Mika

Mika tinha certeza de que era uma alucinação.

De que não existia de verdade. E aquela era uma certeza que vinha pronta, empacotada, sempre naquela hora do dia, enquanto a água escorria da torneira da pia, gelada. Mika sabia que apenas habitava o imaginário de uma pessoa. Uma pessoa que ainda não tinha descoberto quem era. E tinha transformado essa missão na razão de sua existência imaginária. Até quem não existe precisa de um propósito.

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Não que fosse ruim, ponderava, enquanto lavava os copos. Era quase ótimo, até, na maior parte do tempo. Certamente a pessoa que era responsável por aquela alucinação tinha uma imaginação muito fértil. Mika tinha várias dimensões. Não era só uma coisa, não tinha só uma opinião. Não tinha nada de parecido, por exemplo, com aqueles filmes que via.

Sim. A pessoa que lhe imaginava, também imaginava todo um universo. Com filmes bons e ruins. Alguns livros ótimos e outros só com capas bonitas. E uma infinidade de coisas médio. Mika tinha altura média, um peso médio, um trabalho médio. Um carro médio. Dias médios. Uma vida média.

Mas Mika não podia negar que era bem complexa toda aquela lógica da qual fazia parte. A pessoa que lhe imaginava certamente era muito minuciosa, refletia enquanto passava aos talheres.

Aquela ideia não era infundada. Não era um pensamento tolo de qualquer quarta-feira chuvosa. Mika passara os últimos anos – não sabia quantos, o que considerava uma falha estrutural da imaginação da pessoa responsável por sua não existência – pensando detalhadamente em provas de que não existia de verdade.

A primeira evidência era o fato de não se lembrar de nada antes. Mika não lembrava da infância. Não sabia se tinha brincado na rua com os vizinhos ou se era mais uma criança de videogames. Não sabia dizer se gostava de almoços de família ou se detestava qualquer contato com outras pessoas desde a meninice. Não sabia dizer se tinha crescido no interior ou se era fruto de uma cidade grande, cheia de barulho e poluição. As memórias que tinha – alguns arranhões na perna por causa de fios de arame soltos em uma bicicleta roxa e branca – sempre pareciam inventadas.

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E ainda tinha aquele nome, irritou-se, esfregando os pratos com força. Quem mais poderia ter tido essa ideia – de achar que um nome poderia ser um apelido e vice-e-versa – se não a pessoa que imaginara Mika? Ninguém tem apelido por nome. Ninguém se chama Carol ou Chico. As pessoas são Franciscos e Carolinas e, só em casos específicos viravam Carols e Chicos. Agora, Mika? Mika passara toda sua (não) existência com a incômoda sensação de que seu nome permitia um nível de intimidade desconfortável com todas as pessoas apenas porque era um apelido.

Enxaguou os utensílios que já havia lavado. A irritação passava à medida em que ia enfileirando tudo por tamanho e categoria no escorredor. Outra prova irrefutável de que era uma alucinação.

Quando conversava com outras pessoas – também imaginadas, é claro – Mika tinha ainda mais certeza de que não existia. Invariavelmente sentia surpresa quando ouvia os outros falando com tanta precisão de como sentiam seus órgãos. Sabe quando você sente seu fígado doer? Não sabia. Não sabia se já havia sentido o fígado, a vesícula, o intestino. Sabia que tinha todos aqueles órgãos dentro de si, claro, afinal, até quem não existe tem uma composição fisiológica padrão. Mas não sabia senti-los.

Lembrava que tinha ouvido, uma vez, que apaixonar-se era sentir borboletas no estômago. Mika odiava borboletas – mais a palavra do que o inseto, mas odiava. E não, não tinha ideia de como era sentir borboletas no estômago. Não sabia nem se seu estômago tinha sentimentos. A pessoa que lhe imaginava também não devia saber, concluía. Ou, talvez, não estivesse tão interessada em ciências. Nem humanas, nem de borboletas.

Suspirou, com certa resignação, quando colocou as panelas na pia. Detestava, além de borboletas, lavar panelas. A água gelada passava por elas, e Mika as enfileirou, também, no escorredor. A louça toda limpa garantia-lhe uma sensação de paz. Mesmo que toda sua existência não passasse de uma loucura de outra pessoa, ao menos a louça estava limpa. E iria secar naturalmente, como louças, imaginárias ou não, deveriam secar.

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