Allez Paris

Na Copa do Mundo de 2014 (#sddsFuleco), fiz um teste de personalidade junto com o pessoal do meu trabalho na época. Qual jogador da seleção brasileira é você no escritório?

Eu sempre fico um pouco descontrolada em época de Copa do Mundo, vocês precisam saber. E eu tinha oferecido, acho que na mesma semana, um almoço grátis (there is no such thing) pra quem me desse um pacotinho de figurinhas do Álbum da Copa com o Neymar.

É claro que meu teste de personalidade diria que eu era o Neymar do escritório. Óbvio, pensei comigo.

Fiz o teste. Deu Thiago Silva.

Thiago Silva

Nunca superei.

Eu sou fã do Neymar. É verdade. Embora eu tenha a impressão que ninguém leva muito a sério esse meu manifesto. Parece que as pessoas escolhem não acreditar muito nisso. Mas é verdade. Eu sou fã do Neymar.

É claro que foi porque ele iniciou sua carreira no Santos. E, com o time meio nas costas, fez com que a gente ganhasse tudo, incluindo uma Libertadores. É muito, sabe? É muito. Sim. Houve aquele lance todo no Japão – também ainda não superei – mas aquele time, que tinha Durval na zaga, alcançou coisas incríveis. Só que não é só isso, não. Se fosse só isso, quando Neymar decidiu ir embora eu teria encerrado o gosto na velha máxima do futebol de que nenhum ídolo é maior que o clube. Mas não é o caso.

Porque menino Neymar tem uma coisa. Ele não é um jogador profissional de futebol. Não. Ele vive o futebol. Das resenhas à concentração, do não gostar da substituição às dancinhas depois do gol, do prêmio Puskás à Ferrari, do não saber perder ao choro pela medalha olímpica em casa depois de uma lesão na Copa do Mundo. O menino vive o futebol.

E eu oscilo.

Às vezes acho incrível gente que vive o que faz. Gente que vive o que faz me parece, não sei, mais realizada.

Ah, Marta, me diz você, é claro que Neymar vive o futebol, é o jogador mais caro da história. Bom. Sim. Mas Neymar vive o futebol desde antes. Eu lembro de ter visto um programa de esportes – sou dessas – há muitos anos. Acho que era uma das primeiras entrevistas dele, moleque, cabelo raspado, camisa oversized. Número sete, em homenagem ao Robinho. Feliz. Genuinamente feliz. Jogando bola. Talvez ainda não tivesse o primeiro milhão.

Dava pra ver naquele menino, como dá pra ver no Neymar de hoje, que não havia outra opção pra ele na vida. Ou seria jogador de futebol, ou seria jogador de futebol. Sendo o jogador mais caro do planeta ou esquentando o banco do Ibis, o pior time do mundo.

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Só que eu oscilo.

E às vezes acho que deve ser uma merda ser essa gente que vive o que faz. Porque, né? Deve ser. Deve ser uma merda viver o futebol e ouvir de um René Simões que “estamos criando um monstro”. Deve ser uma merda não poder agir com a imprudência que é inerente a alguém de vinte e poucos anos sem ouvir que é <insira aqui qualquer coisa ruim que você já disse sobre o Neymar>.

Deve ser uma merda pular pra não receber uma entrada violenta de um cara do dobro do seu tamanho e metade da sua velocidade e ser chamado de piscinero. Trocar de emprego por um que pague melhor e ser chamado de mercenário, como se você tivesse inventado as transferências milionárias no futebol. Ganhar absolutamente todas as competições que já participou até o final e sempre ouvir que falta alguma coisa. Neymídia. Neymarketing. Quero ver jogar assim contra <insira aqui qualquer time ou seleção>.

E eu posso continuar com esse “deve ser” até amanhã.

Todo mundo sabe disso.

Mas não tem quase ninguém que deixa qualquer coisa que envolva o Neymar passar impune.

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E, oscilando entre a admiração que nutro pelo Neymar e a pena que sinto dele – pobre menino rico, para citar o clássico Riquinho (Richie Rich, 1994) – eu não escrevo esse texto.

Mas, vendo os gols da rodada da Liga dos Campeões, pensando aqui nesse chocolate que o PSG aplicou no pobre Celtic na quarta-feira, decidi que esse assunto tá rolando no Mundo das Ideias há mais tempo do que devia.

Se você não estava em outro planeta nos últimos meses, sabe que a transferência milionária do Neymar deu caô no vestiário do PSG, né? O menino chegou e queria sentar na janelinha, dizem os jornais. Mimado, estrelinha, “monstro”, naquele primeiro sentido da fala do René Simões, mesmo que o próprio já tenha alterado o tom inicial. Eu, particularmente, tenho uma outra teoria sobre isso, mas deixa pra lá – não dá pra gente ficar ouvindo conversa de fã nessas horas.

Fato é que rolou uma tensão, tenha sido ela agigantada pelos jornais ou não. Quem bate pênaltis, quem é o dono da bola, quem escolhe a música no vestiário. Entendo. E de Cavani, a outra ponta da confusão, não conheço quase nada. Desenvolver por ele uma antipatia não foi nem muito difícil.

Só que esses dias Cavani deu uma entrevista. Disse que quem batia pênaltis no PSG agora era Neymar, fim da polêmica. E disse também que não precisava ser amigo de Neymar. Que eram colegas de profissão. Jogam bola no mesmo time, mas é só isso. É claro que essas frases foram totalmente descontextualizadas a serviço de manchetes caça-cliques, mas no fundo, elas fazem total sentido.

Existem Neymares. Muitos. Gente que vive o que faz. Que é plenamente feliz, realizada, se completa fazendo o que faz, que não vê outra alternativa pra vida, que se achou. Pode ser com o futebol, como é com Neymar. Pode ser com a cozinha, como é com Paola. Pode ser com a sala de aula, como é com Marcella, minha professora de Medieval que tem o superpoder de reanimar amores pela História adormecidos. Existem Neymares. Tantos que até já teve uma propaganda assim, uma vez.

Só que existem Cavanis. Excelentes jogadores. Artilheiros. Titulares absolutos. Comprometidos, que comemoram cada gol como se fosse aquele da prorrogação da final da Copa do Mundo quando ainda valia o Gol de Ouro (#sddsgoldeouro). Mas que não vivem o que fazem. Que conseguem sair do estádio e vestir um outro uniforme, deixar as coisas do vestiário no vestiário. Ou, pelo menos, na zona mista, depois da passagem obrigatória.

E existem Thiagos Silva.

O dono do PSG contratou os três. Quer, com o time que montou, só uma coisa: ganhar a Champions League. Como o Santos queria ganhar a Libertadores em 2011. E eu sei, da minha boa base de conhecimento de futebol que anos de estrada me dão, que Neymares, Cavanis e Thiagos – com o uniforme do PSG – também querem a mesma coisa.

psg

Futebol. Esse estranho espelho da realidade.


3 comentários sobre “Allez Paris

    1. hahahahaha, claro que lembro!
      (“e tô aqui, morrendo de vergonha”, diz Marta, que tá aí na internet espalhando os textão tudo, mas esquece que tem gente que lê)

      obrigada por deixar um sinalzinho aqui!
      beijos!

      Curtir

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