pequenas alegrias

Sou compradora de livros.

Renan, que vem tentando me trazer de volta à realidade de você-não-precisa-comprar-tantos-livros-assim desde que começamos a namorar (porque antes disso, ele sempre participava dos presentes-livros que eu ganhava de forma entusiasmada), agora está decidido a me fazer entrar pro time dos livros digitais. Eu, lenta que sou, ainda tô pensando se vai rolar ou não.

Enquanto isso, compro livros. É quase uma compulsão. No final do ano, fiz uma lista com trinta e dois livros que queria precisava. Enchi vários carrinhos digitais e comprei. Não os trinta e dois, é claro, não há salário que sustente isso. Mas nove. Dez, na verdade, mas um ainda não chegou (e acho que não vai chegar).

Já li quase metade. Sou claramente mais compradora do que ledora.
(Os que ainda não comecei permanecem com o plástico, pra conservarem o aroma até momento de abertura do volume. Tem pouca coisa no mundo tão boa quando o cheiro de um livro recém tirado do plástico.)

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Um desses livros – A coisa mais próxima da vida, de James Wood, é particularmente incrível. São quatro ensaios curtos, um mais maravilhoso que o outro. Arrebatadores, como o próprio nome do livro já anuncia que serão. O tipo de coisa que, quando você lê, se identifica tanto que pensa que poderia ter escrito aquilo exatamente da mesma maneira.

O último ensaio, chamado Desabrigo secular, trata da experiência de lar. Sendo eu essa pessoa cheia de crises de pertencimento, tenho um óbvio fraco pela temática. E esse texto, que presenteia quase de cara com a inquietação de que “ter uma casa é estar vulnerável”, foi capaz de dar um pouco sentido a uma observação que eu tinha feito sozinha, no Mundo das Ideias, há uns meses e estava adormecida.

Nunca morei fora do país. Quase três meses: esse foi máximo de tempo que passei fora de um local em que eu soubesse quais eram os programas de domingo da infância. Mas observo, há anos, gente que vai embora.

Juliana, por exemplo. Morando em Londres, uma cidade que tem metrô, há quase três anos, ela desenvolveu dois dos hábitos que chamaram minha atenção.

O primeiro, contar estações. Uma boa forma de passar o tempo e distrair o (nem tão) pequeno Joca, mas também uma eficiente ferramenta de ensino: ele já sabe os princípios básicos de andar de metrô pela cidade. Se localiza bem e às vezes anuncia, antes de todo mundo, que vamos descer daqui cinco paradas. Joca não tem nem sete anos ainda.

O segundo hábito, muito mais sutil, é o de embarcar no vagão certo.

Funciona assim: o trem chega e ela escolhe o vagão de embarque pensando, sempre, na estação do desembarque. Qual é o mais próximo da saída no local que vai chegar. Parece fácil, mas Londres tem 268 estações de metrô, segundo o número mais atualizado retirado de uma fonte confiável (Wikipédia). E ela acerta. Claro, quando você usa sempre as mesmas estações, pode ser que fique natural, mas, pra quem não experimenta isso diariamente, parece incrível.

Quando vai descer numa estação que não usa muito – aquelas que vai só pra acompanhar os amigos que estão fazendo turismo, por exemplo – ela não tem muita certeza sobre em qual vagão embarcar. “Não sei se nessa a gente desce do lado esquerdo ou direito, nem se precisa ser no começo ou no fim do trem”, ela argumenta e chuta um vagão e um lado pelo que mais ou menos lembra daquela parada.

Quando dá certo, Juliana usa uma expressão bem peculiar. Ela diz que essa é uma das pequenas alegrias de Londres.

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Repetimos as pequenas alegrias de Londres algumas vezes nas semanas em que estive lá, para algumas outras coisas, até. E eu gravei aquilo na minha cabeça por motivos desconhecidos – talvez eu, aqui do futuro, já soubesse que, dado o tempo necessário para a minha reflexão lenta, isso iria virar um textão mesmo (eu sou viajante no tempo, se vocês bem lembram).

