essa agonia de olhar o passado e nada poder fazer sobre ele.

Fui eu. E sou eu que preciso resolver isso. Comigo mesma. Esse é meu meme expectativa versus realidade. Sou eu. É a minha lente. É a minha lente pro desenho, pro conceito, pra história.

E é a minha lente pra tantas outras coisas.


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