cidade fantasma

Sempre pensei sobre o motivo que, no fim das contas, me levaria a pular uma sexta – sempre soube que isso ia acabar acontecendo. Eu ia terminar por estragar o calendário tão simetricamente construído que aparece cada vez que entro aqui. Ia chutar o balde da minha própria obsessão, que na verdade não passa de uma cela, como tantas outras no Mundo das Ideias.

Desde o começo, sempre pensei em como seria o final. É assim com tudo – tenho um grande problema com finais. Sou especialista nisso de pensar em catástrofes, então vale dizer que não é qualquer final. E largo das coisas, né. Já falamos sobre isso. Aliás. Andamos tendo várias conversas repetidas. Tô incomodada. Azeda. Arredia. Monotemática. E monossilábica.

Deixe vários textos prontos, me diz o mundo. Não se cobre por isso, me diz o mundo, outra vez. Você que manda aí, insiste esse mundo. O mundo me diz muitas coisas, na voz de várias pessoas. Eu escuto, sabe. E concordo, de coração. Só que acabo sempre ignorando solenemente os recados, porque… Porque sim. Porque tô aqui, confortavelmente nadando numa piscina de óleo fervendo e oferecendo a mim mesma uma dose de rum pra esquentar.

O motivo que me faria pular essa sexta não teve nada de especial.

Não foi uma viagem, não foi uma morte, não foi o fim da internet ilimitada. Foi só mais uma pretensa crise de pertencimento que foi ganhando de mim dia após dia. Mais uma pretensa crise como tantas outras que já vieram, como tantas outras que ainda vão vir. Dessas que aparecem por motivos tão importantes quanto a ordem das roupas no varal ou ter esquecido de comprar leite no mercado e, quando você vê, tão orbitando sobre qual é seu lugar no mundo, afinal de contas, você é essa pessoa que esquece de comprar leite no mercado e acha que roupas no varal precisam ter uma ordem.

Nada que não tenha solução. Nada que tenha sido diferente. Nada demais. Ninguém ligou.

E aí, pensando nisso, enquanto andava sem rumo por aí absolutamente decidida a terminar essa história de toda sexta de uma vez por todas, preferi não pular essa sexta. Até porque é sexta-feira treze, não que isso realmente importe.

Vá entender.

Ainda bem que ainda é sexta na Califórnia.


4 comentários sobre “cidade fantasma

  1. Já li, escrevi, apaguei e escrevi comentários e apaguei de novo… Mas acho que não há o que comentar Martinha. Está tudo aí, no seu texto e na sua mente. E eu estou aqui. E por mais que eu e outras pessoas estejamos disponíveis, somos outra individualidade com outros textos e outras mentes… Está tudo aí. Sem comentários.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Está tudo aí. Será que é só mais um jeito de dizer que nada está?
      Saudades, Duda!
      Gosto muito quando você aparece aqui, dá um quentinho no coração, mesmo nas semanas mais chatas!
      ❤️

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