um outro oito de março

Há alguns anos, eu tava servindo petiscos numa festa não sei de quem. Um menino, devia ter uns sete anos, pegou um pouco de comida e, quando eu virei as costas, disse – sem muita cerimônia – pra mãe “ela parece um macho, né?”.

Isso aconteceu muito na minha vida.

Prefiro um sem número de coisas de meninovideogame, heróis, futebol, itens colecionáveis. Prefiro o conforto de tênis, camiseta, moletom e calças folgadas. Preferi cabelos presos até descobrir que podia preferir cabelos curtos. Prefiro não usar maquiagem. E durante a maior parte da vida não tive o peso adequado para ser mulher – se você passa do limite você se torna outra coisa.

Essa é uma lista que não para de crescer. Quanto mais eu penso, mais itens aparecem.

E já houve um tempo em que eu preferia ser confundida com um menino.

Quando você é confundida com um menino, não precisa justificar nada. Pode jogar bola e videogame, fazer qualquer coleção, comprar qualquer roupa e ter mais peso do que o limite.

Quando você é confundida com um menino, nada que você faz precisa de explicação, você vai lá e faz. Não tem dois pontos depois de qualquer ato. Você pode.

De jogar bola a dizer que quem não se enquadra no padrão que você conhece parece outra coisa, sem se importar em como aquela frase vai sair. Você pode tudo.

Mas, depois de refletir muito – demoradamente, as usual – eu já não prefiro mais.

Eu ainda não li O Segundo Sexo, mas acho que Simone de Beauvoir tinha razão quando disse que não se nasce mulher. A gente se torna mulher.

Se torna mulher quando compreende que, na verdade, nunca preferiu ser menino. Se torna mulher quando descobre que o que prefere mesmo, de verdade, é fazer o que quiser fazer, vestir o que quiser vestir e falar o que quiser falar sem precisar explicar tudo.

Hoje, eu prefiro me reconhecer como mulher. Jogando bola e videogame, fazendo coleções dos meus heróis favoritos. Com meus cabelos curtos e minhas roupas compradas na seção masculina.

Hoje, eu prefiro me reconhecer como mulher e fazer de todas-as-coisas-de-menino-que-eu-prefiro-fazer os meus próprios manifestos.

E hoje – outro oito de março – prefiro que mais meninas que ainda preferem ser confundidas com meninos um dia também prefiram ser mulheres.

mulheres
Georgia Aquarium, 07 de março de 2018.

7 comentários sobre “um outro oito de março

  1. …eu amo essa quatro mulheres. Elas são todas filhas da MÃE… da VIDA… do MUNDO… do AM❤️R … da DOR … da ARTE … da ESCRITA … da AMIZADE … CRIATIVIDADE … SIMPLICIDADE … e transbordam BONDADE 💅👜🎼👠

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  2. Eu me super identifiquei com este texto, como em tantos outros desta incrível ansiosa de nome Marta Savi. Sempre amei futebol (jogava muito melhor que os meninos da minha rua e tinha uma canhota poderosíssima), e nunca me preocupei com as vaidades que exigem de uma menina. Eis que hoje, atingindo os outros algarismos dos 40, penso que vive tão intensamente e desbravei tantos outros mundos, justamente por ter este respeito e fascínio pelo masculino e feminino. Somos todos masculinos e femininos em tempos diferentes da existência. Para estas quatro mulheres fabulosas aí em cima, minha gratidão eterna a Deus por tê-las em meu caminhar e de meu filho. Por serem tão especias, intensas, MULHERES na expressão mais verdadeira da palavra. Amo e contem sempre com meu respeito e amizade!!!

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