o brasileiro

É fim de tarde de terça-feira na Cidade do México.

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Estamos no aeroporto. Renan dorme, moído da viagem. Eu estou de fones de ouvido, mas em silêncio, tentando me concentrar na leitura. Tô quase no fim de Câmara Clara, de Roland Barthes. Faltam umas quinze páginas e o livro é interessantíssimo, só que me exige foco absoluto, tenho dificuldades com os conceitos.

Mas as pessoas na minha frente, que acabaram de se conhecer e esperam o mesmo voo que eu, estão falando dele – o Brasileiro – esse ser meio mitológico. Desisto da leitura e tento uma música, mas a proximidade do embarque – na cabeça de uma pessoa ansiosa qualquer horário antes do embarque é próximo do embarque – impede que o volume seja alto o suficiente para me distrair da conversa que acontece ali, no outro banco.

Parece que esse texto tá precisando mesmo sair.

É o que a gente mais escuta, quando viaja por aí e, sem querer querendo, reconhece a nossa língua na mesa do lado ou no mesmo vagão de trem num país estrangeiro. É quase uma regra: se você ouve uma conversa em português, vai ouvir sobre o brasileiro.

É engraçado, isso.

Pior tipo de gente, aquela pessoa que só quer levar vantagem em tudo. O brasileiro, a gente diz, aquele que entra sem pagar no transporte público, que fura fila do museu e da farmácia, que atravessa no meio da rua. O brasileiro, turista ou não, tá sempre fazendo alguma coisa errada, em qualquer lugar do mundo. E a gente tá lá, pra dizer sempre olha o brasileiro.

Por outro lado, falando das mazelas do país, a gente enaltece o brasileiro. Trabalhador, pagador de impostos, de mãos atadas nesse cenário desolador. Caloroso, humano, mas com um sentimento de descrença no país que imobiliza. E a gente especula, consternado, como se chegou nesse ponto. É a política, a criminalidade, a corrupção, a colonização, essas leis. Pobre brasileiro.

Só que o brasileiro, enaltecido ou esculachado, nunca é a gente.

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A conversa segue, inabalável. As pessoas – que nunca tinham se visto antes daquele momento – parecem, agora, amigas de infância. Minha cabeça fervilha, em silêncio. Sem sucesso com meu livro ou com minha playlist, olho pra mim.

Sou uma pessoa de sorte. Pude conhecer algumas nacionalidades pelo mundo. Não sou especialista, mas tenho a meu favor minha relativamente boa capacidade de observação. Dessas que conheci, de “primeiro” ou de “terceiro” mundo, nenhuma outra nacionalidade tem tão pouca identidade nacional como temos nós, brasileiros.

Comecei a faculdade de História com o objetivo de saber tudo que pudesse ser sabido sobre Revolução Francesa. Só que no meio do caminho, minha chave mudou. Foi um conjunto de fatores que me levou a estudar Brasil. Um deles era meu desejo de entender esse fenômeno. Esse fenômeno que permite com que a gente, às vezes na mesma frase, se orgulhe e se envergonhe tanto desse ser – o brasileiro – sem jamais se reconhecer nele.

Mirei na compreensão, acertei numa infinidade de dúvidas que nunca me permitiram ter qualquer certeza sobre o assunto.

Bom, é verdade. Eu ainda me interesso muito pela Revolução Francesa – ainda tenho o péssimo hábito de dizer que nada do que aconteceu antes dela realmente aconteceu, mas hoje é só um péssimo hábito mesmo, que mantenho apenas em amor à tradição. A história da Europa – até a Medieval, quem diria – é incrível. Mas eu sei que esse interesse que a Europa desperta em nós é fruto da nossa educação, claramente direcionada.

Essa mesma educação que considera o meio do mapa (mais sobre isso aqui) o centro do mundo que formou a mim e forma a todos nós faz com que eu me surpreenda que existam brasilianistas – estudiosos estrangeiros de História do Brasil. Cada vez que encontro uma referência bibliográfica gringa sobre meu tema de estudo eu fico maravilhada – o que não acontece quando olho para brasileiros medievalistas ou romanistas. E, quando racionalizo esse pensamento, ele já veio: o que pode ter feito você, historiador inglês, querer estudar escravidão no Brasil?

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É engraçado. Mas é também um pouco triste. Porque a nossa história, cheia de suas complexidades, é um pouco (pouco?) ignorada por nós mesmos. Fechamos os olhos. A gente prefere ensacar o brasileiro num pacote pronto que culpa os usos da colônia por Portugal pela nossa cultura do jeitinho. A gente prefere um discurso repetido de “se tivéssemos sido colonizados por <insira aqui a nacionalidade de sua preferência> tudo seria diferente”, mesmo que a gente não tenha a menor ideia do que tá falando.

E aí, quando a gente se preocupa tão pouco com conhecer a nós mesmos, fica fácil falar do brasileiro – que a gente encontra na viagem, na fila do banco ou na cadeia – como se ele não fosse a gente.

A gente não se sente brasileiro.

Que coisa maluca. O voo é anunciado no alto-falante do portão. O embarque começa. O trem de pensamentos é interrompido pela ansiedade de sempre. Acordo Renan. Precisamos ir pra fila, a nossa é a terceira a entrar. Assentos na fileira 20, mais nove horas e estamos.. Em casa?


2 comentários sobre “o brasileiro

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