o Antiquário

Era um Antiquário.

Ou, pelo menos, era daquele jeito que o panfleto anunciava a loja. Vendia-se de tudo. Tudo que fosse velho, usado, que pertencesse a outro contexto. Tudo que, apesar de fora do tempo, não poderia estar num museu. Curioso. Algumas coisas eram quebradas, lascadas, tinham pedaços faltando. Marcas de tempo que tinha passado enquanto aquelas coisas iam existindo.

Mika já tinha pensado muito sobre aquele lugar. Trabalhava ali já há algum tempo – nunca sabia precisar o exato. O Antiquário parecia um portal para um outro mundo, em que semanas, meses e anos não faziam o menor sentido.

Não recebiam muitos visitantes. Clientes, ainda menos. Na maior parte dos dias, uma ou duas pessoas entravam ali, ficavam uns minutos na loja, andando naqueles corredores apertados e potencialmente perigosos para gente desastrada, e, quando eram abordadas pelos funcionários, tendiam a ir embora. A dinâmica fazia com que cada atendimento fosse um tormento.

Mika – que sempre tinha uma teoria sobre qualquer coisa – tinha uma teoria sobre as pessoas que entravam no Antiquário.

Eram pessoas que preferiam a companhia de objetos a de outras pessoas. Mas não quaisquer objetos. Objetos que já tinham sido descartados por essas mesmas outras pessoas, essas que nunca iam a Antiquários a não ser quando precisavam se desfazer de alguma coisa, ainda que por muito menos dinheiro do que tinham gastado nela – o Antiquário, Mika já tinha ponderado sobre aquele tópico, nunca saía perdendo: comprava barato e vendia caro.

Talvez, Mika pensava enquanto via uma pessoa passar devagar entre os corredores de panelas de pressão de mais de cinquenta anos e o de velhos aparelhos de som, as pessoas que entravam no Antiquário queriam só mostrar para os objetos que estavam ali que alguém ainda se importava com eles. Que, mesmo abandonados numa loja de coisas antigas, sem qualquer cuidado de catálogo ou coisas do gênero, aqueles objetos ainda poderiam fazer parte do mundo. Alguém ainda poderia querer saber como funcionavam aqueles tocadores de vinil.

Era por isso, Mika refletia, que as pessoas que entravam no Antiquário iam embora sempre que outras pessoas tentavam falar com elas. Aquele lugar, para aquele tipo de pessoa, era uma espécie de portal. Não o mesmo portal que confundia o tempo na cabeça de Mika. Outro tipo. Um portal de silêncio.

– Mika, seu cliente.

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