Vida longa ao Rei

“Pantera Negra é um filme da Marvel mas não é mais um filme de super-herói”

Vou emprestar aqui a frase que a Guid usou pra abrir o texto dela lá no Não Repete, mas quero falar de um outro viés.

É que boas histórias – venham elas em livros, quadrinhos ou filmes – podem ser analisadas, pensadas e teorizadas sobre diversos aspectos sem que um precise excluir os outros. Boas histórias possibilitam diversidade de interpretação.

Eu sou uma ferrenha defensora dos filmes de herói. Das jornadas de herói, na verdade. Acredito nesse tipo de narrativa, gosto muito que as histórias de herói tenham se popularizado tanto a ponto de movimentar desse jeito uma indústria como a do cinema há tantos anos. E – sempre com meu raio problematizador ligado – tenho a tendência de enxergar nesse tipo de história muito mais do que os conflitos entre mocinhos e vilões.

E Pantera Negra é um filme de herói. Mas Pantera Negra não é só um filme de herói.

Como as boas histórias que se prezam, ele foi construído para impactar pessoas diferentes de formas diferentes. T’Challa é um herói. Mas T’Challa é rei. Como rei, passa por conflitos que um soldado, como Capitão América, por exemplo, jamais vai passar. Erik Killmonger é um vilão. Mas Erik Killmonger também é um homem moldado a partir da sua realidade e fiel à ideologia que construiu pela vida que precisou viver. As motivações e os conflitos do herói e do vilão são igualmente compreensíveis.

Mas não é só isso. Pantera Negra traz uma riqueza de camadas que ultrapassa as motivações e os conflitos compreensíveis do herói e do vilão. Embora traga as marcas dos filmes da Marvel – alívios cômicos que têm por função deixar os espectadores seguros de que é um filme, de que aqueles personagens estão à salvo dos perigos, de que nada demais vai acontecer – é um filme sério.

E que sabe que é sério. E se leva a sério.

black panther

Apresenta a seu público – que em grande parte não tem a menor ideia do que um filme sobre um país africano pode significar – uma cultura que foi construída respeitando sua ancestralidade e abraçando sua tecnologia e modernidade.

Dá ferramentas para que seus espectadores entendam a lógica que fez aquele país a se fechar para o mundo, a olhar para dentro e a construir em seus cidadãos a identidade nacional necessária para que coloquem a segurança da nação antes da sua própria, sem com que isso soe ufanista.

Mas talvez o que mais mexa comigo (em caso de dúvidas, retorne ao segundo parágrafo deste texto!) nessa experiência toda é que Pantera Negra leva essa seriedade para um público gigantesco. É, afinal de contas, um filme de herói em épocas em que a melhor coisa para um filme é ser filme de herói.

E usa sua plataforma para lançar a milhões de pessoas um discurso que precisa ser ouvido, visto, ampliado, respeitado. Dá a homens e mulheres negras – e aqui vou ousar dizer todas as mulheres, porque que mulheres temos em Wakanda! – representatividade num meio que é quase que exclusivamente branco e masculino.

Usa sua plataforma para apresentar a milhões de pessoas um lugar em que as pessoas podem se respeitar, mesmo que pertençam a países, tribos, raças e gêneros diferentes.

Saí do cinema querendo que Wakanda fosse do tamanho do universo.

Vida longa ao rei.

shuri


4 comentários sobre “Vida longa ao Rei

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