Meu amigo Pedro

Tenho um fraco por músicas que tratam pessoas pelo nome.

Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não

Sempre gostei. Parece que quando a pessoa na música tem nome, tem uma outra coisa. Minhas músicas favoritas têm personagens com nomes definidos. Não que eu saiba assim, com exatidão, quais são minhas músicas favoritas. Mas se um dia eu souber, certeza que em quase todas alguém vai ter um nome na letra.

E Pedro também é o nome do meu pai. Embora eu não possa dizer que é possível encontrar meu pai nessa música.

 Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você, meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno

No começo, imaginava que Meu amigo Pedro era uma história de duas pessoas. Pedro e o amigo do Pedro.

Que debatiam sobre suas formas fundamentalmente diferentes de encarar o mundo e em como aquilo afetava uma amizade que parecia ter só diminuído com o passar dos tempos. Era um pensamento triste. Acho importante manter contato com gente que pensa diferente da gente, mas reconheço que viver em bolha de preferências dificulta esse processo e facilita – e muito – o processo inverso. A gente afasta, com facilidade, o outro.

Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura

Depois de um tempo, passei a achar que Pedro não era, bem verdade, um amigo. Talvez fosse uma pessoa da família, velha, careta, porque há todo um conflito geracional ali. E são pessoas que estão ligadas mesmo que não queiram, né? Onde você vai eu também vou, afinal de contas.

Os homens são mais parecidos com sua época do que com os seus pais, é o que diz um provérbio árabe que Marc Bloch citou de cabeça escrevendo Apologia da História da cadeia. Esse era um pensamento mais combativo. De posicionamento. De me deixa. Fiquei com essa versão por muitos anos.

E, pra falar bem a verdade, tinha deixado essa música pra lá.

O pobre Raul, coitado, acaba sofrendo do mesmo problema dos Beatles e de Karl Marx. Essa gente desembestada que não pode ver alguém com um violão e um microfone que solta um toca Raul e inspirou de Zeca Baleiro a Pedra Letícia a não tocar mais Raul.

Pedro, onde você vai eu também vou
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Mas aí, há uns dias, Meu amigo Pedro voltou.

Isso é um fenômeno relativamente comum. Acontece mais com músicas que têm nome. Elas voltam assim, com um Pedro qualquer, desavisado, que não tem culpa nenhuma de aparecer numa quarta-feira aleatória e acabar ressignificando toda uma interpretação que já tava pronta há tempos.

Ouvindo Meu amigo Pedro como se fosse a única música no mundo por uns três dias seguidos, sempre naquela minha lentidão tão comum de toda manhã – e com uma outra janela de referências que envolve todas as reflexões enlouquecidas de Moscarda (daquele livro sobre o qual quero falar, mas ainda não consigo) – pensei numa outra coisa.

Talvez Meu amigo Pedro não seja uma história de dois.

Talvez seja a história de um só. De um só que é vários. De vários Pedros dentro de um só Pedro. Ou de um só que talvez nem se chame Pedro. E que é um universo. E que usa sempre o mesmo terno. E tem essa briga dentro dele mesmo. Todo dia.

E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou

Pobre Pedro. Enlouqueceu.

Ainda bem que, em pouco mais de quatro minutos, tudo acaba onde começou.


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