Sair do país, pelo que posso observar, é um exercício de autoconhecimento. Quase uma contradição: viajar pra fora é viajar pra dentro. Uma série de testes sobre quem você é, quem você achava que era e sobre quem você quer e quem precisa ser. Você se coloca, todos os dias, à prova. Você está, todos os dias, em um lugar que não é seu. Um lugar que já estava lá quando você chegou.

Sim, é claro que nosso país de origem também já estava lá quando chegamos, mas chegamos sem essa consciência – ou pelo menos não lembramos dela (a natureza é sábia, dizem). Nosso país de origem já é nosso.

Talvez não seja bem isso. Talvez seja a gente que seja dele. Podemos listar uma infinidade de problemas em nosso país natal (qualquer que seja ele), mas, no fim do dia, ainda teremos ao nosso lado um sentimento de certo conforto. Conforto de saber que entendeu aquela referência ao programa que a gente via na TV antes mesmo de pensar sobre isso, que compreendeu sem esforço aquela piada de duplo sentido da palavra engraçadinha.

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Eu acho – e trata-se mesmo de um exercício de achismo – que no país de origem, a gente não precisa tanto encontrar essas pequenas alegrias como Juliana encontrou no fato de descer perto da saída de uma estação de metrô que não usa com frequência. Não precisa tanto porque temos aquele quentinho de que, mesmo que tudo dê errado numa quarta-feira qualquer, no fim do dia, mesmo sem pensar, ainda poderemos compreender mais coisas do que não.

Fora, parece que é preciso procurar, dia após dia, essas pequenas alegrias. Em coisas simples, coisas que a gente não tá acostumado a racionalizar.

Com essas ideias voando pelo Mundo das Ideias meio sem compromisso, o ensaio de James Wood falou comigo. O inglês conta que saiu de casa duas vezes. Nenhuma dessas vezes foi embora por obrigação. Sempre optou. E ele descreveu o que essa experiência pode significar de um jeito que me parece bastante assertivo:

Deixei minha casa duas vezes – a primeira, logo depois da universidade, quando fui para Londres, na marcha habitual do provinciano para a metrópole. (…) A segunda partida ocorreu em 1995, quando, aos trinta anos, deixei a Inglaterra para os Estados Unidos. (…) Agora, já faz dezoito anos que moro nos Estados Unidos. Seria pusilânime dizer que eu não esperava ficar tanto tempo; e ingrato, ou mesmo sem sentido ou desonesto, dizer que não queria. Acho que queria; houve muito ganho. Mas eu tinha pouca ideia do que poderia ser perdido.

Só que, apesar de uma certa melancolia, a perda que ele destaca não me parece, de todo, triste. Há, no texto, um milhão de camadas de cinza.

Às vezes tenho saudade de casa [homesickness], onde a saudade é um tipo de nostalgia da Inglaterra e uma irritação com a Inglaterra: sickness for [saudade] e sickness of [enjoo]. Encontro muitas pessoas nos Estados Unidos que me falam que sentem falta de seu país natal – Inglaterra, Alemanha, Rússia, Holanda, África do Sul – e que na frase seguinte dizem que não conseguem imaginar voltar para lá. É possível, suponho, sentir muita falta de casa, não saber mais o que é um lar e se recusar a voltar para casa, tudo ao mesmo tempo. Esse emaranhado de sentimento poderia então ser uma definição de liberdade luxuosa.

Bom. Como eu disse. Tudo isso me parece assertivo. Mas eu não sei.  Nunca morei fora do país.

Tudo que escrevi é derivado do mais puro e genuíno achismo, com uma ou outra referência bibliográfica que eu poderia ter deixado passar para não ficar enroscando e ressignificando as minhas experiências de viagem.

Mas não deixei.

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3 comentários sobre “pequenas alegrias

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