o texto que podia ter sido e não foi

Acho que é dezembro. Pode ser. Mas tenho lá minhas dúvidas. Então não vou sair por aí culpando o mês que nem começou direito e é a sexta-feira do ano, não é? Ando cansada – e um pouco azeda, também.

Minha cabeça tá cheia. Tem uns mil textões por dia rodando na minha área de trabalho mental. Todos prontos, aqui no Mundo das Ideias. Só que quando eu tento tirá-los, nada. Enrosco. Agora, por exemplo, estou com seis documentos abertos ao mesmo tempo no computador, cada um com um começo diferente, um tema diferente. Mas nada avança. Nada vai.

Se os textões não tão indo pra frente, imagina a dissertação.

Acho que é a dissertação. Pode ser. Mas tenho lá minhas dúvidas. Então não vou sair por aí culpando o trabalho acadêmico que eu escolhi, voluntariamente, fazer, não é? Ando cansada – e um pouco azeda, também.

Pensei em escrever sobre as ruas que mudaram de sentido nessa semana e zoaram o já caótico trânsito do centro da cidade. Tinha tido uma ideia ótima na terça-feira, na moto, enquanto refletia que tinha começado o dia num sentido da Nilo Peçanha e encerrado em outro. Foi um sentimento bem maluco, parecia errado (porque no começo do dia era, de fato, errado andar naquela direção naquela rua). O textão que “escrevi” começava – exatamente onde terminava – assim:

Dizem – este é, aliás, um recurso muito válido pra usar quando você não lembra exatamente quem disse alguma coisa – que se você quer conhecer a realidade, deve ler ficção. Acrescentaria, de minha parte, que você deve ler ficção científica. Histórias sobre o futuro são, de modo geral, histórias sobre o presente – assim como o são as histórias sobre o passado.

Não saiu, de jeito nenhum.

Paciência, pensei comigo. Ainda tinha a aula de Filosofia e Literatura da semana. Dois contos  Ruído de Passos e A Língua do P  de Clarice Lispector, o livro Os Homens Explicam Tudo Para Mim, de Rebecca Solnit, e outras tantas referências filosóficas com potencial para sacudir a mente mais travada. Seria um prato cheio.

Só que a aula não fluiu. Não foi boa. Não deu certo. A discussão rodou de escravidão a quais livros você releu na vida, mas de mulheres, falou-se pouco. Não usei nem uma página inteira do meu caderno. E na que usei, comecei outro textão. Ali, esbocei um texto sobre como é difícil conversar sobre feminismo com pessoas que não conseguem desnaturalizar as coisas, mas também não consegui desenvolver.

Não saiu, de jeito nenhum.

Acho que é um bloqueio, então. Pode ser. Mas tenho lá minhas dúvidas. Não vou sair por aí culpando um negócio que nem sei se existe de verdade. Até porque eu não tô bloqueada, vamos ser honestos, eu tô pensando em várias coisas. Talvez até em coisas demais, não é? Ando cansada – e um pouco azeda, também.

Lembrei, por fim, de um poema. Justo eu, que não gosto de poesia. Esse poema não é do Manuel Bandeira – mundialmente conhecido como o único poeta que eu gosto. É de uma outra pessoa. Chama-se A Queimada. Foi escrito por Lêdo Ivo.

Pensei em reproduzir esse poema aqui e tentar refletir sobre ele.

Só que não saiu, de jeito nenhum.

Sou eu. Pode ser.

É. Não tenho dúvidas.

Bom. “Não tenho dúvidas”, talvez, seja uma expressão forte demais.

Porque eu sempre tenho dúvidas.


3 comentários sobre “o texto que podia ter sido e não foi

  1. Ando cansada também. Não sei se azeda. Talvez triste e ansiosa… E por mais que eu não queira culpar e que provavelmente não seja culpa da aclamada dissertação, não consigo deixar de pensar que se ela não existisse as coisas estariam mais fáceis. Mesmo sabendo que é dezembro e provavelmente eu estaria cansada. E triste. E ansiosa. Da mesma forma.

    Sorria Martinha, temos o direito de ficar cansadas. E azedas… E ansiosas. Mas é dezembro. Cansaço acumulado. E também encerramento de ciclos. Mesmo que seja apenas por uma convenção social de que o ano acaba em dezembro (por que não em fevereiro?). Já está acabando.

    Beijinhos!

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