silêncio.

Não demorou muito. Nem uma semana.

A morte. Não só de duas pessoas – uma delas mulher, negra, da periferia, política. Um assassinato de ideias.

Não demorou muito. Nem vinte e quatro horas.

Um evento puxado, esticado e moldado pra caber em qualquer fala. Em todo tipo de discurso. Todo mundo quer falar.

Quis. Desquis. Silenciei.

Silêncio, que saltou das obras de madeira e das paredes e o sufocou com um terrível e total poder, como se gerado por uma imensa usina motriz.
Subia do chão, do carpete cocado que ia de parede a parede, soltava-se dos eletrodomésticos quebrados e semi-quebrados da cozinha, as máquinas mortas que nem uma única vez haviam funcionado desde que estava ali.

Eu, que detesto perder, perdi pro silêncio. Mas ontem pareceu diferente, outro tipo de derrota. O silêncio – ensurdecedor por hábito – ontem foi outra coisa.

Silenciei. Posso me silenciar.

Escorria do poste de iluminação inútil da sala de estar, misturando-se com a vazia e muda descida de si mesmo do teto manchado por moscas.
Conseguia, na verdade, emergir de todos os objetos dentro de seu campo de visão, como se ele — o silêncio — quisesse suplantar todas as coisas tangíveis.

Do meu privilégio, do meu não risco iminente de ser baleada por pensar como eu penso, eu posso ficar quieta. Posso ler uma quantidade imensa de besteiras pelo meu feed e bloquear quem escreveu, que compartilhou, quem curtiu. Eu tenho a possibilidade de aumentar minha bolha com um clique. Costumo não usar muito essa ferramenta, porque essa redoma que cai sobre nós – todos nós que estamos aqui, confortáveis – já é suficientemente grande sem que a gente contribua muito pra ela crescer. Mas ontem usei.

Silenciei. Posso silenciar os outros.

Daí, assaltava não só seus ouvidos, mas também seus olhos. Ao lado do aparelho apagado de TV, experimentou-o como se fosse visível e, à sua própria maneira, vivo. Vivo! Antes, sentira com frequência sua austera aproximação; quando chegava, estourava sem sutileza, evidentemente incapaz de esperar. O silêncio do mundo não podia controlar mais sua cobiça. Não mais.
Não, quando virtualmente vencera.
(Philip K. Dick, Androides sonham com Ovelhas Elétricas?)

Quis escrever.

Quis conseguir organizar tudo que pensei de uma forma compreensível, que não fosse só mais um pedaço daqueles discursos todos. Que pretensão, essa minha. É claro que é discurso. Todo mundo quer falar. Quis que escrever fizesse alguma diferença. Quis transformar essas derrotas todas, que acontecem uma atrás da outra, em pauta, em impulso pra mover o mundo, em voz.

Quis que escrever fizesse alguma diferença.

Só que não faz.

Quando alguém que vê o mundo de uma forma parecida com a nossa morre, a gente também morre um pouco.

Que idiotas espalharam o boato de que as ideias não podem ser mortas pela força bruta? Não há operação mais fácil. Quando elas são assassinadas, só restam cadáveres.
(…)
É claro, surgirão outros, mas não tão cedo; não antes de um longo período de desordem, triste e tenebroso. E nada substituirá o que foi perdido, como nada substitui um ser humano prematuramente morto.
(Simone Weil. Fragmento de Carta)


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