Chewie, we’re home

São poucos os lugares no mundo em que posso dizer que me sinto confortável. Em casa. E eu sei que isso é um problema bem mais meu do que dos lugares que frequento, mas não consigo evitar. Sou uma pessoa com dificuldades de pertencer. Sempre tenho uma pulguinha atrás da orelha – um “será mesmo que eu deveria estar aqui?” rodando na minha cabeça. Faz parte de mim.

Hoje eu tô indo pra um desses lugares. Começa, pra mim, a CCXP.

CCXP 2016

Não é nada demais. Quando eu preciso explicar o que é isso pra quem não tem essa referência – o que, depois de alguns anos, se reduz a um pequeno número de pessoas com quem eu converso – digo que se trata de uma feira de nerds. E é basicamente isso. Acho uma boa expressão.

É que a CCXP é um lugar que eu consigo compreender com precisão.

Acho que um dos meus maiores problemas quando penso sobre pertencimento é esse: eu preciso compreender as coisas com precisão pra conseguir me sentir parte delas. E a maioria das coisas não pode ser compreendida com precisão – porque a maioria das coisas não faz, assim, tanto sentido, não é? A história, o direito, a academia, a outra academia. Nada disso pode ser compreendido com precisão. A feira de nerds pode.

Lá eu entendo tudo. Mesmo que eu não saiba o anime específico que inspirou aquela pessoa naquele cosplay esquisitão, mesmo que eu não tenha lido os Novos 52, que eu não tenha visto a última temporada de The Walking Dead ou jogado o último God of War. Eu entendo tudo porque entendo as motivações.

É claro que eu e as milhares de pessoas que vão pra CCXP não vemos o mundo da mesma maneira, mas não se trata disso. É um pouco sobre ter uma janela de referências parecida, claro. Mas é muito mais sobre ter uma percepção semelhante de como o mundo funciona – e de como ele deveria funcionar.

Captain-America-Avengers-UnderstoodReference

Nos últimos anos, coleciono pequenos momentos incríveis que vivo na CCXP. Guardo essas memórias em potinhos, como boas memórias devem ser guardadas na gente, sempre separadas por cor, tamanho e matéria – ninguém é obrigado a ter potinhos de memórias bagunçados. Vou dividir três delas.

Não gosto de gente falando enquanto assisto a filmes ou seriados. Mas uma das melhores sensações que já experimentei na vida tem a ver com um auditório com duas mil e quinhentas pessoas em catarse coletiva acompanhando, de pé nas cadeiras e aos berros, a última luta de Creed – Nascido para Lutar (Creed, 2015), na CCXP de 2015.

Não gosto de ambientes com muita gente, com aglomeração, algazarra, gritaria. Mas uma das melhores sensações que já experimentei na vida tem a ver com um auditório com três mil e quinhentas pessoas gritando para que James Gunn, diretor de Guardiões da Galáxia, entrasse no painel da Marvel, na CCXP de 2016.

Mas acho que a memória mais incrível que tenho não tem muito a ver com experiências coletivas.

Já falei que tenho um pouco de dificuldade com leitura de quadrinhos. O que não disse é que tenho um autor de quadrinhos preferido, ainda que não consiga me adaptar muito ao gênero. Frank Miller, autor de Sin City. Ele é tipo uma lenda dos quadrinhos e esteve nas duas últimas edições da CCXP. Em 2015, minha primeira, havia duas opções: ou você acompanhava o painel e ouvia Frank Miller falar, ou ficava numa fila pra pegar pulseiras que te garantiriam autógrafos nos seus quadrinhos. Eu optei pelo painel, mesmo tendo saído de casa com minha edição de O Assassino Amarelo.

Naquele ano, pessoas que estavam no auditório podiam fazer perguntas pros participantes. Depois de umas duas ou três intervenções, chegou a vez de um rapaz, ele devia ter uns trinta anos e tava visivelmente emocionado. Quando começou a falar, disse que não tinha nenhuma pergunta. E eu lembro exatamente do que pensei quando ele disse isso: esse cara vai ser odiado por todo mundo! Era meu primeiro dia, minha primeira CCXP. Eu ainda não sabia.

Ele só queria dizer pro quadrinista que a leitura das HQs tinha transformado a vida dele e que tinha saído de uma depressão grande, muito por causa dos quadrinhos. Pediu, no final do discurso, pra Frank Miller autografar as edições que tinha levado. Frank Miller autografou, deu um abraço no cara, tirou fotos com ele.

Nenhuma viva alma naquele auditório reclamou. Ao contrário. Foi uma festa. Cada assinatura, o abraço, as fotos, tudo com trilha sonora de muitos aplausos. Ninguém se importou com as senhas da fila de autógrafos que tinha perdido pra acompanhar o painel. Ninguém se importou com o fato do rapaz não ter pergunta nenhuma. Todo mundo naquele auditório se viu naquele cara. E as pessoas foram ao delírio.

Me sinto em casa na CCXP.

Porque é muito mais sobre dividir alguns dias com gente que tem uma percepção parecida com a sua sobre como o mundo funciona – e sobre como ele deveria funcionar.


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